SEMINÁRIO CNIS SOBRE ENVELHECIMENTO ACTIVO

O futuro exige novas soluções

“A causa da pessoa é a nossa causa. A pessoa é pessoa do nascimento até à morte e nós devemos interessar-nos sempre pelas pessoas independentemente da idade, da raça, do credo”. Foi com estas palavras que no passado dia 8 de Outubro o padre Lino Maia abriu os trabalhos do seminário «As IPSS e o envelhecimento activo – Agir no presente, preparar o futuro», que decorreu em Fátima.
A iniciativa promovida pela CNIS no âmbito do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, que este ano se assinala, contou na sessão de abertura com o secretário de Estado da Segurança Social, Marco António Costa, que deixou alguns dados preocupantes sobre as dificuldades do Estado em garantir as pensões e reformas dos idosos.
Joaquina Madeira, comissária nacional do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, foi quem encerrou os trabalhos, trazendo à discussão temas pertinentes, que momentos antes abordou com o Solidariedade.
“A três meses intensos de trabalho” do final, a comissária diz que “para perceber a tendência deste Ano Europeu é necessário saber que o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações serve para alertar consciências, para informar, para divulgar esta questão de sociedade que é o facto de que todos iremos envelhecer”.
Fundamental, então, e quando a vida é cada vez mais longa, é envelhecer com boa qualidade de vida, um assunto que toca a todos
“O envelhecimento não é para velhos, é para todos os cidadãos. As pessoas vão ter um bónus que é viverem mais, mas é preciso fazê-lo com saúde. E que uma boa parte deste objectivo compete a todos e cada um de nós”, referiu Joaquina Madeira, apontando outro dos propósitos do Ano Europeu: “Por outro lado, chamar a atenção para a condição dos mais velhos. A sociedade descartou os mais velhos, dizendo que são inúteis, incapazes e que já não fazem falta à sociedade. E esta cultura da sociedade afecta as pessoas idosas, pelo que é preciso mudar completamente o discurso e dizer que na sociedade precisamos de todos e todos têm alguma coisa para dar, independentemente da idade”.
Antes, perante a plateia, o presidente da CNIS já alertara que “não se pode pedir o mesmo a todos, mas deve dar-se-lhes essa possibilidade”, lembrando que “o tema do envelhecimento activo quer dizer que, independentemente da idade e da cultura, a pessoa deve ser construtora do futuro”.
A utilidade da pessoa em qualquer momento da vida é inteiramente partilhada pela comissária, que defende que “é preciso esquecer que as pessoas têm idade e centrarmo-nos nas pessoas, que dão o seu contributo em qualquer fase da sua vida. Naturalmente que aquilo que uma pessoa mais velha dá não é o mesmo que dá um jovem, nem um activo, mas ainda bem, porque a sociedade precisa de todos”, lançando um repto: “Vamos valorizar todas as pessoas independentemente da idade, porque todas têm um papel útil a desempenhar”.
Joaquina Madeira sublinha ainda a segunda componente deste Ano Europeu, como fundamental para que o envelhecimento possa ser mais saudável, para o idoso e para a sociedade.
“Uma outra questão muito importante associada ao Ano Europeu é a solidariedade entre gerações. Isto é um capital da sociedade indispensável para a sua evolução, desenvolvimento e para a sua sustentabilidade. Se não houver solidariedade, mas apenas competitividade, com os mais novos a dizerem aos mais velhos para se irem embora e darem o lugar aos mais novos, cria-se uma relação de competitividade”, argumenta, sustentando que “a sociedade precisa dos mais velhos e dos mais novos”, sendo “preciso criar coesão”.
Posto isto, segundo a comissária nacional, “o Ano Europeu veio dizer que para fazermos das nossas agendas, de quem trabalha nestas áreas, no mercado de trabalho, nos equipamentos sociais, nas escolas e nas universidades unidades, equipamentos e entidades amigas de todos os cidadãos, independentemente da idade. É bom crescer entre gerações e temos que criar condições para que isso aconteça”.
Uma ideia muito forte que a comissária nacional do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações tentou sempre passar é a de que para novos problemas são necessárias novas soluções.
Foram também nesse sentido as palavras do presidente da CNIS ao olhar o futuro, deixando o desafio: “As IPSS são os grandes amigos dos idosos, mas o que fazer para as nossas instituições possam ser ainda mais amigas dos idosos. Provavelmente poderemos fazer mais do que já fazemos. Este pode parecer um desafio demasiado abstracto, principalmente pelo clima que vivemos actualmente, por isso vamos tentar saber o que fazer. É que, apesar do muito que já fazemos, ainda há muitos mais velhos a viverem na depressão, na solidão e sem futuro”.
O desafio lançado pelo padre Lino Maia, perante, não apenas dirigentes e técnicos de IPSS, mas do próprio secretário de Estado e de vários autarcas, encontra eco na opinião de Joaquina Madeira sobre as IPSS.
“Continuam a ter um papel muito importante, como tem acontecido ao longo do tempo, só que têm que mudar o paradigma e o modelo de intervenção. E quando digo paradigma refiro-me ao modelo e a estrutura…”, considera, argumentando quanto ao futuro: “As instituições foram pensadas para prestar cuidados e olharam para as pessoas mais velhas como necessitadas de cuidados e essas pessoas, sujeitos de direitos, têm a última palavra sobre o que querem da vida. Não podemos olhar para elas como pessoas mais velhas necessitadas, destinatários dos serviços, mas como pessoas idosas agentes nas próprias instituições em que o centro da instituição tem que ser, de facto, as pessoas e os seus direitos”.
Para a comissária nacional, as IPSS têm que alterar os seus conceitos de Lar e da abrangência do Serviço de Apoio Domiciliário, no qual aposta como uma das boas soluções de futuro.
“Os lares são identificados como territórios de inutilidade à espera da morte e não pode ser, têm que ser um espaço e um tempo de novas oportunidades na vida. E tem que ser esta a abordagem, porque a partir daí muda o resto. As pessoas não exclusivamente como necessitadas de apoio, mas pessoas fundamentalmente como sendo capazes de continuar a desenvolver capacidades e competências. Relativamente aos lares, o modelo vai mudar, agora vai ter muita importância para os últimos momentos da vida, para as demências… A pessoa vai manter-se durante mais tempo com mais saúde, mas nos últimos anos de vida, possivelmente, poderá ter problemas ao nível das demências e das doenças crónicas. E as instituições têm que preparar-se para essa área mais especializada, defende, sugerindo: “Por outro lado, é fundamental o desenvolvimento do Apoio Domiciliário na base da comunidade. Ou seja, não é só o serviço em casa, mas a animação da comunidade para a solidariedade de vizinhança, o acompanhamento dos idosos. O caminho é, por um lado, a especialização na área das demências e das doenças crónicas e, por outro, na prevenção da institucionalização através do Apoio Domiciliário”.
Na sua intervenção inicial, o secretário de Estado quis, acima de tudo, deixar um retrato da situação complicada da Segurança Social.


Marco António Costa começou por revelar ao seminário que, “em 2009, pela primeira vez os impostos foram inferiores ao que se pagou em pensões”, explicando, de seguida, porque é que as contas públicas exigem grande contenção. No ano de 2002 o Estado pagou em pensões oito mil milhões de euros e cobrou de impostos 10 mil milhões, mas em 2012 teve que desembolsar 14,4 mil milhões para as reformas quando apenas cobrou de impostos 13 milhões de euros.
Ainda na introdução, o secretário de Estado defendeu que sem as medidas tomadas pelo Governo, “de um mês para o outro os encargos subiriam 1.200 mil euros”.
Marco António Costa pretendeu dar uma visão que habitualmente não se tem deste problema, rematando: “Estamos num tempo de mudança e que é de oportunidade e agora, mais do que nunca precisamos de agarrar esta oportunidade”.
O seminário tinha como objectivos conhecer as realidades de cooperação territorial e desenhar novas perspectivas, partilhar vivências e testemunhos entre diferentes gerações e lançar procedimentos para dar consistência à continuidade dos objectivos do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações. Daí, que o painel de palestrantes fosse variado e tivesse, da parte da manhã uma forte componente autárquica.
Maria de Luz Rosinha, em representação da Associação Nacional de Municípios Portugueses, os autarcas Castro Almeida e Joaquim Mourão, os representantes das instituições ATC (Joane) e ARCIL (Lousã), Adriano Moreira, presidente da Academia das Ciências, entre outros foram convidados a partilhar a experiência e conhecimentos com uma plateia que se mostrou bastante interessada.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2012-10-11



















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