A freguesia de Souto da Carpalhosa, concelho de Leiria, tem mais de 800 anos de história e insere-se hoje numa área densamente industrializada e que foi fortemente afetada pela passagem da depressão Kristin, na noite de 27 para 28 de janeiro último.
Para o Centro Social e Cultural Paroquial de Souto da Carpalhosa, que apoia quase 1.700 pessoas, nas áreas da infância, idosos e ajuda alimentar, a passagem da tempestade foi avassaladora e a instituição foi bastante afetada, nomeadamente porque “os telhados voaram e, depois, a chuva, porque não parou de chover, trouxe as infiltrações, para além dos painéis solares que ficaram inoperacionais”, começa por relatar Joaquim Guarda, diretor executiva do Centro Social.
“Na creche e jardim-de-infância tinha baldes no meio das salas para recolher a água que caía dos tetos. No lar há uns quartos que ainda não estão ocupados, porque ainda pinga água e há manchas de humidade e um forte cheiro a mofo”, explica, pouco mais de um mês depois dos acontecimentos, alertando: “Esta situação não está, de forma alguma, ultrapassada. Substituímos as telhas que voaram e que se partiram, mas neste momento os beirados, que se partiram todos, precisam da intervenção de um pedreiro e, sem essa intervenção, sempre que chove a água bate diretamente na parede, porque não há beirado. E a consequência são as infiltrações e as humidades que continuam a entrar nos quartos. As caleiras, a toda a volta do edifício, desapareceram. Uma delas, inclusive, ficou pendurada nos cabos de eletricidade de um poste… que, por acaso, não foi derrubado”.
E se a creche o pré-escolar suspenderam o funcionamento, a área dos idosos, à exceção do Centro de Dia, “nunca deixou de trabalhar”, porque a instituição tem um gerador.
“Este gerador foi cá colocado há mais de 20 anos, já na perspetiva de haver uma falha de energia ou assim. Aliás, o gerador não tem capacidade para uma catástrofe com esta dimensão. Ou seja, foi preciso fazer a gestão do seu uso, à noite para o aquecimento, para que não faltasse conforto e bem-estar aos utentes, e durante o dia para as câmaras de frio ou cozinha e para que os serviços pudessem funcionar”, conta Joaquim Guarda, ressalvando: “No entanto, na lavandaria tivemos de arranjar uma alternativa, porque o gerador não aguentava a máquina de lavar em simultâneo com o resto. Arranjámos umas máquinas familiares para que o gerador aguentasse. O gerador está dimensionado para iluminação e tomadas, nada mais”.
Apesar dos constrangimentos, a instituição conseguiu manter os serviços cujas condições garantiam a qualidade dos mesmos.
“O SAD foi complicado no dia seguinte, porque não conseguíamos circular, mas a partir do dia 29 assegurámos todos os serviços com normalidade”, revela, relatando outros constrangimentos: “A dificuldade no SAD e na ERPI até ao dia 30 foi com os colaboradores que ficaram em casa, porque também tinham as suas casas destelhadas, e a enorme dificuldade nas comunicações e nos acessos. Alguns trabalhadores vieram trabalhar a pé, eram para entrar às 8h00 e chegaram às 10h00, porque tiveram que vir a pé, porque não se circulava de outra forma. Essa foi uma das grandes dificuldades nos dias subsequentes”.
Já a área da infância, mais afetada pelo temporal e sem energia elétrica, fechou durante cerca de uma semana, tendo reaberto no dia 9 de fevereiro já em pleno.
Numa breve visita às instalações, eram bem visíveis em muitas paredes tanto do jardim-de-infância, como na ERPI, manchas de humidade, sendo que a secretaria da instituição ficou praticamente inoperacional, devido à chuva que entrou no edifício, que ficou parcialmente destelhado.
A eletricidade chegou passados 10 dias, mas também as comunicações ficaram em baixo.
“As antenas voaram, não havia internet, não havia nada. Entretanto, conseguimos chamar um senhor ‘engenhocas’ que lá mexeu e conseguimos ter os quatro canais, mas a MEO desapareceu do mapa”, constata Joaquim Guarda, lembrando que a instituição teve de adquirir um kit Starlink “para ter internet”.
Quanto a custos, o diretor executivo alega não ter muitas condições para fazer uma estimativa, até pela variabilidade do preço dos materiais e não só, mas a instituição já pediu um orçamento a uma empresa para reparar devidamente os telhados e demais estragos.
“Nós temos seguro, tanto para a creche como para o edifício do lar… Agora, é preciso fazer uma intervenção de fundo nos telhados, repor caleiras, também já repusemos as luminárias que ficaram inutilizadas. Só em estores, na parte da infância, são 480 euros. Não sei ao certo, mas estamos a falar de dezenas de milhares de euros necessários para compor as coisas”, sustenta, salvaguardando que a instituição vai “candidatar-se aos apoios do Estado”.
“A instituição tem seguro de multirriscos, mas sabemos que o seguro nem sempre cobre os custos reais, portanto, se tivermos o apoio do Estado para o restante tanto melhor”, defende, alertando que, caso contrário, a sustentabilidade financeira do Centro Social pode ficar em risco: “Se faltar o seguro, se faltar o apoio do Estado, não tenho dúvidas que a sustentabilidade da instituição fica em causa. Nós não temos a disponibilidade de tesouraria para fazer face a este custo, apesar de ainda não saber qual é em concreto. É preciso não esquecer que já aumentámos os trabalhadores em janeiro por via do aumento do salário mínimo nacional, pelo que estamos na expectativa do que será a atualização do acordo de cooperação. No entanto, já adiantámos o dinheiro! Agora, imagine-se mais esta situação que tem custos muito elevados”.
No meio da desgraça, a solidariedade emergiu e a instituição sentiu-a diretamente.
“Sentimo-nos sempre apoiados, aliás, logo no dia seguinte veio cá um técnico da Segurança Social a querer saber a dimensão do impacto da tempestade e que medidas tínhamos tomado”, revela, considerando que o Centro Distrital “esteve bem com a instituição, tal como a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal, porque o que foi preciso fazer-se no dia 28, fez-se, o que foi preciso fazer-se no dia 29, fez-se, para que se retomasse o mínimo de funcionalidade”.
Mas a solidariedade não surgiu apenas das entidades públicas, também muitos cidadãos e outras instituições se mostraram abnegadas no apoio ao Centro Social.
“Houve uma onda de voluntariado. Muitas pessoas que aqui apareceram sem sabermos de onde, sem dizer o nome e apenas perguntavam o que é que as pessoas precisavam. E desde irem para cima dos telhados, limpar as estradas ou apanhar os cacos de telha caídos pelo chão fizeram de tudo. Sim, o país apareceu. Pessoas de todo o lado, do Algarve, do Alentejo, de Guimarães, do Porto, de Braga, equipas completas de empresas. Apareceu muita gente para ajudar”, diz, emocionado, Joaquim Guarda, que revela ainda que o custo com o funcionamento do gerador foi amenizado pelo donativo financeiro da Fundação Mário da Cunha Brito, de Penacova, e ainda um outro Fundação Caixa de Crédito Agrícola, de Leiria.
Pedro Vasco Oliveira
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