A depressão Kristin passou por Portugal, na noite de 27 para 28 de janeiro e deixou um vasto rasto de destruição na Zona Centro do País, atingindo com especial impacto os distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e também Castelo Branco.
A chuva intensa, mas especialmente o vento, com rajadas que chegaram aos 200 km/hora em alguns pontos, provocaram mortes, feridos, desalojados e deixou milhares de pessoas sem eletricidade e comunicações.
O Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) classificou a Kristin como uma ciclogénese explosiva, que é o rápido agravamento (intensificação) de uma área de baixa pressão em latitudes médias. O fenómeno também é conhecido como bomba meteorológica ou ciclone bomba.
Muitas IPSS situadas nas zonas afetadas também sofreram danos, à semelhança de particulares e empresas e de muitos espaços públicos, uns mais graves do que outros. Mesmo assim, e apesar das dificuldades, as instituições funcionaram dentro do possível, mantendo o apoio aos seus utentes.
E se as respostas à infância reabriram, na maioria dos casos, logo após o fim-de-semana, as valências de apoio aos mais velhos sofreram constrangimentos impactantes.
Muitos Centros de Dia funcionaram condicionados e só para situações mais complexas e os Serviços de Apoio Domiciliário foram fortemente afetados, tendo sido assegurados dentro das possibilidades de cada instituição, principalmente as refeições, sendo que muitas das vias estiveram cortadas devido, especialmente, à queda de árvores.
Provavelmente, o distrito mais afetado terá sido o de Leiria, com a própria cidade a ser bastante fustigada, tendo ainda, passadas duas semanas do evento meteorológico, graves problemas para recuperação de telhados e muitos trabalhos de limpeza do espaço público, mas também de reposição da eletricidade e das comunicações.
Esta foi aliás a primeira dificuldade que Carla Verdasca, presidente da UDIPSS Leiria, enfrentou.
“Assim que aconteceu o que aconteceu, de terça para quarta-feira, ficámos todos incontactáveis. Até nós, UDIPSS, conseguirmos perceber a dimensão disto tudo, quer com a Segurança Social, quer com outras entidades, foi terrível, porque não conseguíamos contactar ninguém”, conta, revelando que “só na sexta-feira é que houve rede em algumas zonas”.
“A nossa primeira dificuldade foi ter informação. Quando na sexta-feira percebemos que já era possível contactar as instituições, procurámos saber como estavam as associadas, porque também não conseguíamos ir ao terreno, porque havia muitas estradas por onde não era possível passar”, recorda, sustentando que a Segurança Social cedo foi para o terreno: “A Segurança Social fez visitas às IPSS que têm resposta residencial e perceberam que a necessidade emergente eram os geradores para as instituições poderem funcionar, mas também água potável e ainda, em alguns casos, refeições quentes e toalhetes, porque não havia água. E a primeira resposta para todas foi a entrega de geradores”, revela Carla Verdasca, considerando que, “nesse sentido, houve uma rápida resposta, porque nenhuma instituição teve de fechar portas”.
No geral, e não apenas no distrito de Leiria, os principais danos sofridos pelas IPSS foram ao nível dos telhados, recreios e espaços exteriores, janelas e persianas, painéis fotovoltaicos, carrinhas, quadros elétricos, equipamento de cozinha e mobiliário, entre outros.
Em consequência, muitas ficaram sem eletricidade, água, comunicações, o que tornou muito difícil o funcionamento, em especial das valências residenciais.
“As respostas de infância fecharam até terem eletricidade ou a Proteção Civil autorizar a reabertura e assim aconteceu passados dois, três dias. A maior parte teve o aval das autoridades. Percebi que na segunda-feira a maior parte ia abrir”, refere a presidente da União de Leiria, acrescentando: “Em termos das instituições com respostas residenciais, a partir do momento que passaram a ter gerador, as necessidades passaram a ser o combustível e, em algumas situações, a água potável”.
E se a passagem da depressão Kristin castigou fortemente as instituições, a situação continua muito complicada, porque não para de chover e não é possível reparar os telhados reparar, “para além da falta de mão-de-obra para fazer essas reparações”.
Também no distrito vizinho de Santarém, a UDIPSS quis, desde cedo, perceber o que se passara com as suas instituições.
“Desde os primeiros momentos, a UDIPSS Santarém esteve em contacto direto com as instituições associadas, recolhendo informação sobre os impactos verificados no terreno. Embora algumas IPSS não tenham sido afetadas, um número relevante registou prejuízos materiais graves e constrangimentos operacionais sérios, principalmente no norte do distrito”, deu conta Luís Jacob, presidente da União escalabitana, numa carta dirigida ao Solidariedade, onde acrescenta: “Entre os principais problemas identificados encontram-se destelhamentos extensos, queda de árvores sobre edifícios, destruição de claraboias, painéis fotovoltaicos e coberturas, infiltrações, rachas em paredes, danos em parques infantis, anexos e viaturas essenciais ao transporte de utentes. Em vários casos, as instituições ficaram temporariamente sem eletricidade, água, internet e comunicações, tendo recorrido a geradores insuficientes para garantir o funcionamento normal das respostas sociais, muitas vezes com dificuldades no acesso a combustível”.
E, na verdade, o combustível para os geradores é já um enorme problema para as instituições que necessitaram daqueles equipamentos para poderem funcionar, porque, para além de todos os outros, tem sido um avultado custo com que as instituições não contavam.
“A questão do combustível para os geradores é problemática, porque há instituições que estiveram mais de uma semana a funcionar com geradores, o que gerou um custo muito grande com combustível”, relata Carla Verdasca.
Também Luís Jacob considera que, “para além dos danos físicos, as IPSS enfrentam agora encargos financeiros muito elevados para poderem retomar a normalidade”.
“Reparações urgentes, substituição de equipamentos, custos acrescidos com água, gás, eletricidade, combustível, alimentação e horas extraordinárias dos trabalhadores estão a gerar sérias dificuldades de tesouraria. Muitas destas despesas não se encontram totalmente cobertas por seguros, colocando em risco o equilíbrio financeiro de instituições que já operam com margens muito reduzidas”, lê-se na missiva enviada à redação pelo presidente da UDIPSS Santarém.
Esta preocupação é extensível à União Distrital de Coimbra, onde diversas instituições foram fortemente afetadas. Gil Tavares, presidente da UDIPSS conimbricense, refere que “a União já contactou as instituições associadas para fazer um apanhado dos danos causados pela depressão Kristin.
Há instituições com danos bastante avultados e, consequentemente, com gastos extraordinários que só vão agravar situações económico-financeiras já de si frágeis.
“A UDIPSS Santarém está a articular com a Segurança Social e com outras entidades, no sentido de encontrar respostas rápidas e adequadas. Considera, no entanto, essencial que sejam ativados mecanismos excecionais de apoio às IPSS afetadas, compatíveis com a dimensão dos prejuízos e com o papel absolutamente insubstituível que estas instituições desempenham no território”, argumenta Luís Jacob.
Já Carla Verdasca apelida a situação de “catástrofe”, considerando que “tem de haver medidas para as instituições como houve para os particulares e as empresas e têm de ser sem grandes complicações”.
“Tenho o reporte de uma instituição em que os danos não eram muitos no telhado, mas, como não para de chover, já lhe começou a pingar em alguns quartos. Mas isso é a realidade de todos nós nas nossas casas. O telhado até pode ter sido consertado com uma lona, mas, entretanto, com as infiltrações, a tinta dos tetos já está a empolar. Bastou a chuva daquela noite para as infiltrações começarem a surgir”, relata a líder da UDIPSS Leiria, deixando um alerta: “Neste momento, o pensamento é reparar, mas as instituições vão ter problemas nas infraestruturas por causa das infiltrações. Por isso é que esses apoios do Estado também têm de precaver essas situações. Não sei se a resposta vai ser rápida ou não, nem se as instituições têm fundo de maneio ou não, porque muitas têm situações financeiras complicadas. Aliás, não sei como é que vão pagar faturas de mais de uma semana de combustível para o gerador. Também para estes gastos extraordinários terá de haver ajudas”.
Através de uma Resolução do Conselho de Ministros, o Governo já avançou com apoios aos afetados.
Entretanto, a solidariedade já começa a fazer-se sentir e, “face aos gastos elevados com combustível para os geradores e com as reparações, as instituições deram nota que donativos monetários eram bem-vindos, podendo as pessoas contactar a IPSS a quem queiram doar, através da União Distrital”, avança Carla Verdasca, que dá conta da dificuldade em avaliar em concreto as necessidades imediatas das instituições: “Isto é um dia de cada vez, porque hoje uma instituição não tem energia elétrica, mas amanhã já tem, o que precisam num dia, já não precisam no outro a seguir, o que ontem não precisavam, hoje precisam. Também para nós é difícil dar uma lista das necessidades, porque amanhã já está desatualizada”.
Por outro lado, a UDIPSS Porto contactou a congénere leiriense disponibilizando-se para fazer uma sessão de esclarecimento gratuita a todas as associadas da União de Leiria sobre as ajudas que o Governo disponibilizou para as IPSS, para que as instituições possam saber o que têm de fazer para aceder a esses apoios. “Este tipo de ajuda também é importante numa situação como a nossa”, refere.
Luís Jacob, na nota enviada ao Solidariedade, relevou o facto de muitas IPSS terem assumido “um papel central no apoio à comunidade em geral, garantindo refeições, banhos quentes e apoio logístico à população afetada, a cantinas sociais, bombeiros, Exército, Proteção Civil e funcionários municipais, durante longos períodos diários, muitas vezes com equipas em situação de grande exaustão”.
Importa salientar que as instituições, apesar dos fortes constrangimentos, só continuaram a funcionar e a apoiar os seus utentes porque dirigentes, trabalhadores e voluntários assim o permitiram, mesmo tendo sofrido nas próprias casas os devastadores efeitos da tempestade.
Entretanto, à data que escrevemos este texto, já lá vão duas semanas após a passagem da depressão Kristin e a chuva continua intensa e persistente, tendo-se estendido a outras zonas do país, tendo já provocado muitas inundações, deslizamento de terra, corte de estradas e mais devastação.
Pedro Vasco Oliveira (texto)
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