EUGÉNIO FONSECA

O campeonato da Solidariedade

A maior parte dos cidadãos portugueses, de aquém e além-fronteiras, vibraram com o Mundial de Futebol, sobretudo com a nossa seleção. Desde a última segunda-feira, o sonho da equipa lusa de trazer o troféu de campeões, caiu por terra. Os vigorosos ânimos da maioria depressa se transformaram em desilusão. Mesmo assim, um significativo número de portugueses e portuguesas continuam a acompanhar o Campeonato Mundial.

Embora não seja a primeira vez que em torno de um acontecimento deste tipo se movimenta tanta gente e tanto dinheiro, mas fico sempre impressionado pelas mobilizações que o mundo futebolístico alcança. Colocaram-se bandeiras de Portugal nos lugares, mais estranhos; nos dias em que a nossa equipa jogava, as maiores praças do nosso país, encheram-se com pessoas de todas as idades e classes sociais; os horários de trabalho e compromissos já assumidos para o mesmo dia e hora foram alterados; aumentou o trabalho em casa. Até os lugares mais recônditos de Portugal quase se esvaziaram.

Na maioria dos estádios em que Portugal jogou, as bancadas revestiram-se de vermelho; alguns dos nossos governantes deslocaram-se aos estádios. Nesses lugares esteve gente de diferentes culturas e países, mas todos empenhando bandeiras portuguesas e gritando bem alto quando Portugal marcava algum golo. Juntaram-se adeptos portugueses e outros do clube adversário com cores de pele diferentes sem haver conflitos entre eles. Vi, com muita serenidade, todos os jogos de Portugal.  Em cada um, perante grandes espetáculos de patriotismo, me perguntava: como seria bom que tantos portugueses se unissem e vibrassem assim no campeonato da solidariedade?

É verdade que grande parte da população tem demonstrado ser solidária. Mas é um vigor que só se robustece quando é preciso ajudar pessoas vítimas de tragédias. No dia-a-dia já não é bem assim. Aumentam o racismo e a xenofobia, evidentes no crescente número de manifestações contra a presença de migrantes no nosso país e nos crescentes ataques físicos e morais aos mesmos. Ataca-se quem recebe míseros subsídios estatais para tornar menos severa a sua subsistência. Subsistem as dificuldades, que muitos ainda têm, em aceitar minorias religiosas e de dialogar com elas, confundindo-as com seitas.

Abundam os juízos morais sobre a condição de vida dos pobres, culpando-os da situação em que se encontram, em vez de verberar contra a pobreza. É preocupante a forma como cuidamos dos mais velhos, institucionalizando muitos que poderiam ainda estar em suas casas ou deixando-os entregues a si mesmo em profunda solidão. Continuamos a constatar a forma como muitos se comportam nos meios de transporte, não cedendo o lugar às pessoas, visivelmente, mais debilitadas. Esmagam-se colegas de escola ou de trabalho, usando formas de competição injustas e feias para fazer valer o sucesso a qualquer preço. Afastamo-nos da solidariedade sempre que fugimos ao pagamento de impostos e em muitas outras realidades do nosso quotidiano.

A solidariedade deveria ser um dos maiores campeonatos da nossa vida. São vários os jogos em que temos de entrar, a saber: tomada de consciência de que somos seres interdependentes, sem podermos viver sem os outros; a responsabilidade pelos outros; a determinação firme e perseverante de ajudar alguém mesmo que seja estrangeiro; saber que a solidariedade não substitui o compromisso por maior justiça social; a convicção de que a solidariedade não se limita à dádiva de bens, mas também na doação de tempo.

O campeonato da solidariedade terá mais efeitos se todos se mobilizarem como aconteceu no Mundial de Futebol, com as mesmas energias positivas, confiança e vontade de tornar a humanidade numa casa comum.

 

Data de introdução: 2026-07-19



















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