LIVRO «O QUE SABEMOS SOBRE A POBREZA EM PORTUGAL?»

Portugal padece da falta de diálogo entre o conhecimento científico e as políticas sociais

Uma visão integradora da pobreza em Portugal, com perspectivas diversas sobre o problema de quem trabalha no terreno. Esta poderá ser uma sinopse do livro “O que sabemos sobre a pobreza em Portugal?”, uma obra de homenagem póstuma a Leonor Vasconcelos Ferreira, que morreu em 2008 e era considerada uma das mais reputadas investigadoras em Portugal na área da mensuração da pobreza e distribuição de rendimentos. A publicação é uma iniciativa da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, coordenada pelos professores Aurora Teixeira, Sandra Silva e Pedro Teixeira.

Aurora Teixeira, uma das responsáveis pela edição, critica a reposta social portuguesa baseada num conceito simplista de pobreza, em que o factor monetário é o principal índice de medição. “Muitas vezes ao falar de rendimento social de inserção diz-se que é contraproducente, mas é preciso ver que se fosse integrado com políticas de educação, emprego, habitação, certamente que os resultados seriam diferentes do que aqueles que temos”, refere. A investigadora, especialista em macroeconomia, vai mais longe e afirma que a visão política em Portugal é “retrógrada” no que toca a estas questões. A visão de que é dando dinheiro às pessoas que elas saem do ciclo de pobreza, é uma visão retrógrada que deve ser afastada e combatida”.

A investigadora defende um diálogo mais próximo entre as instituições que trabalham no terreno e os governantes políticos. Para Aurora Teixeira a visão “de cima” não funciona. “Este livro foi organizado em forma de debate, com testemunhos de pessoas que trabalham no terreno e que têm a perspectiva de como podemos melhorar o combate à pobreza e indicam precisamente algumas medidas a tomar”, explica. Para a investigadora é também fundamental criar condições para uma melhor integração da política com a prática. “Desde a educação, às políticas urbanas, à economia, tudo tem que ser visto de forma abrangente”, e deixa um exemplo: “o facto de Portugal ter concentrado determinadas profissões no seu tecido empresarial (têxteis, calçado) ajuda a disseminar os ciclos de pobreza, pois há determinadas profissões que por si só são desqualificantes e que não ajudam a convergir em termos de rendimentos”.

Segundo os autores, já existe muito conhecimento sobre as causas da pobreza em território nacional, mas é um conhecimento disperso e pouco utilizado na definição de políticas sociais. “Existe um afastamento entre aquilo que é a academia e a prática”, diz Aurora Teixeira e defende que as universidades e o conhecimento científico devem ser melhor veiculados ao grande público. “Não é só a questão dos políticos olharem para a academia, mas a própria academia deve também ser mais activa no sentido de informar e de ser interventiva do ponto de vista social”.
As reflexões dos investigadores são complementadas com as de diversas entidades que trabalham na área da pobreza e desigualdades sociais, entre as quais a Federação Portuguesa do Banco Alimentar Contra a Fome, a CITE - Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego e o CESIS - Centro de Estudos para a Intervenção Social.

Bispo do Porto salienta a importância das redes sociais em contexto de crise

D. Manuel Clemente, orador convidado na sessão de apresentação da obra, que decorreu a 22 de Junho na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, salientou a preocupação da generalidade dos autores em olhar a economia com um sentido “profundamente humanista e social”. O bispo do Porto falou da importância das redes sociais e de vizinhança numa altura de crise. “Só as redes sociais e de vizinhança têm impedido que a situação social portuguesa expluda”, afirmou e pediu soluções para o futuro. “Mas temos de pensar não apenas em termos imediatos, tenhamos cuidado, abramos os olhos e sejamos mais solidários, porque é da nossa própria sobrevivência que se trata”, sublinhou.

Nas suas declarações, o bispo do Porto pediu também que as respostas sociais imediatas se concentrem nos desempregados de meia-idade sem formação para um mercado de trabalho que exige crescente especialização. Considerando que “ainda se vão encontrando” ofertas de emprego especializado, absorvidas pelos mais novos e mais qualificados, D. Manuel Clemente disse que o “mais complicado” é o regresso ao trabalho de pessoas que “estão a meio da vida e já não têm a disponibilidade para aprender que tinham na juventude”.
O bispo do Porto lembrou ainda que é necessário reforçar a “ajuda e colaboração” a todas as instituições sociais, com destaque para o papel do voluntariado.

Texto e fotos: Milene Câmara

 

Data de introdução: 2010-07-17



















editorial

As amas em Creche Familiar

Publica-se neste número do “Solidariedade” o texto do acordo com a FSUGT, na parte que contempla também os novos valores de remunerações acordado para vigorar a partir de 1 de janeiro de 2024.

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA

A propósito do contributo da CNIS para as próximas eleições
É já tradição que as organizações de diferentes âmbitos, aproveitem os atos eleitorais para fazerem valer as suas reivindicações mais...

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

Cuidar da democracia
Neste ano vamos a eleições pelo menos duas vezes (três para os açorianos), somos chamados a renovar o nosso laço político com a comunidade, escolhendo...