JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

A derrocada das bitcoins ou porque não acredito que sejam o dinheiro do futuro

As criptomoedas estão de novo na berra.

Uma das razões é a correção brutal de valor que sofreram nos últimos tempos. Desde novembro de 2021 que a bitcoin, a mais conhecida das criptomoedas, perdeu cerca de dois terços do valor de mercado.

Outro dos motivos de interesse é a experiência de El Salvador, país onde a bitcoin tem, desde algum tempo, curso legal.

Finalmente, um pouco por todo o lado (também em Portugal), começa a falar-se da necessidade de regulação bem como de tributação dos ganhos com o dinheiro digital.

Creio que terei sido dos primeiros a interessar-me pelas moedas digitais e a escrever sobre o tema.

Fiquei simplesmente fascinado com a simplicidade do conceito e, sobretudo, com o sistema de suporte, a famosa blockchain, ou, se quisermos dizer em português, o sistema descentralizado de registo e confirmação das transações.

Notar que a ideia do dinheiro digital nasceu como utopia libertária.

Satoshi Nakamoto, seja lá quem for (não é garantido que se conheça a pessoa (ou pessoas) por trás do pseudónimo), pretendia criar uma forma de dinheiro que não dependesse do poder coercivo do estado, que estivesse ao abrigo da arbitrariedade dos bancos centrais, que pudesse ser criada e circular numa comunidade livre, entre iguais e sem qualquer poder centralizado.

Mais utópico e mais libertário seria impossível.

Curiosamente, o meu deslumbramento intelectual nunca me impediu de perceber desde o início que, embora defenda que o dinheiro como o conhecemos hoje está obsoleto, as bitcoin nunca seriam o dinheiro do futuro.

O dinheiro, para ser dinheiro, deve preencher três funções: unidade de conta, meio de pagamento e reserva de valor.

Não me ocorre nada cujo valor se exprima em bitcoins. Em teoria seria possível fazê-lo. À cotação atual um café custaria mais ou menos 2 milésimos de cêntimo de uma bitcoin. Convenhamos que não parece muito prático!... Acresce o problema da instabilidade. Como o valor da cotação das bitcoins varia muito em prazos curtos, a expressão numérica dos preços seria praticamente impossível de acompanhar. Manifestamente não é conveniente como unidade de conta.

Poderia servir como meio de pagamento se a aceitação fosse generalizada (ou obrigatória como acontece em El Salvador). Mas, mais uma vez, não seria prático. Com bitcoins poderíamos fazer cinco pagamentos por segundo, um sistema como a Visa, por exemplo, permite fazer vinte e quatro mil.

A função do dinheiro que as bitcoins mais aproximam é a reserva de valor. Nada nos impede de comprar bitcoins como uma classe de ativos, da mesma forma como temos contas bancárias, ações, títulos de dívida, ouro, etc.

Contudo, mesmo como reserva de valor, as bitcoins têm inconvenientes.

Não há um fundamento real para o seu valor. Podemos sempre dizer que, como qualquer outra coisa neste nosso vasto mundo, as bitcoins valem o que alguém está disposto a pagar por elas e também é verdade que as podemos converter em dinheiro “real” através dos mercados.

Nesta perspetiva podemos classificar as bitcoins como uma espécie de ouro digital. Também não se conhece ao ouro um valor intrínseco importante embora, ao contrário das bitcoins, sempre possa ser usado para fazer joalharia ou numas quantas aplicações industriais.

O problema é que as cotações das bitcoins tendem a ser altamente voláteis, ou seja, podem servir como reserva de valor embora com risco elevado. Por exemplo, quem comprou mil euros em bitcoins em finais de 2021 tem agora +/- 300 euros à cotação atual.

A maior fragilidade das criptomoedas, enquanto potencial alternativa ao dinheiro convencional, é que não são escaláveis.

Os estudiosos do BIS já fizeram um cálculo por alto e chegaram à conclusão de que, para substituir todo o dinheiro atual por criptomoedas, seria necessário utilizar energia elétrica acima das capacidades de produção totais do planeta.

A criação de criptomoedas é feita por um processo de “mineração”. Basicamente trata-se de resolver problemas que implicam uso intensivo de sistemas informáticos, os quais, obviamente, gastam energia elétrica. O processo é intensivo em energia e é, portanto, ambientalmente um desastre e sê-lo-á tanto mais quanto maior for a escala da “mineração”.

Resumindo: as criptomoedas são uma catástrofe ecológica, são essencialmente inúteis como dinheiro e, embora possam ser usadas como reserva de valor, parece agora claro que também não são particularmente atrativas para esse efeito - configuram uma classe de ativos em que o risco é elevado e as recompensas incertas.

E que tal está a correr a experiência de El Salvador?

Aparentemente não muito bem.

El Salvador tinha um motivo para incentivar o uso de bitcoins. Cerca de 25% do PIB do país são remessas de emigrantes. O envio de dinheiro transfronteiriço pelos meios convencionais continua a ser caro, lento e ineficiente. O dinheiro digital será o meio eficaz de ajudar as pessoas, nomeadamente as mais pobres, a fazer circular internacionalmente o dinheiro com eficácia e custos razoáveis.

Desde que o país acolheu a bitcoin as remessas, excluindo um pico inicial e não repetido, não mexeram significativamente.

Para incentivar o uso do dinheiro digital o governo salvadorenho tomou um amplo conjunto de medidas.

Desde logo o curso legal da bitcoin, ou seja, ninguém pode recusar o pagamento em moeda digital e o próprio estado aceita o pagamento dos impostos com esse dinheiro.

Existe um incentivo de 30 dólares (pago em bitcoin) para quem descarregar a aplicação de pagamentos Chivo. Não é um incentivo pequeno – corresponde a quase 10% do salário médio mensal.

São concedidos descontos nos combustíveis a quem pagar com a aplicação digital e, obviamente, existe uma campanha massiva de suporte ao uso do dinheiro digital.

Não obstante o esforço gigantesco do estado menos de 10% da população tem conhecimento da aplicação de pagamentos digitais, apenas cerca de 5% está apta a utilizá-la, somente cerca de 2% continua a usar depois de receber os 30 dólares de incentivo inicial e percentagens ínfimas da população usam dinheiro digital para pagar impostos ou fazer remessas.

O estado Salvadorenho está em risco de perder imenso dinheiro no stock de bitcoins que comprou ou que, entretanto, recebeu.

O voluntarismo do governo de El Salvador não vai dar bons resultados.

Isso não invalida o que ficou dito acima – o dinheiro como o conhecemos hoje está obsoleto, o dinheiro do futuro será digital e chegará o dia em que os vindouros acharão estranho que em tempos se tenha usados as pouco higiénicas notas e moedas (ou mesmo cartões de plástico) como meio de pagamento – o que restar de tais coisas será  visto como relíquias bárbaras.

Mas não chegaremos ao dinheiro digital com utopias libertárias, criptomoedas e quejandos. O caminho será outro. Eventualmente voltaremos a este tema.

 

Data de introdução: 2022-07-13



















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