JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

A subida das taxas de juro e o mal que nos pode fazer

As taxas de juro estão a subir um pouco por todo o lado.
Nos Estados Unidos as taxas de juro de 10 anos estão um par de décimas acima de 5%, em valores que não se viam desde o início deste século. No Japão, onde as taxas de juro de curto prazo controlados pelo banco central continuam em níveis muito baixos (taxa de referência de 1,25%), as taxas nos prazos mais longos, onde o mercado domina, estão em níveis que só comparam com os valores de meados dos anos 90 do século passado. Em França as taxas de juro de 10 anos estão a aproximar-se dos 5%, registando máximos de mais de 20 anos.
De onde vem esta onda de pessimismo nos mercados de dívida?
Em parte, o aumento dos prémios de risco da dívida deve-se a um receio de que se instale um impulso inflacionário persistente que obrigue os bancos centrais a aumentar as taxas de juro de referência. Enquanto não houver mais claridade sobre a evolução da crise energética, dos preços dos combustíveis e da potencial transmissão inflacionária dos mesmos, os investidores vão continuar a exigir prémios de risco mais elevados para continuar investidos, sobretudo nos prazos mais longos.
Depois, tudo isto se passa numa altura em que todas as economias do G7, com a exceção da Alemanha, registam ratios de dívida bruta acima de 100%, ou seja, em máximos absolutos em tempo de paz. Para piorar as coisas, em economias com peso significativo como os Estados Unidos ou a França, o setor público continua a correr deficits na casa dos 6% do PIB e não se vê no curto prazo uma qualquer solução, vontade ou capacidade política para corrigir o curso das coisas. No Japão, não obstante a situação calamitosa em termos da dívida, o governo continua a apregoar uma política orçamental expansionista como se vivesse na maior das folgas.
Em Portugal vamos vendendo a nós mesmo a ilusão de que estamos relativamente protegidos desta crise dado que corremos orçamentos equilibrados e a dívida pública tem seguido um curso descendente na sua comparação com o PIB.
O equilíbrio orçamental português é uma ficção. O consolidado da administração central com as autarquias e as regiões autónomas apresentou em 2025 um déficit gigantesco de mais de 5 mil milhões de euros. O suposto excedente orçamental resulta do saldo positivo da segurança social de cerca de 7 mil milhões de euros que mais que compensa o deficit das administrações públicas.
O excedente da segurança social deve-se ao crescimento do emprego em grande parte alimentado pela imigração e, obviamente, é tudo menos garantido que seja sustentável. À mais pequena aragem de crise global, uma retração, por temporária que seja, do turismo, o fim dos estímulos fiscais do PRR e todo o edifício pode ruir em menos de um fósforo.
Temos no nosso país ainda outras fragilidades relacionadas com as taxas de juro. Segundo o último informe do Banco de Portugal quase 70% dos créditos hipotecários em Portugal têm taxa variável o que significa que, para muitas famílias, o crescimento da “prestação da casa” pode ficar incomportável sobretudo se o mesmo coincidir, como está a acontecer, com um impulso inflacionário significativo. Como termo de comparação, em França ou nos Estados Unidos, a quase totalidade do crédito hipotecário é realizado a taxa fixa. O setor público desses países pode estar mais exposto à subida das taxas de juro, contudo, o setor das famílias está mais protegido.
Aparentemente aprendemos pouco com o ajustamento de 2011-2013. Retiremos a imigração e os saldos positivos da segurança social e o Estado continua a gastar o que não tem, as famílias continuam a endividar-se a taxas variáveis e a expor-se a uma crise de taxas de juro que parece estar para ficar.
O que para já está a salvar o dia é a extraordinária resiliência que a economia mundial tem demonstrado à crise energética desencadeada com a guerra no médio-oriente. O investimento massivo em centros de dados que alimentam a revolução da inteligência artificial bem como a surpreendente resiliência do consumo das famílias nas principais economias, têm sobrelevado os efeitos negativos dos erros de política e da crise energética. Os índices bolsistas continuam próximo de máximos e, provavelmente, é o efeito riqueza daí resultante que está a suportar a resiliência do consumo das famílias.
Mas tudo isto é muito frágil. Talvez passemos entre os pingos da chuva, contudo, se der para correr menos bem a nível global podemos preparar as costas para levar pela medida grande. Infelizmente toda a política orçamental do atual governo, incluindo o orçamento para 2027, tem feito tudo o que pode para aumentar a nossa fragilidade.

 

Data de introdução: 2026-10-12



















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