O outro lado da crise

É bem verdade que " há males que vêm por bem", como reza o ditado popular!
Apesar das várias referências ao "monstro" do nosso défice, que vários economistas da nossa praça vinham fazendo há anos, com especial destaque para o Prof. Aníbal, coube ao Dr. Durão a emblemática descrição da situação de "tanga" como a mais adequada para retratar o estado das nossas contas públicas!
Caiu o Carmo e a Trindade! 

Analistas, fazedores de opinião, jornalistas, políticos condenaram o alerta lançado, como se o mal estivesse no mensageiro que deu a notícia e não na notícia em si mesma!
E a notícia era simples mas horrorosa: o país estava, já na altura, confrontado com um "calote acumulado", qual monstro que teima em engordar, custe o que custar.
De então para cá, tem sido o que se sabe!

Entretanto, o vento mudou (e ainda bem), porque a governança que as últimas eleições mandou de férias perdeu a credibilidade política e a confiança que os governantes sempre precisam para ocupar tais lugares! 

Vem o Engenheiro Sócrates, com promessa de resolver as crises, sem aumentar impostos. Com a vitória no papo, manda às malvas as promessas feitas e desata a aumentar impostos, a pretexto de que não sabia o verdadeiro estado das contas públicas! 

Num acto de "grande magia", o Governador do Banco de Portugal tirou um coelho da cartola e apresentou o número do 6.83% para nos preparar a todos para um apertar do cinto nacional.
As reacções aí estão: os sindicatos saíram à rua (embora sem grande apoio popular)!
Resta aguardar pelos estragos que algumas medidas de austeridade irão provocar junto de pessoas e famílias em situação de pobreza, desemprego, doença e endividamento!
Aqui é que o descontentamento poderá fazer estragos na imagem do Governo!

Porém, défice à parte, todo este "atormentado processo" tem tido um mérito: quebrar o tabú da situação que há muito existe em Portugal. A saber: a escandalosa segregação entre os chamados "funcionários públicos" (portugueses de primeira que se arrogam o direito - talvez legítimo - de não perderem qualquer regalia) e os "outros trabalhadores portugueses" (que são portugueses de segunda e têm de se contentar com um sistema de Segurança Social em estado de coma anunciado, se nada for feito para o evitar).

Estamos confrontados com um Estado sem equidade social, alicerçado num sistema de segregação que o torna iníquo e injusto.
A verdadeira questão não é, pois, a percentagem do défice, mas sim a iniquidade do Estado e da classe política que se tem revelado incapaz de gerir os destinos colectivos da Nação com justiça social, garantindo o acesso ao sagrado direito à igualdade de oportunidades para todos, evitando que, para alguns se reformarem aos 52, 55 ou 60 anos, outros tenham de vir a trabalhar até aos 68 ou 70 para beneficiarem de umas magras centenas de euros para a sua velhice, se lá chegarem!

Se o enredo do défice servir para trazer mais equidade social e acesso a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos, se nos trouxer mais disciplina para as contas públicas e uma nova consciência de cidadania onde acabem os cidadãos de primeira e de segunda, então... abençoado défice! 

* maia@paroquia-areosa.pt

 

Data de introdução: 2005-09-06



















editorial

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Um provedor para zelar pela autonomia de todas as IPSS só seria admissível se fosse escolhido pelo conjunto de todas as IPSS, de todas as suas origens, de todas as afinidades e de todas as Entidades Representativas. 

Não há inqueritos válidos.

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