No tempo do feudalismo medieval a sociedade estava organizada em três ordens: a nobreza ocupava-se da segurança, o clero tratava da salvação das almas e, finalmente, o povo trabalhava para alimentar todos.
Modelo de virtude discutível, é certo, o feudalismo tinha uma lógica interna inescapável. Tanto assim que verdadeiramente só foi posto em causa na revolução francesa quando deixámos de ser súbditos e passámos a ser cidadãos, se quisermos, quando, pelo menos em teoria, todos passámos a ser sujeitos à mesma lei.
Podemos estar a caminho de um novo feudalismo. Não que a alguém ocorra reintroduzir um modelo de ordens com sistemas legais separados ou privilégios que resultem exclusiva e necessariamente do nascimento.
O feudalismo que aí vem será de natureza diferente. A falha sísmica que vai fraturar a sociedade será entre os que têm conhecimento e poder, nomeadamente económico, e uma subclasse em formação que não vai contar para quase nada.
Os sintomas estão aí! Propomo-nos observar dois desses sintomas, um dos quais é pervasivo às economias de capitalismo avançado, o outro, mais especificamente português.
Um aspeto que tem vindo a intrigar os economistas é a perda do poder preditivo dos inquéritos de opinião sobre o sentimento dos consumidores. Até há pouco tempo o sentimento dos consumidores permitia prever com alguma acurácia a evolução do agregado do consumo privado, de longe a maior componente do PIB. Um sentimento negativo equivalia a crescimento fraco das despesas de consumo, um sentimento positivo permitia antever uma evolução benévola do agregado. Mas já não é assim! Sucessivos indicadores negativos de sentimento dos consumidores já não são incompatíveis com crescimentos robustos do consumo privado.
Paradoxo? Talvez, não tanto! O que se passa é que a sociedade está a ficar tão desigual que cerca de 10% da população representa mais de metade do consumo. Pode muito bem a maioria das famílias estar em dificuldades (daí o indicador negativo do sentimento), mas a camada afluente dos 10% estar a beneficiar de um aumento de riqueza por via da valorização dos ativos, nomeadamente financeiros, e com isso alimentar o crescimento do consumo privado agregado mesmo quando a maioria passa mal.
A parte baixa da distribuição dos rendimentos já conta para pouco!
No caso de Portugal temos um sintoma preocupante específico da nossa realidade. Um estudo recente do Banco de Portugal mostra que o salário mínimo no setor privado vale cerca de 91% do salário mediano.
Existe um consenso na teoria económica sobre a relação entre salário mínimo e mediano que recomenda que o primeiro não ultrapasse 60% do segundo. Acredita-se que quando mínimo e mediano se aproximam excessivamente os salários mínimos fixados por lei deixam de proteger aqueles para quem foram pensados, ou seja, os mais jovens e os menos qualificados. Se posso contratar alguém com experiência e qualificação por apenas um pouco mais de salário é pouco provável que empregue alguém mais jovem e inexperiente ou menos qualificado.
Em Portugal chegámos a um nível verdadeiramente patológico de 91%. Um dia destes temos metade da população a ganhar o salário mínimo o que significa que o mínimo legal dos salários deixou de cumprir a sua função primordial que é proteger os mais frágeis e se transformou num instrumento de dirigismo económico estatal.
É deprimente este estado de coisas em que as empresas praticamente só aumentam salários quando são legalmente obrigadas a fazê-lo. Os que estão na metade baixa da distribuição de salários começam a não contar para praticamente nada. O seu ativo mais precioso, a sua força de trabalho, é valorizada por uma decisão discricionária do poder político. Não é só o valor financeiro do salário que aqui está em causa – é também a dignidade e o respeito que o fator trabalho merece.
Tudo isto pode piorar e muito com a emergência da inteligência artificial. Apesar de tudo, mesmo os mais desfavorecidos, ainda têm a dignidade que resulta do trabalho – a participação no processo de reprodução do viver social. É possível que daqui a duas ou três décadas nem isso tenham – simplesmente sejam descartáveis nos processos produtivos e tenham de viver de subsídios públicos.
Podemos muito bem estar a caminho de uma distopia em que um novo feudalismo, porventura ainda mais cruel que a versão medieval, separe a minoria do conhecimento que controla os processos produtivos e o capital de uma subclasse que subsiste segundo modelos que nem sequer conseguimos antecipar.
Não há inqueritos válidos.