EUGÉNIO FONSECA

Coesão Social e Territorial, Demografia e Democracia na União Europeia

Há poucos dias, participei num Seminário Internacional subordinado ao tema “Coesão Social e Territorial, Demografia e Democracia na UE, promovido por várias organizações, entre as quais destaco a BASE- FUT – Frente Unitária dos Trabalhadores. Coube-me integrar o painel sobre o tema: “O reforço do papel das regiões e autarquias na promoção da Coesão Social e Territorial”. Porque me parece um imperativo a levar a sério, se queremos ter mesmo um Portugal com desenvolvimento integral e sustentável, tendo nele um papel decisivo a desempenar pelas IPSS, deixo algumas das reflexões que partilhei com os participantes.

Antes de mais é necessário ter-se em conta os fatores que minam a Coesão Social. Consciente de que há muitos outros, refiro os seguintes: 1) A predominância de uma cultura individualista, excessivamente meritocrática, que coloca na satisfação dos interesses pessoais a sua referência principal e num tipo da construção da felicidade mais hedonista e efémera; 2) A criação de riqueza financeira é, sem dúvida, um desiderato inquestionável. É óbvio que não se pode distribuir o que não se tem. Todavia, já tivemos na história portuguesa níveis de crescimento económico, mas não diminuíram as desigualdades, porque a riqueza produzida concentrou-se na posse de alguns em detrimento de quem mais dela precisava. Defendo que na medida em que a economia cresce se deve fazê-la repercutir na atribuição de salários mais dignos e na diminuição tributária, por via da diferenciação positiva, sobre os rendimentos das pessoas e das pequenas e médias empresas; 3) A dificuldade no acesso ao trabalho por parte de públicos mais vulneráveis. Recordo a existência ainda significativa dos designados NEET, jovens que não estudam, não trabalham nem seguem uma formação, bem como da iliteracia funcional, cultural e digital; 4) As dificuldades na integração de migrantes; 5) A fraca relação intergeracional, assim como o isolamento e o nível de reformas de muitos idosos.

A coesão territorial, aumento da natalidade e reforço da democracia participativa são incontornáveis para a coesão social. Reclamam-se umas às outras. As IPSS têm uma missão irrenunciável para se alcançar tão grandes desígnios. Apenas algumas das sugestões que deixei no referido Seminário: 1) Viabilizar a aplicação local de medidas de políticas públicas que visem a solução das questões em apreço; 2) Disponibilizar meios de transporte, sempre que as autarquias não o façam, para que crianças e jovens, que habitem em lugares desertificados, possam, com mais facilidade, irem e regressarem das escolas, ou para as pessoas mais vulneráveis no acesso a serviços indispensáveis, não existentes; 3) Aumentar a capacidades das respostas de apoio à infância, tornando-as acessíveis aos casais jovens; 4) Potenciar o diálogo entre gerações e diferentes culturas, com a realização de atividades específicas; 5)  Abrir sempre as instituições à comunidade para que se possa assegurar o fortalecimento do associativismo; 6) Promover o voluntariado de proximidade.

A Constituição da República Portuguesa, a celebrar o cinquentenário da sua aprovação, nos artigos 255 e 256 refere que a regionalização, como forma de organização administrativa do território no continente, garante a descentralização. Este é um assunto que merece ser tratado com mais espaço. Talvez, em breve, voltemos a este assunto.

                                                                                                               Eugénio Fonseca

 

 

Data de introdução: 2026-03-11



















editorial

Plano interministerial e intersectorial para a Saúde e Longevidade da população (I)

O caminho da consciencialização pública e política sobre a necessidade de um Plano interministerial e intersectorial para a Saúde e Longevidade da população, cuidando do envelhecimento ao longo da vida, tem já um longo...

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA

Por uma democracia melhor
Vivemos num regime democrático. Este modelo de governação não é novo. Remonta aos tempos da Grécia Antiga. Não sendo, ainda, um modelo perfeito, é...

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

PSU: um regresso à inserção ainda por confirmar
Volto ao tema da Prestação Social Única, que tratei no artigo anterior. A simplificação dos apoios sociais é, em si mesma, uma boa ideia. O problema estava —...