CASA DOS RAPAZES DE FARO

Preparar jovens para o futuro

António Barão é presidente da Direcção do Instituto D. Francisco Gomes/Casa dos Rapazes de Faro há 12 anos, mas a sua ligação à instituição tem quase meio século.
“A minha ligação tem uma simbologia muito grande porque sou um filho desta casa”, explica logo no início da conversa com o Solidariedade.
Foi em 1963 que, com quatro anos, entrou na instituição, onde fez toda a formação até ao 12.º ano. Quando atingiu os 18 anos abraçou a carreira de futebolista profissional, tendo passado por clubes como o Farense e o Louletano, entre outros.

“Depois, fui empregado do Estado e, passados cerca de 15 anos, por casualidade regressei a esta casa para dar formação futebolística aos educandos. Então, convidaram-me para assumir um cargo na Direcção e há 12 anos tornei-me presidente… sem contar!”, recorda, explicando, de seguida, por que é que, desde então, tem operado uma autêntica revolução na instituição fundada em 1944: “Posso dizer-lhe que mudei isto tudo. Quando assumi a presidência os miúdos ainda comiam em pratos de alumínio e nada das infra-estruturas que temos hoje estavam construídas. E fi-lo porque nunca quis que eles passassem por aquilo que eu passei, quis sempre que tivessem mais qualidade de vida do que a que eu tive quando aqui andei, que fossem respeitados como eu nunca fui e que, acima de tudo, tivessem uma identidade própria”.

VALÊNCIAS DÃO SUSTENTABILIDADE

Muita coisa mudou desde que a instituição foi criada há 67 anos, especialmente a forma como é olhada pela sociedade. A abertura que procedeu à comunidade faz hoje da instituição uma referência no Algarve, albergando, não apenas crianças entregues pelo Tribunal, mas prestando apoio de creche e jardim-de-infância à população de Faro.

“Esta instituição é uma IPSS, mas já funciona como uma média empresa. O orçamento desta casa é de dois milhões de euros/ano”, refere o presidente da Direcção, pormenorizando: “Actualmente, para além do Lar Residencial, com 60 miúdos, temos duas creches e um jardim-de-infância e temos ainda o projecto para fazer um 1.º Ciclo já em andamento e um projecto para construção de um lar de idosos”.
Na área de 10 mil metros quadrados que a instituição ocupa, há uma piscina, um campo de jogos, auditórios, salas de estudo e ainda os edifícios onde funcionam as diversas valências, para além dos alojamentos dos educandos internos (alas Infantil, Juvenil e Júnior).

O lar residencial alberga 60 crianças e jovens dos 6 aos 18 anos, as duas creches tem um total de 106 crianças e o jardim-de-infância 75 petizes, apoiados por um quadro de pessoal de 100 funcionários, em que se inclui um corpo técnico de cinco psicólogos, um assistente social e ainda cinco professores destacados pelo Ministério da Educação.
A creche e o jardim-de-infância «O Relógio» foram inaugurados, respectivamente, em 2005 e 2006 e contam com instalações modernas, apetrechadas com material didáctico de elevada qualidade, “o que coloca estes equipamentos entre os melhores do género na região”, refere António Barão, que acrescenta: “Temos uma equipa jovem e dinâmica de educadoras e auxiliares, que desenvolve diversas actividades, garante as primeiras aprendizagens e promove um ambiente saudável e seguro”.

“Isto já é um mundo em que estes miúdos não têm falta de qualquer suporte. Têm falta, sim, é daquilo que não conseguimos dar, que é o pai e a mãe… Quanto ao resto, damos tudo e tentamos minimizar as questões do carinho da família, porque todas as pessoas que aqui trabalham têm essa missão. Os funcionários desta instituição quando são admitidos têm que ter espírito de missão e têm um prazo para demonstrar e que têm capacidade para estar aqui”, assevera António Barão.
Já em andamento está a construção do 1.º Ciclo, com capacidade para uma centena de alunos, e ainda em projecto, mas para avançar assim que a autarquia passar as devidas licenças, um lar de idosos, com capacidade para 62 utentes.

Apesar de ser uma IPSS, a Casa dos Rapazes de Faro, sob a batuta de António Barão, tem vindo a desenvolver valências que geram receitas, porque o Lar Residencial é a verdadeira vertente solidária da instituição e como se sabe, por outros exemplos, não é rentável.
“Estas instituições têm vivido da solidariedade e dos mecenas, mas hoje ninguém dá nada a ninguém. Os que estão em crise dizem que estão em crise e os que não estão valem-se dela… E se não tivéssemos feito esta obra de forma a termos rentabilidade e criarmos melhores condições, esta casa hoje estaria fechada”, sublinha o dirigente, deixando um alerta: “O Governo tem que olhar mais para estas instituições, salvaguardando-as, porque nas épocas de crise são elas que apoiam as famílias que têm dificuldades. E hoje, cada vez mais, são as instituições que ajudam os mais carenciados. Esta instituição gera postos de trabalho e é um grande contribuinte da Segurança Social, mensalmente são cerca de 15 mil euros. O que o Estado no dá, nós também retribuímos! Hoje as IPSS são o grande empregador e o Estado tem que ter isso em atenção. E temos que pensar que quantas mais crianças estiverem nas instituições, menos delinquência haverá nas ruas, o que torna as cidades mais seguras e mais limpas”.

COMBATER O INSUCESSO ESCOLAR

O Instituto D. Francisco Gomes é uma IPSS que acolhe, educa e integra na sociedade crianças e jovens que, por diversas razões, foram privados de um meio familiar normal. O objectivo primeiro da Casa dos Rapazes de Faro é fazer com que no seu espaço as crianças e jovens acolhidos recuperem o equilíbrio e a estabilidade emocional essenciais para a futura integração na família e na sociedade.
Nesse sentido, a instituição, para além da formação académica, procura dar aos educandos internos formação profissional e integrá-los no mercado de trabalho, para que de potenciais indigentes se transformem em ser activos da sociedade.

“Eles estão inscritos no Centro de Emprego, ou numa escola profissional, como a escola hoteleira, e a nossa aposta é inseri-los no mercado de trabalho. Temos alguns protocolos com empresas para os receberem e formarem. Se tiverem capacidade para estudar, continuam os estudos, mas nenhum miúdo sai daqui sem uma ferramenta para trabalhar, seja na área da carpintaria, da metalo-mecânica, da hotelaria, electricidade, etc.”, explica António Barão.
Aos que atingem a maioridade e pretendem seguir os estudos, a instituição continua a apoiar, pagando as despesas inerentes, como as propinas. E para não estarem sujeitos às regras da instituição, uma vez que são já jovens adultos com necessidades e desejos específicos, a instituição permite-lhes viver em apartamentos de autonomia. E isto acontece com os que frequentam a universidade, mas também com alguns que já entraram no mercado de trabalho.

“Temos 10 internos colocados em apartamentos de autonomia que estão a estudar ou a trabalhar. Mesmo depois dos 18 anos não os abandonamos, eles continuam ligados à instituição, só não estão sujeitos às regras internas da instituição, como a hora de deitar [Infantil – às 21h30, Juvenil – às 22h30, Júnior – às 23h30]. Só não dormem na instituição, porque mantêm a ligação, vêm cá comer ou trazer a roupa para lavar, etc.”, esclarece o presidente da Direcção, revelando: “Temos ainda um mecenas que nos vai ajudar a construir quatro apartamentos T1, os chamados apartamentos universitários, para que quando eles concluírem o 12.º ano passem para esses apartamentos e tenham uma mordomia diferente e um espaço próprio quando estiverem na universidade”.

Neste momento, há dois educando a frequentarem o Ensino Superior. O combate ao insucesso escolar é uma das bandeiras da instituição, sendo que no último ano 80% dos menores tiveram aproveitamento.
E se noutros tempos, os educandos queriam era rapidamente saltar para o mercado de trabalho para poderem auferir o seu próprio dinheiro, hoje a escola assume uma importância maior.
“Já houve mais essa mentalidade… Nós valorizamos muito a escola, que é a regra número um. Eles têm que perceber que ganhar dinheiro é algo que vem depois. Eles já sabem que ganham muito mais depois dos estudos do que se largarem a escola cedo”, afirma António Barão.

IMAGEM POSITIVA JUNTO DA COMUNIDADE

Apesar do grande trabalho no resgate de crianças e jovens à pobreza e à indigência, durante muito tempo a instituição, como outras semelhantes no País, eram olhadas com grande desconfiança: “Estas instituições há 30, 40 anos eram os cancros das cidades. Hoje a Casa dos Rapazes de Faro está perto da cidade, porque ela cresceu, mas dantes estava longe do centro urbano. Antigamente, os miúdos das instituições eram vistos como marginais. A Segurança Social não existia, nem as televisões, nem esta onda de solidariedade. Os problemas da Casa Pia reportam-se há 30 anos e era o que se passava nestas instituições, porque quem trabalhava nas instituições saía às 17h00 e, a partir dessa hora, os miúdos estavam entregues a eles próprios e aí tudo podia acontecer. Aqui era o mesmo…

Hoje, esta instituição, tal como o Refúgio Aboim Assunção, é uma referência para o Algarve e até a nível nacional. Agora já estamos num patamar superior”, defende o dirigente, que aponta ainda o trabalho desenvolvido pela instituição para que hoje seja olhada de forma diferente e mais positiva: “Poucas empresas em Faro têm 100 funcionários e isso dá peso à instituição. E com isto ganha outra imagem junto da comunidade. Os pais metem aqui os filhos na creche e no jardim-de-infância e ficam descansados… Costumo dizer que dantes entrava-se na instituição e viam-se lagartixas e carochas pretas, hoje ouvem-se os passarinhos a chilrear nas árvores. É que dantes não havia uma árvore, não havia nada, e hoje há piscina, auditórios, uma alimentação espectacular, acompanhamento psicológico, boas condições de habitabilidade…”.

Por isso não é de estranhar que estejam sempre a surgir pedidos junto da instituição, como comprova o presidente da Direcção: “Todos os dias aparecem pedidos para o Lar Residencial, porque hoje abandona-se um filho como se abandona um animal… Como sabe as vagas têm que ser avaliadas pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e depois é o Tribunal que delibera… Agora que cada vez há mais necessidade de instituições destas, disso não tenho dúvida”.
Por tudo isto, António Barão considera muito importante o trabalho feito ao longo de quase 70 anos na Casa dos Rapazes de Faro, “porque contribuiu bastante para que saíssem daqui homens feitos, que hoje têm as suas famílias”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2011-09-13



















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