HUMANITAS - FEDERAÇÃO PORTUGUESA PARA A DEFICIÊNCIA MENTAL

Mulheres com deficiência intelectual estão arredadas das preocupações dos movimentos feministas

A Humanitas promoveu o webinar «Mulheres com Deficiência Intelectual: Que Desafios em Portugal?», no qual foi proposta a criação de uma associação que dê voz às mulheres com deficiência intelectual.
Segundo a investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, Marina Faria, o direito das mulheres com deficiência intelectual à sexualidade e à maternidade é ignorado pelos movimentos feministas, considerando tratar-se de “um silêncio propositado (...) que é muito complicado”.
“Muitas vezes, os movimentos feministas focam-se em mostrar que as mulheres podem não ser mães, mas essas mulheres [com deficiência intelectual] quererem ser mães é um tópico absolutamente tabu dentro do movimento feminista”, sustentou Marina Faria
Para Fernando Fontes, também do CES da Universidade de Coimbra, a ausência das mulheres com deficiência intelectual da agenda dos movimentos feministas é “algo marcante”.
O investigador comparou aquilo que recorda ter existido há anos, quando estes mesmos movimentos feministas eram “quase impermeáveis às reivindicações das mulheres lésbicas ou das mulheres trans”, sustentou, acrescentando: “Creio que isto hoje existe relativamente às mulheres com deficiência”.
Por outro lado, Paula Campos Pinto, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, referiu que, “neste momento, já começa a haver atenção das organizações feministas para o problema das mulheres com deficiência”, constatando que “ainda há algum desconhecimento, mas já há abertura”.
Para o docente Fernando Fontes, as mulheres com deficiência intelectual são “triplamente prejudicadas, por serem mulheres, por terem deficiência intelectual e por terem défice cognitivo”, explicando que elas sofrem de discriminação institucional e na família, num quadro de dificuldades no acesso a habitação adequada, saúde, educação, formação profissional e emprego.
De acordo com o investigador, as mulheres com deficiência intelectual “têm quatro vezes mais possibilidades de serem vítimas de violência sexual do que as mulheres sem deficiência e, então, as mulheres com incapacidade cognitiva têm ainda mais probabilidades”.
Segundo Fernando Fontes, elas são, muitas vezes, vítimas de maus tratos físicos, abuso, negligência e exploração, sublinhando que a “esterilização forçada é mais uma violência exercida sobre estas mulheres”.
A este propósito, Marina Faria revelou que “a esterilização forçada é muito mais presente do que se conhece”, garantindo ainda que a violência sexual contra estas mulheres, que já é grande considerando os números disponíveis, é na verdade “muito maior”. E apenas não é denunciada “porque as mães se sentem culpadas” ou porque receiam que outros as culpem. E isto acontece porque essa violência sexual é “cometida, muitas vezes, por homens familiares das vítimas, como os pais ou irmãos”, afirmou.
Neste sentido, Paula Campos Pinto lembrou que a família “pode ser espaço de agressão, de opressão” e que a institucionalização no contexto familiar é também uma questão de género, “porque muitas vezes é mais fácil reter uma rapariga ou uma mulher”.
Para além dos especialistas convidados, o webinar «Mulheres com Deficiência Intelectual: Que Desafios em Portugal?» teve, logo na abertura, a participação de mulheres com deficiência intelectual que, entre outros aspetos, se queixaram de não perceberem o que os médicos dizem ou de estes se dirigirem às pessoas que as acompanham e não às próprias. Sobre isto, foi unânime entre os participantes a concordância sobre ser necessário utilizar uma linguagem simplificada com estas pessoas, nos serviços públicos, e que se dirijam a elas e não a quem as acompanha.
Susana recuou até à infância e recordou a incompreensão da professora perante a necessidade que ela tinha de mais tempo para aprender. “Dava-me reguadas e, então, reprovei”, lamentou. Hoje, passados cerca de 40 anos, considera que parte da sua família aceita-a, mas outra nunca a aceitou: “Não deixam as filhas aproximarem-se de mim… acho que dizem que sou maluquinha”.
No encerramento da sessão de debate, a docente Paula Campos Pinto frisou que o que as mulheres com deficiência intelectual querem não difere do que desejam todas as pessoas e que passa por concretizar as suas escolhas, os seus sonhos e os seus desejos.
E tal como referido no início deste texto, para uma melhor defesa dos direitos das mulheres com deficiência intelectual, propôs a criação de uma “associação ou um coletivo que seja a voz das mulheres com deficiência intelectual”.
O investigador Fernando Fontes considerou a criação de um organismo com estas caraterísticas como “uma mais-valia”.

 

Data de introdução: 2023-04-05



















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