JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

Donald Trump, o dólar e uma putativa guerra cambial

Até há poucos dias a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas parecia uma quase certeza. O abandono da corrida por Joe Biden e a emergência de Kamala Harris como candidata do partido democrático parece ter, de novo, colocado a corrida em termos competitivos. Algumas sondagens nacionais já dão Kamala Harris ligeiramente à frente de Donald Trump, a recolha de fundos pela candidata democrática está a correr bem, contudo, na meia dúzia de estados onde finalmente tudo se decide Donald Trump ainda leva vantagem. Veremos!

Se Donald Trump for eleito muita coisa vai mudar na América e no mundo. Hoje gostaria de deixar umas palavras sobre uma variável que continua a ser chave para todos nós, a saber, a cotação do dólar americano.

Donald Trump continua obcecado pelo deficit comercial americano o qual é gigantesco (começa a aproximar-se do trilião de dólares) e sistemático.

Sabemos como a cabeça de Donald Trump só funciona com modelos de soma zero, isto é, modelos em que aquilo que eu ganho é o que tu perdes, o que eu perco é o que tu ganhas.

Segundo tais modelos o deficit comercial americano é o resultado de pervasiva batota perpetrada pelos parceiros comerciais e, de todas as batotas, a mais poderosa é a deliberada manipulação cambial de modo a manter os respetivos câmbios subavaliados. Os principais suspeitos são o Japão, a China e a União Europeia.

Com câmbios artificialmente rebaixados é fácil para os suspeitos do costume exportar para os Estados Unidos ao mesmo tempo que é difícil para os Estados Unidos exportar para os países “batoteiros”, logo o deficit comercial americano é inevitável.

Donald Trump está errado, não há nenhum sinal de que o dólar esteja sobreavaliado ou de que o Japão, a China ou a zona euro prossigam políticas deliberadas de rebaixamento dos câmbios. É verdade que o dólar tem estado relativamente forte no passado recente, mas isso deve-se ao facto de os Estados Unidos terem taxas de juro mais altas do que os principais parceiros comerciais ou, no caso do Japão, significativamente mais altas. Atualmente é possível fazer dinheiro tomando dívida em yens japoneses, com taxas de juro muito baixas, comprar dólares e aplicar os dólares a taxas significativamente mais altas. Claro que se corre risco cambial (ou compra-se proteção), contudo, ainda assim, o negócio floresce e reforça o dólar.

Não cabe aqui uma dissertação sobre as origens profundas do deficit comercial americano – quer pela lonjura da coisa quer pelo demasiado técnico do palavrório – contudo, lembrarei sempre que, como demonstraram abundantemente muitos economistas, sobretudo americanos, o país que emite a moeda de reserva internacional e que serve de referência no essencial das transações comerciais e financeiras a nível global, é tendencialmente deficitário em termos comerciais.

Mas que pode fazer a trumpiana criatura para provocar a descida da cotação do dólar?

Desde logo pode fazer uma intervenção no mercado. Os Estados Unidos têm sob a tutela da secretaria do Tesouro um fundo, o Exchange Stabilization Fund (ESF), o qual permite realizar operações de mercado com vista a regular a cotação do dólar. No caso vertente o ESF apresentar-se-ia no mercado vendendo ativos denominados em dólares e comprando ativos, por exemplo, denominados em euros o que, em princípio, tudo o mais igual, faria descer a cotação do dólar em relação ao euro.

As intervenções dos estados no mercado de câmbios são raras e não é por acaso. São caras, muitas vezes não são efetivas e, mesmo quando são efetivas, em geral, os efeitos desejados são de curta duração. Veja-se, a propósito, a recente intervenção do Banco do Japão para defender a cotação do yen, a qual terá custado 36,8 biliões de dólares com efeitos muito limitados.

O ESF americano dispõe de ativos de pouco mais que 200 biliões de dólares o que, obviamente, não garante poder de fogo para intervenções de mercado significativas. Por aí, Donald Trump não vai longe!

Se eventualmente Donald Trump não puder resolver o problema da cotação do dólar no terreno do mercado pode sempre, através de medidas administrativas, corrigir os supostos efeitos. Por exemplo, pode colocar tarifas à importação dos produtos e serviços dos países “batoteiros” as quais, fazendo subir o preço final dos produtos importados, teriam o mesmo efeito que uma desvalorização do dólar. As tarifas teriam ainda a vantagem de criar receitas para o estado. Donald Trump tem dito que irá colocar uma tarifa de 10% sobre todas as importações sendo que, no caso da China, porventura o “batoteiro-mor”, serão de 60%.

Conviria que alguém explicasse à criatura que as tarifas, mesmo descontando as prováveis retaliações, não vão resolver nada a não ser prejudicar os consumidores americanos que vão pagar mais caro por produtos e serviços importados. É tudo menos garantido que o dólar perca valor e quanto ao deficit comercial, afora alguma correção no curto prazo, é altamente provável que não encolha por aí além.

As tarifas são inflacionistas, fazem subir os preços. Com inflação mais alta é necessário ter taxas de juro mais altas e, com taxas de juro mais altas, lá regressa a atratividade do dólar como meio de investimento o que, obviamente, vai puxar para cima o câmbio do dólar, ou seja, justamente o que se queria evitar.

Claro que os efeitos das tarifas são one-off e pode dizer-se que o seu efeito inflacionista se dissipa ao fim de algum tempo. Talvez!

O problema é que, se as tarifas forem mesmo efetivas, isso vai enfraquecer as economias dos parceiros “batoteiros” e, na perspetiva trumpiana, justamente castigados. Com economias mais fracas as suas moedas tenderão a perder cotação e, concomitantemente, o dólar tenderá a ganhar.

Christine Lagarde, a atual presidente do BCE, cujos conhecimento de teoria económica e, sobretudo, de teoria monetária são limitados, até ela (pasme-se!) já veio dizer que se o BCE for obrigado a baixar as taxas de juro para proteger a economia de uma putativa fraqueza, hélas, a taxas de câmbio do euro poderão baixar.

Ou seja, mais uma vez, Donald Trump vai colher exatamente o contrário daquilo para que semeou – um dólar, provavelmente, mais forte.

Alguém se deu ao trabalho de calcular quanto teria que desvalorizar o dólar para, eventualmente, limpar o deficit comercial do tio Sam. As contas apontam para 40%. Ninguém acredita que seja possível ir tão longe de forma sustentada!

Se Donald Trump ganhar as eleições em Novembro é provável que tenhamos que enfrentar situações muito complicadas na Ucrânia, no Médio Oriente e, de uma forma geral, no posicionamento da América face ao mundo.

O que seguramente dispensávamos era uma guerra cambial!

 

Data de introdução: 2024-08-07



















editorial

Voltar a casa

Sucede que a falta de motivação das IPSS para colocarem a sua rede de ERPI ao serviço do escoamento das situações de internamento hospitalar inapropriado, nas condições atualmente em vigor, se afigura amplamente justificada (...)

Não há inqueritos válidos.

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

O risco de retrocesso nos apoios à vida independente
O Orçamento de Estado para 2026 foi justamente elogiado por se abster dos clássicos “cavaleiros orçamentais”, designação pela qual são conhecidas as...

opinião

EUGÉNIO FONSECA

Que espero do novo Presidente da República?
Está próxima a eleição do novo Alto Magistrado da Nação. Temos mais duas semanas para que os candidatos, de forma serena, com objetividade e no âmbito dos...