LAR DE SANTA TERESA

Há 134 anos a educar órfãs e desamparadas

Maria do Rosário, Rosa de Jesus, Maria Teresa, Maria da Piedade e, as duas expostas na roda, Ermelinda Rosa e Laura Martins foram as seis primeiras educandas do Asilo de Meninas Orphãs e Desamparadas, quando no ido ano de 1877 a instituição foi fundada em Viana do Castelo, muito por acção do visconde e viscondessa da Torre de Donas, juntamente com um grupo de benfeitores. Em finais de 1878, eram já 14 meninas que o Asilo acolhia para, em Março de 1883, serem 23 as asiladas.
Instalado no segundo andar da habitação do benemérito Miguel Manoel da Silva, na Rua das Rosas, até 1881, e depois na casa de José de Barros Lima do Rego Azevedo Barreto, na Rua da Bandeira, o Asilo de Meninas Orfãs e Desamparadas ocupou, então, o Convento das Carmelitas, que fora doado à instituição por Carta Régia de 13 de Julho de 1889, e onde se mantém até hoje.
Já em pleno século XX, mais concretamente no ano de 1969, a Direcção do Asilo votou a alteração do nome da instituição, passando esta, então, a denominar-se Lar de Santa Teresa.

SEMPRE «A PENSAR EM SI…»

Ao longo dos 134 anos de história, assinalados no passado dia 26 de Maio, a instituição passou por diversas crises e momentos menos bons, mas fruto da férrea vontade em fazer bem ao próximo das pessoas que a dirigiram, conseguiu sempre ultrapassar os obstáculos com que se deparou, constituindo-se hoje numa IPSS que soube crescer sustentadamente, sempre procurando dar resposta às necessidades da vasta comunidade que serve.
“Quando viemos para a Direcção, há 34 anos, logo após o centenário, só existia o convento, com 26 miúdas apenas e quatro funcionárias…”, começa por recordar o presidente do Lar Santa Teresa, Armando Soares Pereira, acrescentando: “Devia-se muito dinheiro, os fornecedores já não fiavam, porque devíamos cinco e seis meses… Não havia dinheiro”.

E, a verdade, é que nas três últimas décadas o antigo Asilo de Meninas Orfãs e Desamparadas e agora Lar de Santa Teresa cresceu exponencialmente, acolhendo agora mais de 350 utentes em diversas valências, e tornou-se auto-suficiente fruto de uma aposta ganhadora da Direcção.
“A Direcção decidiu que devia criar uns fundos próprios. Isto era uma quinta grande e, aos poucos, fomos criando formas de obter receitas, primeiro, com a empresa de limpeza, que já tem cerca de 30 anos, e depois com o aluguer de espaços da instituição”, revela o presidente da instituição, ele próprio, juntamente com a esposa, um dos habitantes do, entretanto criado, lar residencial para a terceira idade.
A empresa de limpezas foi, inicialmente, criada com um propósito educativo, mas rapidamente se transformou numa fonte de receitas essencial para a instituição.

“A empresa de limpezas surgiu para criarmos trabalho para as nossas meninas, no sentido de as educar e habituar a trabalhar, para quando fossem para a vida lá fora terem qualidades e aptidões de trabalho. Surgiu mais nesse sentido e só depois é que cresceu, sendo hoje uma fonte de receita do Lar”, sustenta o vice-presidente António Martins Pereira, revelando: “E foi a partir daí que, realmente, conseguimos melhorar bastante a qualidade de vida das nossas educandas, que hoje têm tudo aquilo que é necessário e existe numa casa normal de uma família. E temos o orgulho de dizer que já conseguimos licenciar muitas educandas. O Lar deu-lhes condições, elas tinham aptidões e hoje temos muitas licenciadas”.

AMPLIAÇÃO E CRIAÇÃO DO JARDIM DE INFÂNCIA

Com a cedência à autarquia de terrenos da quinta contígua ao convento, a instituição conseguiu encaixe financeiro para proceder à ampliação das infra-estruturas e, gradualmente, construiu dois edifícios nas traseiras do centenário convento, onde instalou o jardim-de-infância, inicialmente, apenas com uma sala, e que depois alargou para a valência de creche. Paulatinamente, surgiram mais salas de creche e de pré-escolar e, mais recentemente, em 2003, a valência de lar residencial para a terceira idade, onde habitam, actualmente, 15 idosos. No que toca às valências para a infância, são cerca de 150 crianças em cada uma delas, com o apoio de cerca de 90 funcionários a todos os serviços prestados.
No que respeita ao Lar de Crianças e Jovens, a valência que fez nascer a instituição há mais de 100 anos, actualmente acolhe cerca de 40 utentes, já não apenas meninas. Em determinados casos, e para não separar irmãos, o Lar de Santa Teresa acolhe rapazes até aos 12 anos que sejam institucionalizados juntamente com irmãs.

Num passado recente, a instituição já albergou 52 meninas, mas as obras de reabilitação a que o convento foi recentemente sujeito reduziram esse número para pouco menos de quatro dezenas, sendo que o Acordo de Cooperação prevê um máximo de 42. Porém, foi no ido ano de 1938 que a instituição acolheu o maior número de órfãs e desamparadas: 78.
Aquando da celebração do 134.º aniversário, em Maio último, foram também dadas por concluídas as obras de recuperação do convento, que orçaram em cerca de 900 mil euros.
“Praticamente só aproveitámos as paredes-mestras e recuperámos dois sótãos que agora são dois espaços que podem ter grande utilização. Esta intervenção, para além dos aspectos de recuperação, tiveram especial incidência nas matérias de segurança”, afirma Soares Pereira, que orgulhosamente guiou o SOLIDARIEDADE pelas novas instalações do convento.
E, de facto, é bem visível o trabalho de recuperação do centenário imóvel, interiormente transformado num agradável e moderno espaço de habitação e educação, mantendo, no entanto, a traça do rico e longo passado conventual.

Dividido em três unidades de acolhimento, onde as crianças são alojadas por idades, o convento alberga ainda diversos espaços para as crianças do lar e do jardim-de-infância brincarem, aprenderem e se divertirem.
As unidades integram quartos (na maioria de três camas), com salas de banho, uma kitchnet para pequenas refeições, salas de estudo, sala de convívio e lavandaria. Na Unidade 1, para crianças entre os 8 e os 13 anos, há ainda um gabinete para a educadora responsável.
Quanto à admissão de crianças e jovens no lar, durante muitos anos era a própria instituição que decidia quem entrava, mas entretanto tudo mudou.
“Numa primeira fase éramos nós que decidíamos quem vinha para cá e eram essencialmente crianças de famílias que não podiam tê-las. A Cáritas, os párocos e até as juntas de Freguesia também nos encaminhavam crianças da região, mas, mais tarde, alargámos e começámos a receber crianças de todo o País. Actualmente, é o Estado, através dos tribunais, que determina quem vem para o Lar. Vêm de todo o País, mas temos mais crianças da região”, sustenta António Soares Pereira, referindo ainda, que após a conclusão das obras, não faltará muito tempo até o número de 42, previsto no Acordo de Cooperação, estar preenchido.

CRIAÇÃO DE RECEITAS PRÓPRIAS

Antes das obras, o convento estava dividido em quatro unidades, mas a Direcção optou por transformar uma das unidades de acolhimento numa zona de cinco quartos, servidos por uma cozinha e uma sala de estar, para alugar a pessoas externas à instituição. Estes quartos são bastante procurados por estudantes e são mais uma fonte de receita para a instituição.
Neste capítulo, o Lar de Santa Teresa é exemplar para muitas IPSS de todo o País, pois soube criar infra-estruturas e serviços que hoje são uma importante fonte de receita para a instituição.
Assim, para além dos quartos para alugar e da empresa de limpezas, que presta inúmeros serviços no exterior, a instituição vianense criou nas suas infra-estruturas um parque desportivo, um ginásio – que inclui área de musculação e cardiovascular, indoor cycle, piscina de adultos e de crianças, jacuzi, sauna, banho turco e banho escocês, área para ginástica, aeróbica, step e localizada e ainda massagem desportiva e médica – e ainda algumas salas para modalidades como judo, karaté, kung fu e outras, tudo espaços que são alugados e de onde provêem receitas para o Lar.

Aquando da criação do lar residencial para a terceira idade, nasceu igualmente um gabinete de cabeleireiro e outro de esteticista para prestar serviço aos idosos, mas também a todos aqueles que os quiserem utilizar.
Sob o lema «A pensar em si…», o Lar de Santa Teresa não se fechou à comunidade, antes pelo contrário, foi de encontro às suas necessidades, não apenas em termos de respostas sociais, mas igualmente na prestação de alguns serviços, saldando-se por um benefício para a comunidade vianense, mas também para a própria instituição.
Até há pouco o Lar de Santa Teresa também dispunha da valência de ATL, e espaços para o albergar não faltam, pois, para além das diversas salas interiores, a instituição dispõem de diversos espaços exteriores onde os petizes podem desfrutar na plenitude do facto de serem crianças.
“O Estado queria que fôssemos criados deles e não estamos para isso, portanto acabámos com os Tempos Livres”, assevera o presidente Soares Pereira.

DIFICULDADES… DA CRISE!

Apesar de considerar que a situação financeira da instituição “é boa”, o presidente da Direcção recorda que Viana do Castelo “não é uma região muito rica, até é mais sobre o pobre, apesar de ser litoral, mas é um litoral pobre”. E as dificuldades que muitas IPSS vêm sentindo nos últimos tempos, com a quebra da comparticipação das famílias, também os começa a afectar.
“É evidente que temos melhores comparticipações do que as freguesias. E muitas moças que aqui temos são aqui de perto. Quando falamos de rendimentos é relativo ao jardim-de-infância e à creche, porque as moças do lar não pagam absolutamente nada. E o que o Centro Regional da Segurança Social dá não chega nem a metade do que gastamos por utente do lar… O resto tem que ser a instituição a pôr…”, afirma Soares Pereira, acrescentando: “Muitas famílias não pagam como deve de ser, umas atrasam-se, outras pedem para reduzir a mensalidade…”.

Mas para o presidente do Lar de Santa Teresa este não é o maior obstáculo: “A nossa principal dificuldade vem de onde a gente não espera. Em todas as valências atingimos um grau superior de qualidade que não vemos noutros lados, mas as inspecções quando vêm aqui tem sempre com que implicar. Por exemplo, querem obrigar-nos a colocar mais gente na cozinha, quando a experiência nos diz que as que temos chegam. Se precisássemos de mais gente metíamos… Meter mais gente para quê? Para habituar as pessoas a não fazerem nenhum?!...”.
Numa visita ao sítio da instituição na internet (www.larsantateresa.pt) pode ler-se uma missiva do seu presidente Soares Pereira que espelha bem o espírito que move as pessoas que hoje fazem andar e crescer a instituição e que não difere muito dos seus fundadores e prossecutores.
“Sempre que me falam do Lar de Santa Teresa, querem sempre saber quantas crianças institucionalizadas nele se abrigam, quantas pessoas ali trabalham, como e onde se conseguem as verbas necessárias à manutenção do Lar, além de outras questões que apenas nos obrigam a debitar números e mais números. (…) Mas o que eu gostaria, e vou ver se consigo é, falando de tudo isto um pouco, diluir o aspecto mais contabilístico e a natural frieza que os números nos aportam, e referir-me ao calor humano, à dedicação, à generosidade que esta missão exige de todos os que trabalham numa Instituição como a nossa”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2011-08-05



















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