PATRONATO DE NOSSA SENHORA DAS DORES, MADEIRA

Uma escola para a vida

O Patronato não é um asilo: é uma escola de educação profissional. Uma asilada não é um número. Uma educanda do Patronato é uma rapariga prática, útil, consciente da sua missão, uma futura mulher e mãe – se assim o Destino lhe reservar tal situação.”, Jornal da Madeira, Quinta-feira, 15 de Março de 1964

A subida é íngreme por uma rua sinuosa e estreita, onde não há espaço para dois carros circularem em simultâneo. A manhã de Verão estava muito quente e pouco passava das dez horas quando tocámos à campainha do portão verde. Os muros altos de cimento não deixavam perceber o interior e só a placa indicava onde estávamos. Abriu-nos a porta uma jovem sorridente de chinelas e fato de treino. “Atenção ao caminho, pois estamos em obras”, avisou-nos sensatamente, já que por todo o lado estavam pousados materiais de construção civil e vários homens trabalhavam a um canto do pátio. Subimos a pequena escada, ladeada por vasos de flores e chegamos ao hall de entrada, onde a jovem pediu que aguardássemos.

Estávamos no Lar de São Filipe do Patronato de Nossa Senhora das Dores, que num jornal regional da década de 60 (transcrição em cima), é definindo como uma escola de educação profissional. Situado nos limites da cidade do Funchal, na ilha da Madeira, o Patronato nasceu em 1918 por iniciativa do Pe. Laurindo Pestana, então pároco da freguesia de Santa Maria Maior, com a ajuda da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, a quem foi confiada a gestão da instituição desde 1925 até à actualidade. O fundador, que viveu em bairros pobres, cedo se apercebeu das muitas dificuldades das famílias que ia conhecendo e visitando. Conta-se que se afligia ao ver grupos de rapazes e raparigas desamparados, quer por orfandade, quer por falta de atenção familiar. Pensado inicialmente como uma escola de preparação profissional para raparigas pobres, à semelhança da “Escola de Artes e Ofícios” criada na mesma época, mas apenas para rapazes, desde a sua fundação que a instituição primou por princípios inovadores. Naquele tempo, todas as crianças usavam farda. Hoje, o uniforme é um fardo demasiado pesado para crianças com histórias diferentes.

São sobretudo raparigas que têm crescido no Patronato. Das 37 crianças e jovens que estão no internato do Lar de São Filipe, apenas seis são rapazes - com idades variáveis entre os 2 e os 9 anos - todos irmãos. Todos eles conheceram esta nova casa por ordem do Tribunal de Família e Menores ou pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, porque os pais perderam a capacidade de olhar por elas por razões várias ou apenas por pura negligência Regra geral, chegam cabisbaixos, como se fossem surdos e mudos. De postura acanhada e olhar arregalado, a entrada no hall do Lar de São Filipe, é sempre intranquila e de semblante pesado. O enorme quadro em tons de castanho que ilustra a Irmã Wilson, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, é o elemento dominante da entrada juntamente com o velho piano de cauda, que pouco uso parece ter. Aos poucos, vão desenterrando a cabeça dos ombros e pronunciando duas ou três palavras às irmãs do Patronato de Nossa Senhora das Dores. O sorriso nasce dentro de alguns dias ou semanas e em casos mais extremos, meses.

Actualmente todas as meninas são naturais da ilha da Madeira, mas já têm surgido pedidos do continente como conta a irmã Celeste Silva. Directora há cinco anos, Celeste Silva recebe-nos de sorriso aberto e após uma breve contextualização da casa, leva-nos a visitar as instalações. Os risos são habituais, assim como os gritos próprios dos mais pequenos ou as conversas de esquina das jovens adolescentes. A casa está organizada em três grupos funcionais, consoante o andar. Em cada grupo há uma autonomia relativa, para que todos “posam aprender as tarefas quotidianas”, explica Celeste Silva. A escala de tarefas regula o trabalho diário da casa e aos domingos são as mais velhas que cozinham para toda a comunidade. As bonecas, os ursos de peluche, mais as piscinas de plástico para os mais pequenos chapinharem na água, sem esquecer os emblemas dos respectivos clubes de futebol, tudo serve para criar uma atmosfera familiar. Há horários a cumprir (que não são rígidos), há as idas às aulas, o estudo e as brincadeiras.
O Lar de São Filipe vive quase unicamente do apoio da Segurança Social, no entanto, a irmã Celeste Silva reconhece que há empresas e até particulares que expressam a sua solidariedade. Contudo, “essa manifestação solidária acontece mais na época de Natal, mas as crianças necessitam de apoio durante todo o ano”, realça.

A reintegração consegue-se com recurso a terapêuticas, programas de atendimento psicológico individuais ou de grupo, para banir o estigma emocional. A responsável pelo Patronato Nossa Senhora das Dores não gosta de ouvir que as suas crianças estão “internadas”. “Isto não é um hospital, é um lar”, explica. Por outro lado, lamenta que as crianças que vivem em instituições como esta sejam olhadas de lado, com pena, com alguma compaixão pelos outros meninos. “Queria que olhassem para elas da mesma maneira que olham para as que vivem com os pais”, pede. “É que as crianças institucionalizadas não gostam desse tratamento especial”. Para contrariar essa tendência das pessoas acharem que são diferentes e que vivem num regime talvez “militarizado”, “elas gostam de trazer os colegas cá a casa, os quais ficam surpreendidos, pela positiva com aquilo que vêem”, explica a directora. Desde que tenham autorização da Segurança Social e inclusivamente do Tribunal, podem visitar a família. A irmã Celeste Silva defende a ida das crianças à casa dos seus progenitores. “Acho que não devem ser os pais a virem à instituição porque as crianças nem estão doentes, nem estão internadas. Vivem num espaço aberto e podem sair de cá, pelo que considero saudável que sejam os miúdos a irem até a sua residência. Isto, é claro, se não existir qualquer perigo”.

"A Bíblia diz que abismo atrai abismo e isso é assim mesmo", afirma a Irmã. Às raparigas não se cansa de aconselhar: “vocês quando escolherem namorados, escolham alguém que vos promova, que sejam trabalhadores, que estudem, que vos puxem para cima e não para baixo”. Revela que por vezes se surpreende “quando se quebra o ciclo” e bons exemplos não faltam: do Lar de São Filipe já saíram raparigas com formação superior - uma concluiu a licenciatura em Contabilidade e Auditoria e já está empregada; outra frequenta o curso de Animação Educativa e Sociocultural, em Portalegre, confessando-se rendida à oportunidade que soube agarrar ao longo dos nove anos em que cresceu no Lar. Numa das cartas nostálgicas dirigidas à "madrinha, meninas, educadoras e irmãs" do Patronato, a jovem de 19 anos escreve palavras a incutir confiança e sentido de responsabilidade às mais novas: “vale a pena lutarmos por tudo aquilo com que sonhamos, lutem e estudem, vão em frente, não fiquem por aqui, sigam a vida com mais energia”, - lê-se na sua missiva. Palavras vivas que contrastam com os monossílabos que pronunciava no dia em que entrou no hall do Lar de São Filipe, quando carregava aos ombros traumas e uma dor que só ela conhece. “Tinha a ideia que isto era um lugar de castigo, que me iam prender aqui, mas cresci tanto mentalmente e foi realmente o melhor para mim”, diz. A amiga, de 17 anos e que prefere não dizer o nome está no Lar há pouco mais de um ano e ainda são muito recentes as vivências que a conduziram para ali. Está a receber apoio psicológico e só há pouco tempo é que começou a visitar a mãe, que sofre de problemas mentais. “Durante muito tempo, culpei a minha mãe pelo que me aconteceu, mas agora começo a compreender que ela precisa de ajuda e vou lá a casa e ajudo no que posso”. A jovem está no nono ano de escolaridade e quer tirar um curso na área de hotelaria. Para já, o sorriso ainda não nasceu verdadeiramente e o semblante pesado ilustra o passado recente que carrega consigo.

 

Data de introdução: 2007-09-11



















editorial

O TRIÂNGULO DA COOPERAÇÃO

A consciência social, aliada ao dever ético da solidariedade, representa uma instância suprema de cidadania, um compromisso inalienável para com os mais vulneráveis e em situação de marginalidade, exclusão e pobreza.

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