ASSOCIAÇÃO DE SURDOS DO PORTO

No dia em que fiz 13 anos fiquei surdo

“Hoje ouvia, no dia seguinte estava surdo… As pessoas, por vezes, associam certos números a certas superstições... No dia em que fiz 13 anos, no próprio dia do meu aniversário, fiquei surdo. O meu tipo de surdez é uma surdez total, bilateral, causada por meningite purulenta. Estive dois dias em estado de coma e quando abri os olhos, já não ouvia. Por vezes há tipos de surdez que atacam as pessoas ouvintes, vão-nas fazendo perder a audição gradualmente, possibilitando-lhes alguma defesa. A minha foi imediata, o choque foi mais violento, mais brutal. O que senti eu?!... Eu não conhecia nenhuma pessoa surda, não sabia nada sobre a surdez e de um dia para o outro estava surdo. Nesse dia fiquei com muitos problemas familiares. Nos primeiros tempos esses problemas foram maiores que a própria surdez. Fiquei desanimado, perdi o interesse por muitas coisas, perdi a alegria de viver, afastei-me dos amigos. Durante dois anos o que me custava mais era ver o sofrimento dos meus familiares, principalmente da minha mãe, como ela ficou! Isso custou-me imenso.”

A história é verídica e pertence a Armando Baltazar, surdo profundo desde os 13 anos de idade, casado com uma surda profunda e pai de dois filhos ouvintes. Foi líder da Associação de Surdos do Porto durante muitos anos e desde sempre tem tentado construir uma ponte comunicativa entre ouvintes e surdos. Segundo especialistas, como Marchesi, no estudo do fenómeno da surdez profunda, ao longo dos anos a nossa sociedade tem aplicado o modelo da “enfermidade” para caracterizar os membros da comunidade surda, não respeitando a sua diversidade cultural, os seus valores, nem a forma como se organizam. Segundo este autor, “ a surdez profunda é muito mais que um diagnóstico médico: é um fenómeno cultural, é nele que os modelos e problemas sociais, linguísticos e intelectuais estão estreitamente vinculados”. Segundo o seu sistema de valores, os surdos defendem que não são doentes, mas sim elementos pertencentes a um grupo social diferente, portadores de uma identidade comum. “O ouvinte vê a comunidade surda por um prisma discriminativo que nós não aceitamos”, diz Armando Baltazar. “Normalmente vê-nos do ponto de vista médico e, a esmagadora maioria dos médicos, definem-nos como uma comunidade de pessoas com problemas nos ouvidos, portanto doentes”. Segundo Armando, a maior parte dos surdos não se identifica como sendo doentes, mas sim como uma “minoria cultural”.

Outro exemplo é o de Fernando Almeida, que ficou surdo aos quatro anos após ter caído ao rio. Na altura costumava ajudar o avô no transporte de pessoas da praia do Areiinho, no rio Douro, para a outra margem. Não sabe explicar os motivos da surdez, mas lembra-se bem do choque quando deixou de ouvir. Agora com 60 anos fala-nos à porta da Associação de Surdos do Porto, uma instituição particular de solidariedade social nascida em 1995. O berço da associação remonta a 1934, quando um grupo de surdos da cidade criou o Grupo Recreativo de Surdos do Porto. Até que em 1951 o mesmo foi reformulado e criou-se o Grupo Desportivo Surdos-Mudos do Porto cuja actividade principal era o futebol praticado a um nível amador até que em 1995 se legaliza como IPSS.

Fernando Baltazar é intérprete de língua gestual desde 1999 e tem desenvolvido um trabalho vasto nesta área. Filho de Armando Baltazar, a língua gestual foi desde sempre a sua língua-mãe. “Só quando entrei na escola primária é que comecei a desenvolver mais a língua verbal. Responsável pelo departamento de desporto da associação, é com orgulho que mostra o troféu do oitavo lugar no último campeonato europeu de futsal para surdos, realizado em Fevereiro passado na Alemanha. Para além do trabalho na associação, colabora com o Ministério da Justiça e em tradução nas mais variadas situações, pelo que tem uma opinião muito crítica quanto à integração das pessoas surdas na sociedade. “As minorias são discriminadas e a comunidade surda não é excepção”, diz e exemplifica: “se um surdo for a um tribunal tem um intérprete, mas se for a um hospital, já não tem”, uma situação, que segundo ele, tem levado a alguns casos de diagnósticos errados. Os exames de código para obter a carta de condução são outro dos exemplos citados por Fernando Baltazar. “Desde que foi revisto o Código de Estrada, o exame para pessoas surdas passou de 50 minutos, para os 30 regulamentares. É preciso entender que um surdo precisa de um intérprete que lhe tem que “ler” as questões, ora para cada questão é preciso no mínimo um minuto para a tradução, 30 perguntas significam 30 minutos, é muito difícil assim”, conclui.

Anabela Baltazar também intérprete e responsável pelo departamento de tradução da associação, começou a relacionar-se com a comunidade surda por mero acaso e desde aí a sua vida mudou. “Tinha uma amiga que estava a frequentar um curso de língua gestual aqui e eu comecei a vir com ela e a interessar-me e quando dei por mim já estava a comunicar com eles”, explica a psicóloga-clínica. Enquanto psicóloga reconhece que um surdo tem uma forma de viver e de estar muito específica, “muito mais próxima e também mais difícil de conceptualizar”. Por exemplo, explica Anabela, “como é que um surdo explica o ódio, é uma palavra difícil”. Outra das situações com que a técnica se tem deparado prende-se com o facto da maior parte dos pais com filhos surdos, são ouvintes e não conseguem comunicar com os seus filhos, para além dos que “renegam” a surdez dos filhos. Segundo a psicóloga, a comunidade surda considera que enquanto os ouvintes não dominarem e valorizarem a língua gestual, não pode haver comunicação efectiva.
Dos cerca de 111 mil surdos que se estima que existam em Portugal, apenas 20 a 25 mil domina a Língua Gestual, um número considerado ainda muito diminuto. Estudos indicam que normalmente 90 por cento das pessoas surdas nascem em famílias de ouvintes, “por isso se torna ainda mais determinante o papel das associações como a nossa”, explica a psicóloga.

A Associação de surdos do Porto tem como maior objectivo procurar caminhos que possibilitem atingir uma real integração do surdo na sociedade e para isso, oferece um leque variado de actividades, tais como, o ensino e a formação profissional, o apoio social à comunidade surda, às respectivas famílias e à comunidade em geral. Desenvolve um programa de educação/alfabetização para surdos, cursos de Língua Gestual para ouvintes, cursos de formação de formadores surdos de Língua Gestual, apoio à inserção na vida activa de pessoas surdas desempregadas, programas desportivos, culturais... Disponibiliza também apoios especializados na área dos serviços de intérprete de Língua Gestual, serviço social, serviço médico, apoio jurídico, etc.


Lana, o primeiro cão para surdos entregue em Portugal

A 20 de Abril será entregue o primeiro cão para surdos em Portugal, neste caso, uma cadela. Chama-se Lana, é de raça Pekinois, nasceu em 2005 e foi educada para ajudar pessoas surdas nas tarefas diárias mais básicas, como por exemplo, identificar, chamar e indicar fontes sonoras como o som do microondas, da campainha da porta ou de um alarme e incêndio.
Esta iniciativa é da responsabilidade da Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social, Animas. A cadela será entregue a um casal com surdez total.

 

Data de introdução: 2008-04-09



















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