RONDA DOS SEM ABRIGO

No dia em que a Lili fez anos

Domingo, 28 de Agosto de 2005

A Lili fez anos, comecei por comer uma fatia de bolo em casa dela. Estava eufórica, muito feliz porque tinha a netinha consigo.
Fomos de seguida fazer as compras (as do costume, salsichas, bolachas, sumos e leite chocolatado), mas o dinheiro não deu para os 150 sacos a que já estávamos a habituar-nos. Fiquei triste, por ter que optar por apenas 120.
Quando já tínhamos os sacos prontos, chegou a Manuela e o marido com o pão. Já está com melhor cara (na outra semana estava doente), sempre muito simpática e prestável. Um dia destes (diz ela), quando se sentir com mais forças vem para a rua também. Fomos buscar os bolos, gentilmente oferecidos pela Manuela Cardoso.
Sacos ternura prontos, sacos especiais prontos, roupas separadas, e alguns sapatos, formámos um circulo, o Fernando, a D. Júlia, a Lili, a Anabela, eu e a D. Fatinha, para a leitura que o Fernando fez do Salmo 38 do Novo Testamento. Orámos pelas ajudas e por todos os que estão à nossa espera. Saímos para a rua.
Parámos na Av. da Boavista e lá estava o Hélder à nossa espera, assim como o João. O João precisa de sapatos, mas não temos para o número dele. Seguimos até ao Rocha. Está doente, com gripe. Fiquei triste porque estava a tossir, e ele não se pode fragilizar. Espero que esteja melhor, penso muito nele.
Em Júlio Dinis aguardavam-nos muitas pessoas, entre elas aquela mãe com os meninos, ela ainda bebé, ele com uns olhos doces lindos (assim um menino, nem me importava). A Anabela distribuiu as roupas, grande confusão, uma t-shirt, uma camisa, umas calças. Não há calças para todos, nem meias, nem cuecas. Grande desconsolo. Ouve-se uma voz: - “Anabela só uma peça para cada”. Apareceu o Sr. Carlos (o cozinheiro), disse que era só para fazer uma visita, e foi-se embora (com o seu saquinho ternura). Fazem-se as despedidas, até à próxima semana.
Em Cedofeita, o Miguel está triste e nervoso. A D. Júlia procura acalmá-lo, mas o desespero tomou conta dele. É urgente a sua entrada na Instituição, muito urgente mesmo.
Carregal, parece uma festa. São tantos...saímos dos carros e logo a Lili corre para mim: \"a mãe do bebé está aqui\" (lá estavam os três alcoolizados como nas últimas semanas, pai, mãe e filho, que ainda mama). Entrei para o carro outra vez, liguei o 144 (número de apoio social a crianças e jovens) para pedir ajuda. A técnica estava a atender um caso muito grave e urgente. Mas, o meu caso também é urgente, pensei..., aguardei tempo demais, o casal foi-se embora! A Anita, espreita para dentro do carro, deve ter achado estranho eu não ter saído, mandei-lhe um beijinho com os dedos na boca. Desliguei, o telefone. A Lili entregou os sortidos às crianças. Ficaram radiantes. Falta-me a boneca para a pequena Andreia, ela olha-me e pergunta-me com os olhos. Perguntei à mãe da Sabrina como estava a correr a gravidez. Respondeu-me que estava tudo bem. Fiz uma careta à pequenita e a mãe perguntou-me se eu a queria. Nem ela sonha como...mas não pode ser! A Inês ficou triste com a toalha que lhe trouxe. Não era de banho!!! Ela precisa (com urgência) da toalha de banho!!!! E...outra para o cabelo!!!! He! He! He!
Fomos embora, para o Hospital de Santo António. Os nossos conhecidos já lá estavam à espera. Fomos entregar um saco à mocinha de óculos escuros (Venezuelana) que está na urgência. Não terá procurado ajuda, como nos tinha dito, ainda continuando com a mesma roupa e em pior estado. Agora não se podem refugiar lá dentro. Que será feito do outro senhor que ficava cá fora no abrigo e que tinha um problema nas pernas?
Olha, o carro do Fernando avariou e o meu também foi abaixo. Que se terá passado? Nada que não se tenha resolvido. Seguimos viagem.
Quando chegámos a S. Bento já eu falava novamente com as técnicas do nº 144. Sem a identificação do casal, nada feito. Será necessário chamar a polícia quando aparecerem. Nem pensar, é demasiado violento!! Temos que encontrar outra alternativa, agradeci a gentileza da senhora.

Em Alexandre Herculano soubemos que o Valdemar e o Fernando foram para uma instituição. Agora estão lá dois homens de um lado e um casal do outro. Um dos homens é ainda convalescente de uma operação aos intestinos (como é possível aguentar sem conforto e sem o carinho do lar). O cheiro da \"ex. Vivenda Silva\" é insuportável. Mas a recepção é sempre boa.
Contam-se os sacos, o Pedro também conseguiu arranjar alguns, ainda bem.

Vamos para Camões. Questionei-me como estaria o ambiente entre portugueses, russos e ucranianos. Já estavam todos amigos. Os imigrantes continuam a beber. A vida não corre.
O Rui voltou a falar-me do cão (ele quer um cão para companhia). Já combinei com o Carlos, vamos levar-lhe o cão ao Porto, um dia destes. O Fernando está pior da psoríase (doença de pele que lhe provoca muito prurido e encrostamento da pele, dando mau aspecto). Aconselhámo-lo a ir até à praia, mas isso só não basta...
Estava a ficar tarde, o dia seguinte era de trabalho. Vamos embora. Ouviu-se uma voz: \"Isabel, sabes onde quero ir?\" - \"Claro que sei!\"
Teve que ser...fomos ao Capa Negra, já estávamos com um ratinho no estômago. Bem, eu só tinha 2 míseros €. O Fernando foi-nos logo avisando, que não havia sangria para ninguém. Passou-nos a sede rapidamente!!! O Zé atrasou-se para receber o saquito, espreitava-nos pela janela ansioso. Dividimos os rissóis por todos e deixámos um para o Zé. O Pedro chegou entretanto e entregou-lhe um dos sacos dele.
Fizemos contas aos sacos, muito poucos, quase nada. Restavam-nos os bolos que estavam na caixa e os sortidos. A caminho do Aleixo, levámos mais alguém connosco.
Falámos sobre desintoxicações e dores. Sou ignorante, faço algumas perguntas, dou a minha opinião. Estamos de acordo, eu, a Anabela e o nosso \"acompanhante\".
Já não há roupa, nem sapatos. Nem comida... acabou a ronda. São 2h30, e o Fernando conversa. - \"Fernando tenho sono, tenho que ir dormir, tou cansada\". Mas feliz, acho que a noite correu bem. Fizemos a nossa oração de agradecimento. Eu voltei a falar com o menino Jesus (foi com ele que aprendi a falar) e com o papá. Sei que é este o meu caminho. 

Crónica de Isabel Prates (Membro do Grupo da Ronda dos Sem Abrigo)

 

Data de introdução: 2005-10-28



















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