Perdemos em agosto Eugénio Fonseca, de quem fui, nestes últimos anos, companheiro de colunas de opinião aqui no Solidariedade. Partiu um homem bom. Esta homenagem nasce da amizade, do trabalho comum e do testemunho público que deixou: o de uma vida empenhada em cuidar dos pobres sem desistir de combater as causas da pobreza.
Na preparação e lançamento do Rendimento Mínimo Garantido, foi um parceiro muito ativo. Procurava trazer a Doutrina Social da Igreja para a lógica da medida e, na fase dos projetos-piloto, insistia em que o alívio das situações de pobreza só fazia sentido se abrisse caminhos reais de inclusão. Tinha já a mesma preocupação que expressou no seu balanço pessoal dos 25 anos da medida, de que ela nunca seria «um instrumento para erradicar a pobreza, mas permitir que ela se tornasse menos agressiva no quotidiano de milhares de portugueses»[1].
Eugénio Fonseca preocupou-se sempre em dar testemunho. Fê-lo, entre muitas outras formas, nos artigos que publicava regularmente no Público, no 7Margens e no Setubalense, bem como nas entrevistas que lhe eram solicitadas. Usava a palavra para dar corpo às suas causas. Nesta despedida, detenho-me numa delas, na sua forma de pensar e combater a pobreza.
Outras marcas do que escreveu mereceriam destaque, como a sua defesa da causa do voluntariado, as suas preocupações com o futuro da democracia e as suas reflexões sobre os caminhos da sua Igreja. Mas escolho centrar-me aqui na pobreza porque é nela que melhor se cruzam a pessoa que conheci, a fé que o sustentava e a intervenção pública que deixou.
«Cuidar do pobre. Erradicar a pobreza»[2] é o título de um artigo seu no Público, de novembro de 2025, e resume o duplo compromisso que nos propunha. Defendia que devíamos procurar responder às necessidades imediatas das pessoas pobres sem desistir de combater as causas que produzem a pobreza. Para ele, a assistência era nobre e necessária, mas nunca podia servir de desculpa para desvalorizar a erradicação da pobreza.
Por isso nos interpelava a estigmatizar a pobreza, não os pobres, a denunciar a pobreza como expressão de injustiça social e a passar do assistencialismo para uma abordagem libertadora.
A pobreza era, para ele, uma questão política e sistémica, não um acidente nem um defeito de carácter. Escandalizava-o menos a escassez de recursos do que a sua distribuição e a aceitação estrutural da pobreza, de que gerações sucessivas pudessem viver na mesma condição. Repetia, por isso, que não faltavam meios nem conhecimento técnico para combater a pobreza, mas faltava vontade política.[3]
Mas a sua resposta não era apenas estrutural. Cuidar do pobre e erradicar a pobreza eram para ele deveres distintos e inseparáveis, a cumprir sem perder o encontro pessoal, um encontro assente na reciprocidade, não na sobranceria. Deveríamos, com os pobres, perguntar-nos o que podemos fazer juntos, ouvir as pessoas antes de decidir por elas. Daqui vinha a sua crítica à caridade que dá o que já não presta ou exige dos pobres virtudes que quem ajuda nem sempre pratica.[4]
Essa visão não surgia como elaboração solitária. Eugénio Fonseca apresentava-se antes como discípulo. Raramente argumentava apenas em nome próprio, preferindo ancorar cada posição num documento, num versículo, numa pessoa concreta ou numa experiência vivida.
A primeira dessas fontes, e a mais decisiva, foi D. Manuel Martins, o bispo que acompanhou em Setúbal, na década de oitenta do século passado, na crítica e denúncia dos efeitos da crise económica e social então vivida. Do bispo dizia que o «fez nascer de novo». A frase «a prática da caridade passou a ser um combate pela justiça e não uma forma de anestesiar a má consciência de um viver egocêntrico e egoísta» diz ter sido o bispo quem lha ensinou[5], precisando que ele agia «alicerçado nos imperativos que emanam do Evangelho e na Doutrina Social da Igreja e não de qualquer ideologia, com que muitos o quiseram identificar»[6].
A segunda foi o Papa Francisco, com quem partilhava a defesa da viragem do assistencialismo à reciprocidade. Dele vem a exigência de que quem vive em condição de pobreza seja também envolvido e apoiado num processo de mudança e responsabilização. A pergunta «que é que ambos podemos fazer?» é a tradução prática que ele deu a esta ideia[7]. Do mesmo Papa retinha ainda o «realismo evangélico» na solicitude pelos pobres e o aviso de que «é fácil cair na retórica, quando se fala dos pobres»[8].
A terceira fonte era o corpo da Doutrina Social da Igreja, que considerava mal conhecido pelos próprios católicos e de que era um dos nossos maiores conhecedores. Invocava recorrentemente a dignidade da pessoa humana, o bem comum, o destino universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. A expressão «partilha fraterna», que usava para falar de reciprocidade, vinha de Paulo VI, na Mensagem da Quaresma de 1978[9]; a definição de solidariedade como virtude moral, e não como sentimento, vinha de João Paulo II, na Sollicitudo rei socialis.[10]
A quarta foi S. Óscar Romero, o bispo salvadorenho que denunciou a violência e a pobreza no seu país e foi assassinado enquanto celebrava missa, e é reveladora em particular pela semelhança do percurso que Eugénio Fonseca lhe reconhecia. Descrevia-o como tendo sido antes «um clérigo de pendor mais espiritualista e com uma visão assistencialista quanto à pobreza», para quem os direitos humanos e a justiça social «não eram vistos como assuntos que considerasse relevantes» — até ao assassinato do amigo Rutílio Grande.[11]. É exatamente o percurso que descrevia para si mesmo de uma religiosidade herdada para uma fé comprometida, por via de um encontro.
A quinta vinha de uma linhagem de pensadores cristãos portugueses contemporâneos onde se destacam Alfredo Bruto da Costa e Manuela Silva, pioneiros do tratamento da pobreza como questão de política pública e não de assistência, e o injustamente esquecido Acácio Catarino.
Para mim, que sou sociólogo e cheguei ao que penso sobre o combate à pobreza sobretudo pelo que aprendi nas ciências sociais, rever após a sua morte o que com ele pensei, vivi e aprendi dá-me a noção clara de que nos encontrámos numa mesma visão por caminhos diversos.
O compromisso dele não se alimentava daí, mas de outra ordem de razões: «no dia a dia nós constatamos estas realidades», «nós somos testemunhas desses acontecimentos»[12], um testemunho em que avultavam trinta anos de experiência com a Cáritas.
Foi dessa combinação de fé, experiência e ação pública que nasceu a sua proposta de combate à pobreza, exigente nas causas, concreta nas respostas e profundamente humana no encontro.
Eugénio Fonseca foi um homem que argumentava com o magistério numa mão e o terreno na outra. Rezava pelos pobres que encontrava durante o dia porque, dizia, sem essa fidelidade interior quem ajuda pode tornar-se apenas um funcionário.[13]
Morreu-nos um cristão que queria a sua Igreja mais dedicada aos pobres e às causas sociais, sem nunca desistir de a pensar como comunidade aberta a todos.[14]
Morreu-nos um cidadão que queria um país mais justo e menos desigual. Morreu-me uma voz suave nos momentos difíceis e determinada na exortação à ação.
Se eu partilhasse a sua fé, não teria dúvidas de que seria recebido no céu de braços
[1] Eugénio Fonseca «25 anos de Rendimento Social de Inserção: Valeu a pena?», O Setubalense, 2 de julho de 2021
[2]Eugénio Fonseca, «Cuidar do pobre. Erradicar a pobreza», PÚBLICO, 16 de novembro de 2025: https://www.publico.pt/2025/11/16/opiniao/opiniao/cuidar-pobre-erradicar-pobreza-2154755
[3]«Não tenho dúvidas de que ainda não houve vontade política bastante para que se alcance a erradicação deste flagelo social» — PÚBLICO, 16 de novembro de 2025: https://www.publico.pt/2025/11/16/opiniao/opiniao/cuidar-pobre-erradicar-pobreza-2154755
«Tem de haver determinação, firmeza, e essa determinação tem faltado à classe política» — Agência ECCLESIA, 16 de novembro de 2019: https://agencia.ecclesia.pt/portal/dia-mundial-dos-pobres-presidente-da-caritas-portuguesa-lamenta-falta-de-vontade-politica-para-combater-desigualdades/
[4]«Penso por exemplo nos que: dão o que já não presta para si; prestam ajuda, com sobranceria e que olham de cima para baixo os necessitados; doam, impondo, a quem recebe, o cumprimento de obrigações virtuosas que eles não praticam» — «A promoção integral da pessoa em situação de pobreza», 7MARGENS, 23 de outubro de 2023: https://setemargens.com/a-promocao-integral-da-pessoa-em-situacao-de-pobreza/
[5]«D. Manuel Martins fez-me "nascer de novo"», O Setubalense, 13 de outubro de 2017: https://osetubalense.com/opiniao/d-manuel-martins-fez-me-nascer-de-novo/
[6]«D. Manuel Martins não pode ser esquecido», O Setubalense, 22 de setembro de 2023: https://osetubalense.com/opiniao/d-manuel-martins-nao-pode-ser-esquecido/
[7]«Temos que deixar de fazer mais vezes a pergunta: "De que precisas" e passar para "Que é que ambos podemos fazer?"» — «Agir com e pelos pobres», 7MARGENS, 2 de novembro de 2023: https://setemargens.com/agir-com-e-pelos-pobres/
[8]«Que a nossa solicitude pelos pobres seja sempre marcada pelo realismo evangélico» — Papa Francisco, citado em «A solicitude pelos pobres», 7MARGENS, 11 de novembro de 2023: https://setemargens.com/a-solicitude-pelos-pobres/
«É fácil cair na retórica, quando se fala dos pobres» — Papa Francisco, citado em «Agir com e pelos pobres», 7MARGENS, 2 de novembro de 2023: https://setemargens.com/agir-com-e-pelos-pobres/
[9]«Já se disse alguma vez que existe uma arte de dar e uma arte de receber; os cristãos não têm senão um termo para uma e outra: a compartilha fraterna» — Paulo VI, Mensagem da Quaresma de 1978, citado em «A solicitude pelos pobres», 7MARGENS, 11 de novembro de 2023: https://setemargens.com/a-solicitude-pelos-pobres/
[10]«Emudeceu-se a voz mais sonante e credível da fraternidade», Solidariedade, 8 de maio de 2025, onde invoca a Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987) como fonte da definição de solidariedade como virtude moral: https://www.solidariedade.pt/site/detalhe/15029
[11]«Caminhar juntos com S. Óscar Romero», 7MARGENS, 26 de março de 2022 https://setemargens.com/caminhar-juntos-com-s-oscar-romero/
[12]«no dia a dia nós constatamos estas realidades» — Agência ECCLESIA, 6 de março de 2020: https://agencia.ecclesia.pt/portal/o-que-mudou-efetivamente-foi-o-perfil-da-pessoa-que-ficou-em-situacao-de-pobreza-eugenio-fonseca/
«nós somos testemunhas desses acontecimentos» — Renascença, 9 de março de 2025: https://rr.pt/noticia/religiao/2025/03/09/portugal-esta-na-cauda-da-europa-do-voluntariado/416371/
[13]«Muitas, muitas noites antes de adormecer falei a Deus dos pobres que encontrei durante o dia e isto foi fazendo parte da minha conversão pessoal»; «Quem não reza aquilo que faz em favor dos mais pobres pode tornar-se um mero funcionário» — Agência ECCLESIA, 16 de novembro de 2024: https://agencia.ecclesia.pt/portal/igreja-portugal-muitas-noites-antes-de-adormecer-falei-a-deus-dos-pobres-que-encontrei-durante-o-dia-eugenio-fonseca/
[14]«Esta é a Igreja que eu amo!», 7MARGENS, 22 de janeiro de 2022: https://setemargens.com/esta-e-a-igreja-que-eu-amo/
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