OPINIÃO

Estados plurinacionais

Há estados que correspondem a uma nação e há estados plurinacionais. No primeiro caso, há um problema que não os afecta: o da sua unidade. No segundo, e não obstante a riqueza cultural de que podem orgulhar-se, esses estados enfrentam um desafio grave: o das relações institucionais entre as “nações” que o integram. A história mais recente da Europa, sobretudo da Europa de Leste, demonstra como é difícil encontrar uma resposta pacífica para este problema.

Vem isto a propósito da mais recente crise política que atingiu a Bélgica. Uma crise que, certamente, terá solução, mas que já levou alguns observadores a interrogarem-se sobre se aquele país terá futuro. Esta é uma interrogação que vem sendo repetida nos últimos anos, face à ocorrência das inúmeras tensões que têm levado à queda de sucessivos governos, e que se fez ouvir de novo, há dias, a propósito da demissão do primeiro ministro, Yves Laterme. Depois de um curto e difícil período de governação, ele não resistiu a mais uma crise e, a poucos meses de Bruxelas assumir a presidência da União Europeia, este democrata cristão, oriundo da comunidade francófona, apresentou ao rei o seu pedido de renúncia.

Na maioria dos países europeus, as crises políticas têm origem em problemas económicos, mas não é isso que está a acontecer na Bélgica. Segundo informações recentes, o país está mais rico do que antes da famosa crise de 2008. O que está a acontecer neste país é bem mais grave e abrangente, porque é de natureza institucional e põe em causa a própria existência do Estado.
A existência de comunidades culturalmente distintas, dentro do mesmo espaço político, tanto pode ser um factor de enriquecimento como um foco de tensões. É o que tem acontecido na Bélgica ao longo dos anos e veio ao de cima, outra vez, e sempre com a chamada questão linguística.

Os factores culturais mais profundamente definidores de uma comunidade nacional são a História, a Língua e a Religião. Como estado, a Bélgica tem uma história relativamente curta, já que se tornou independente apenas em 1830, fruto de arranjos artificiais das potências europeias de então As duas comunidades que passaram a integrar o novo estado, flamengos e valões, cada uma com a sua área geográfica predominante, tinham e têm a sua própria língua, e isto chegou, desde o princípio, para marcar diferenças e despoletar rivalidades, pesem embora todos os arranjos políticos que a necessidade de preservar o essencial foi inventando. E o maior problema é que o tempo não tem conseguido apagar, ou mesmo diluir, de todo, essas tensões. Bem pelo contrário.

Alguém escreveu, ironicamente, que a unidade da Bélgica assenta em três pilares: a monarquia, a selecção de futebol …e a cerveja. É muito pouco para fundamentar o presente e garantir o futuro de um estado. Há, no entanto, motivos para acreditar que o país tem futuro. A acontecer uma ruptura definitiva entre flamengos e valões, eles só têm duas alternativas: ou tornam-se independentes, ou juntam-se aos vizinhos que falam a mesma língua: os valões, à França; os flamengos, à Holanda.
È difícil acreditar em qualquer das alternativas.

Por António José Silva

 

Data de introdução: 2010-05-06



















editorial

Plano interministerial e intersectorial para a Saúde e Longevidade da população (I)

O caminho da consciencialização pública e política sobre a necessidade de um Plano interministerial e intersectorial para a Saúde e Longevidade da população, cuidando do envelhecimento ao longo da vida, tem já um longo...

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA

Por uma democracia melhor
Vivemos num regime democrático. Este modelo de governação não é novo. Remonta aos tempos da Grécia Antiga. Não sendo, ainda, um modelo perfeito, é...

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

PSU: um regresso à inserção ainda por confirmar
Volto ao tema da Prestação Social Única, que tratei no artigo anterior. A simplificação dos apoios sociais é, em si mesma, uma boa ideia. O problema estava —...