A AURPICAS - Associação Unitária de Reformados, Pensionistas e Idosos do Concelho de Alcácer do Sal foi uma das IPSS que, no final de janeiro, sofreu bastante com as intempéries, denominadas de “Comboio de Tempestades”. No caso da instituição do distrito de Setúbal, a forte e repentina subida das águas do rio Sado deixou um rasto de destruição que começou com a evacuação das instalações do Centro de Dia e do Lar e que manteve a AURPICAS inoperacional até ao dia 20 de abril, dia em que os utentes do Centro de Dia regressaram.
“A 28 de janeiro, estávamos na instituição, chovia e perto das 13h00 a água já subia na rua, algo que, muitas vezes, é normal devido à subida da maré”, começa por contar Paula Vasques, diretora de serviços da instituição, prosseguindo: “No entanto, rapidamente me apercebi que não devia ser a maré e a água depressa começou a chegar ao portão da nossa entrada. Nessa altura, disse à minha equipa para arranjar os jantares para os utentes do Centro de Dia, para levá-los a casa, entre as 14h00 e as 15h00, e avisar as famílias. E assim fizemos”.
Mas a alteração da rotina ainda só estava a começar… “Cerca das 16h30, vejo a água a vir do lado contrário e a subir com muita força. E sempre ouvi dizer aos antigos que, quando a água vem do lado dos panificadores, rapidamente está dentro da AURPICAS. E assim foi…”, recorda Paula Vasques, que logo acionou o Plano de contingência: “Às 17h00, liguei para os bombeiros e para a Câmara Municipal e retirámos os 20 idosos do centro de alojamento para a Residência Jorge Marques, que a nossa outra ERPI”.
Nos primeiros dias, os mais autónomos estiveram com as suas famílias e os mais dependentes na Residência Jorge Marques, onde foi desativado o ginásio e duas salas de convívio, onde foram instalados os idosos “em camas articuláveis que tínhamos do tempo da COVID”.
A decisão de evacuar o Lar, “não foi com medo que a água chegasse onde chegou, até porque foi construído num ponto mais alto, mas com o receio de ficar isolado e não haver possibilidade de retirar algum idoso em caso de necessidade”, conta a diretora de serviços, acrescentando: “A água subiu muito, mas no dia seguinte baixou e ainda fizemos a limpeza do Lar. Houve uma empresa que nos colocou aqui um gerador para podermos funcionar, porque não havia energia na Avenida dos Aviadores, trazermos os idosos e voltarmos à normalidade”.
Só que a responsável pela instituição não esperava que acontecesse o que se seguiu: “Quando estávamos em limpezas no Centro de Dia, tivemos que sair rapidamente, porque a água começou a subir muito e depressa. No dia 4 de fevereiro chegou ao ponto mais alto, isto é, 3,10 metros no Centro de Dia e 2,70 metros no lar. Ou seja, no Centro de Dia a água chegou ao teto”.
Três meses menos uma semana abria portas, em pleno funcionamento, mas as instalações ainda permaneciam sem portas interiores, aquando da visita do Solidariedade, no dia 29 de abril.
“O lar teve uma destruição muito grande, porque é uma construção mais recente. Aqui, no Centro de Dia, foi mais fácil recuperar as instalações, porque são forradas a azulejo. No lar, as paredes são de estuque, que assimilou a água e agora está tudo a desfazer-se. Ficámos sem roupeiros, que eram embutidos nas paredes, sem portas, sem mesinhas de cabeceira e sem cómodas, sendo que a única coisa que conseguimos aproveitar, e porque são de uma madeira mais antiga, foram as camas. O nosso mobiliário é todo pintado à mão. Foi tudo para a fábrica, foi retocado e já está de volta. Do que era madeira, só se aproveitaram as camas”, recorda, descrevendo os prejuízos no Centro de Dia: “Só se aproveitaram as mesas e as cadeiras. De resto, não se aproveitou mais nada. Não ficámos com um garfo, o equipamento da cozinha teve de ser todo substituído. A destruição foi total aqui no Centro de Dia. Quando voltámos o cheiro era nauseabundo. As arcas frigoríficas despareceram, porque foram levadas pela água, tal como as mesas e cadeiras da nossa esplanada. Apareceram há dois dias, dois bancos em Montevil, que fica a 26 quilómetros. O resto não sabemos onde está”.
E se a tragédia trouxe à tona algo de positivo foi a enorme onda de solidariedade em torno da instituição.
“Temos sentido muita solidariedade à nossa volta. Logo na semana seguinte, inscrevemo-nos em tudo o que era possível para conseguir ajuda, mas o Centro de Dia já abriu graças a essa solidariedade que nos envolveu. Houve festas de fado, teatro, muitos donativos particulares de valor muito bom, empresas que ajudaram, pintaram os exteriores, ajudaram nas limpezas e houve uma empresa que nos ofereceu 50 cadeirões. Para além disso, tivemos muitos amigos que vieram ajudar. A AURPICAS foi alvo de uma grande onda de solidariedade”, sustenta, emocionada, Paula Vasques, revelando que a sala de jantar do Lar vai ser requalificada pelo «Querido, Mudei a Casa».
“Tivemos um prejuízo de perto de um milhão de euros, o que para uma IPSS é incomportável, pelo que estes amigos e empresas foram fundamentais. Temos seguros, fizemos uma candidatura ao IEFP que foi contemplada, inscrevemo-nos numa plataforma na qual submetemos os orçamentos da lavandaria, que também nos contemplou e até meados de maio iremos receber algum valor da Segurança Social o que servirá para financiar o regresso das duas valências afetadas”, sustenta, afirmando que a prioridade é colocar novamente os idosos no Lar.
“A prioridade agora é trazer os idosos para o lar. Todos os dias sou confrontada por eles a perguntarem ‘quando é que vamos para a nossa casa?’. E isto toca-me bastante”, conta, revelando que, durante estes quase três meses, os utentes do Centro de Dia receberam apoio como se fossem utentes do SAD.
Sobre o impacto da tragédia na sustentabilidade financeira da instituição, Paula Vasques é clara: “Vamos ficar com alguns problemas, mas temos conseguido, não estamos com a corda na garganta. Penso que vamos conseguir manter a estabilidade que tínhamos antes da cheia”.
Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)
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