OPINIÃO

Modelo cubano - Um golpe inesperado

Apesar do isolamento internacional a que foi votado durante mais de cinquenta anos, o regime cubano conseguiu manter sempre um elevado nível de fascínio popular, mesmo em países ricos e democráticos do ocidente Claro que havia o problema espinhoso da violação dos direitos humanos, tais como geralmente os entendemos. Mas isso nunca foi obstáculo para que Fidel Castro e Che Guevara conseguissem manter uma surpreendente quota de popularidade internacional, nomeadamente entre a juventude dita burguesa.

Para lá do peso extremamente positivo de algumas estatísticas, como por exemplo as respeitantes à saúde, ao ensino e ao desporto, essa simpatia era sempre garantida pela imagem de um país que, sendo pequeno, era capaz de definir o seu destino e de resistir à pressão de um grande e poderoso vizinho. Por muitas razões, e não obstante todas as dificuldades sentidas pelos cidadãos, o regime cubano representava para muitos um sonho social e político que talvez ainda fosse possível alcançar.

O actual presidente cubano, embora também se chame Castro, está muito longe de possuir o carisma de Fidel ou de Guevara. Chegado à liderança por via dos graves problemas de saúde do irmão, Raul Castro não deu, contra as expectativas de muitos, qualquer sinal de disponibilidade para introduzir alterações significativas nos princípios ou na praxis do regime. Muitos pensaram que isso seria completamente impossível enquanto Fidel não morresse, o que não parecia muito distante, acrescente-se. Mas, afinal, o “comandante” recuperou, e embora não tenha voltado à presidência, começou a assumir um papel cada vez mais interventivo, sobretudo em questões de política internacional.

Diga-se que estas intervenções não suscitaram muitas reacções públicas, até ao momento em que Fidel provocou um autêntico terramoto com uma tese verdadeiramente herética: a de que, afinal, o modelo cubano não merecia ser exportado para lado nenhum, porque nem para o seu país servia. Por vir de quem veio, o mundo confrontou-se com uma afirmação totalmente impensável.

Houve quem pensasse que se tinha tratado simplesmente de um sinal de velhice, enquanto outros viram na surpreendente afirmação do histórico líder um empurrão ao seu irmão Raul para que iniciasse o processo de transformação da sociedade cubana. Independentemente destes juízos, o facto é que Fidel deu um verdadeiro soco no estômago daqueles que partilhavam ou partilham ainda alguns dos princípios ideológicos e doutrinários em que se fundamentou a revolução. O governo fez saber que seriam despedidos, num espaço de tempo relativamente curto, meio milhão de funcionários públicos.

Num país em que praticamente toda a economia tem um carácter estatal, seria mais exacto falar simplesmente de meio milhão de trabalhadores.
Nesta altura, é ainda cedo para avaliar as consequências internas, sociais e políticas, de uma tal decisão. Mas uma coisa já é fácil de avaliar: o famoso modelo cubano acaba de sofrer um abalo suficientemente grave para atingir definitivamente o que restava ainda do ideal comunista como sistema de governo. É certo que muitos afirmarão manter ainda intacta a sua fé nesse ideal mas, depois da conversão da China ao capitalismo, as recentes notícias sobre Cuba acabarão por minar por completo a sua esperança.

António José da Silva

 

Data de introdução: 2010-10-09



















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