ADCL, S. TORCATO (GUIMARÃES)

Reforço dos acordos de cooperação é fundamental

A Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL) de S. Torcato, concelho de Guimarães, leva a efeito a hercúlea tarefa de apoiar muito mais pessoas do que as que os acordos de cooperação com a Segurança Social contemplam, o que a obriga a uma gestão muito rigorosa, criativa e flexível.
Manter a sustentabilidade de uma casa em que o Centro Comunitário tem protocolado 45 utentes mas acolhe 105, ou no Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS) o acordo contempla 100 pessoas mas trabalha com um número variável entre as 300 e as 350 e em que o Lar de Infância e Juventude (LIJ) tem apenas oito crianças, mas originou a criação de um Apartamento para Autonomia de Vida, onde vivem três jovens, e que não tem protocolo com o Estado, cria grandes dificuldades a quem tenta ajudar uma comunidade onde ainda existem grandes carências.
“Esse é o grande desafio que estamos a viver neste momento, ou seja, como manter a sustentabilidade das nossas respostas”, questiona Gabriela Nunes, directora-técnica da área de Intervenção Social e Comunitária da ADCL, revelando: “A Associação está a viver uma situação muito apertada, como a maioria das IPSS… Neste momento a situação está controlada, mas não sabemos como será o próximo ano… Não sabemos mesmo, porque temos cada vez mais pessoas a entrar-nos pela porta. Vamos pedindo à Segurança Social que nos reforce os acordos de cooperação, mas dizem-nos que não é possível, que não há dinheiro, e isto começa a tomar proporções efectivamente difíceis de gerir”.
Esta situação levanta enormes receios nos responsáveis da instituição, que ainda por cima vive de respostas sociais em que não há comparticipação dos utentes, ou estas são muito reduzidas.
“Olho o próximo ano com muito medo, é um receio enorme. Estamos, como diz o nosso presidente, a fazer navegação à vista e esta é desgastante do ponto de vista da gestão, da organização, do planeamento e até da inquietação a que nos provoca a todos”.
Estes receios prendem-se ainda com o facto de estar a terminar o presente Quadro Comunitário de Apoio (QCA), sendo o próximo ainda uma incógnita para os responsáveis da ADCL, cuja Área de Educação/Formação vive dos fundos emanados dos programas comunitários.
“Por outro lado, temos a esperança que o novo QCA traga algumas novas possibilidades do ponto de vista social para que possamos continuar a desenvolver as nossas acções e até implementar algumas novas”, afirma Gabriela Nunes.

EDUCAR PAIS E FILHOS

Para além das respostas já enunciadas, a ADCL acolhe ainda 66 crianças nos dois CATL (S. Torcato e Gonça), ao nível do PCAAC apoia 65 famílias, estando a levar a efeito desde Maio de 2011 o projecto Contrato Local de Desenvolvimento Social (CLDS), cujo fim chega em Maio do próximo ano.
“É um projecto que estamos a desenvolver em parceria com a Fraterna, que é a entidade promotora, e a Sol do Ave”, que juntamente com a ADCL executam.
A ADCL está responsável pelo Eixo 2 do programa, que diz respeito à Intervenção Parental e Familiar, em que a acção da instituição é, sobretudo, voltada para a promoção de competências parentais, trabalhando junto dos pais, na aplicação de dois programas: «Mais família, mais criança» e «Mais família, mais jovem».
“Damos formação aos pais para uma educação positiva, um trabalho direcionado para os que têm filhos que estão entre os seis e os 10 anos e ainda para os jovens, que são os adolescentes, e onde está o desafio maior”, sustenta a directora-técnica da ADCL.
No âmbito do CLDS, a Associação estende também a sua colaboração com a CPCJ (Comissão de Protecção de Crianças e Jovens), tendo trabalhado com algumas famílias sinalizadas no Centro de Educação/Formação, que se situa na malha urbana de Guimarães.
Até ao momento e durante o ano de 2012, a ADCL já trabalhou sete grupos de 56 pais, e tratando-se de famílias numerosas, representa um universo de cerca de 250 crianças. Destes grupos, três foram no programa «Mais família, mais criança» e quatro no «Mais família, mais jovem».
O programa termina em Dezembro, mas a Associação está a levar a cabo mais dois grupos, com 16 pais, num universo de cerca de 70 crianças.
Fora do projecto CLDS, a Associação apoiou em sessões de Terapia familiar 41 famílias das nove freguesias do vale de S. Torcato.
“Em simultâneo temos trabalhado com grupos específicos de crianças e jovens e outros com adultos, sobre temas como os jovens e o dinheiro, a questão dos afectos, a toxicodependência e muitos outros temas, em acções replicadas em S. Torcato, Polvoreira, Atouguia, Gondar, Fermentões e Ronfe, num total de cerca de 300 crianças, jovens e adultos”, conta Gabriela Nunes, que ressalva: “Não estamos a lançar mais projectos neste âmbito porque são demorados e o programa termina em Maio. Por isso, uma das intenções da ADCL é a criação de um CAFAP (Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental), porque não existem respostas para a família no concelho. É uma necessidade em Guimarães e nós temos a pretensão de criar um CAFAP, porque decorrente desta acção percebemos as necessidades que existem e o quão sedentas as pessoas estão deste tipo de intervenção”.

COMUNIDADE CARENCIADA

A técnica aponta a “população-alvo da ADCL todos aqueles que estão numa situação de vulnerabilidade” e, na verdade a área territorial que abrange revela grandes problemas sociais e enormes carências, como a própria o indica: “É uma comunidade dispersa, em que um dos problemas tem também que ver com essa dispersão; é uma zona territorial com poucas alternativas em termos de trabalho, sobretudo em algumas freguesias mais a Norte, como Arosa, onde até há muita emigração; é uma zona, sobretudo, rural e carenciada, onde há ainda situações de muita carência”.
Gabriela Nunes identifica ainda uma questão cultural que arrasta consigo muitos outros problemas: “Penso que estamos numa comunidade onde já se encontra alguma transição, com locais a ter já um conceito de infância e de idoso, como aqui em S. Torcato, mas nem sempre é assim. A realidade da infância que se encontra aqui é muito diferente da que se encontra em Guimarães e são apenas sete quilómetros de distância. As expectativas dos pais em relação aos resultados escolares dos filhos são baixas, muito diferente do que acontece na cidade. Aqui, em algumas freguesias ainda há uma desvalorização da escola. Há algumas freguesias também em que os resultados escolares estão abaixo da média concelhia! Há ainda muitos ambientes familiares desajustados, com problemas de alcoolismo e de problemas saúde, entre outros, como a escassez financeira que leva muitas pessoas a confinarem-se ao seu espaço”.
A ADCL está sedeada no Vale de S. Torcato e a área prioritária de acção é a que abrange Comissão Social Inter-Freguesias de S. Torcato, que reúne as nove freguesias, “embora a nossa intervenção seja concelhia e até supra-concelhia, pois temos alguns projectos com uma intervenção mais alargada”, esclarece.
No que diz respeito à Área de Educação/Formação as instalações são na cidade, “porque permite que mais pessoas possam aceder à formação”.
“O Lar também está na cidade, porque queríamos um espaço resguardado e entendeu-se que um apartamento seria uma opção interessante. De resto, a maioria das nossas acções saem daqui da sede, embora o CLDS tenha acções de âmbito concelhio. Já o SAAS intervém sobretudo aqui na área prioritária, tal como o Centro Comunitário”, explica Gabriela Nunes.

CAFAP É UMA NECESSIDADE

Quanto ao futuro, a ADCL tem ideias e quer concretizar projectos, uma vez que os presentes estão a terminar ou a exceder a resposta.
“Pedimos o CAFAP para poder continuar a responder às necessidades das famílias e ponderamos pedir o alargamento do SAAS. Estávamos na expectativa de protocolar o RSI, porque nós também acompanhamos os processos de RSI nas freguesias. Havia essa intenção inicialmente por parte da Segurança Social, mas como as coisas estão não está fácil. O que tem valido ao Centro Comunitário são as parcerias, que asseguram muitas dinâmicas para além das próprias”, congratula-se a directora-técnica, que explica o que diferencia a ADCL de muitas outras IPSS: “A postura desta casa é muito, não meramente responder à necessidade, mas de colocar as pessoas a participar, a procurarem oportunidades, a serem mais activas na comunidade”.
Nesse sentido, os utentes do Centro Comunitário apresentaram uma candidatura ao Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Guimarães, que foi aprovada e aguarda resposta.
A primeira necessidade identificada pelos utentes foi a de uma maior oferta cultural. Porém, não foram egoístas e elaboraram uma proposta, que Gabriela Nunes classifica como “uma ideia bonita”.
“Ao perceberem que há muito idosos sós e isolados, então fizeram uma candidatura para receberem formação de cidadãos na área cultural. Assim, vão participar em vários ateliers, que visam a itinerância, ou seja, eles vão levar o que aprenderem aos idosos sós e isolados que há por estas freguesias fora”, conta, orgulhosa, a directora-técnica da ADCL.
Entre muitos projectos levados a efeito pela instituição, o mais mediático e que mais pessoas reúne todos os anos, desde 1995, é a Feira da Terra, e que este ano atraiu para cima de 45.000 pessoas a S. Torcato. Ali são expostos os trabalhos dos artesãos da região e ainda os produtos cultivados nos vastos e ricos campos do Vale de S. Torcato.

LAR DE INFÂNCIA E JUVENTUDE

O Lar de Infância e Juventude (LIJ) da Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL) era até há pouco uma resposta atípica, tem apenas oito crianças e é misto.
“É um LIJ nada idêntico à maioria dos que existem e é num apartamento T4 no centro da cidade de Guimarães, que está completamente descaracterizado”, revela Gabriela Nunes, da ADCL.
“A intenção e o funcionamento do Lar é muito familiar. A ideia é que seja um espaço atento à individualidade, mais perto de um modelo familiar do que do institucional. Acreditamos que se institucionaliza as crianças para proteger os direitos delas, mas nós tentamos desinstitucionalizar o nosso LIJ para proteger os mesmos direitos”, defende Gabriela Nunes, explicando o propósito desta postura: “Fazemos isto para que eles se possam sentir-se em casa, num lugar afectuoso, onde possam ter oportunidade de dar a sua opinião, de participar nas decisões da casa e onde nós os possamos conhecer por dentro e por forma, para também permitir um apoio regular e uma boa integração. Tem corrido muitíssimo bem, os resultados são excepcionais”.
A satisfação da directora-técnica da ADCL prende-se com uma outra resposta que a instituição criou e que se prende directamente com o sucesso do trabalho desenvolvido no LIJ.
“Os meninos cresceram, chegaram aos 18/20 anos, a estudar na faculdade e não tinham casa para onde ir, nem tinham ninguém… Achámos que era maltratar aqueles jovens, depois de tanto fazermos por eles e eles terem encontrado caminho, mandá-los viver sós… E com eles nas mãos tivemos mesmo que encontrar alternativas”, conta, referindo-se ao Apartamento para Autonomia de Vida, onde hoje vivem três jovens e que até ao final do mês outro se lhes irá juntar. Dos três que actualmente habitam o apartamento, um cursa Geografia em Coimbra, outra Educação Social em Viseu e um outro concluiu o Mestrado em Desporto na UTAD, em Vila Real.
Por ser uma resposta com resultados muito positivos, a ADCL pretende estabelecer um acordo de cooperação para a resposta social Apartamento para Autonomia de Vida.
“Solicitámos um acordo de cooperação, mas na altura não foi possível… No entanto, continuamos a pedir. O que conseguimos foi que a Câmara Municipal de Guimarães nos ajudasse no apoio à renda, através do RMIS, que é um regulamento para as respostas das instituições de solidariedade social”, revela Gabriela Nunes, que explica o tremendo empenho dos jovens abrangidos: “Felizmente, os jovens integraram-se bem em termos sociais, adaptaram-se bem e alargaram as suas expectativas de vida e inclusão social ao ponto de todos eles irem para a faculdade”.
E a sua maturidade e integração social vai ao ponto de os residentes do apartamento usarem as bolsas de estudo da universidade para suportarem as despesas na faculdade e as despesas do apartamento.
“Este é um projecto que está na excelência”, sustenta, orgulhosa, lançando, porém, um novo alerta: “Preocupa-nos o estabelecimento de um acordo de cooperação, porque neste momento os nossos jovens que atingem a maioridade têm-se valido das bolsas de estudo e do apoio da Câmara, mas há jovens que não querem seguir o ensino superior e de emprego isto está como está”.A Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL) de S. Torcato, concelho de Guimarães, leva a efeito a hercúlea tarefa de apoiar muito mais pessoas do que as que os acordos de cooperação com a Segurança Social contemplam, o que a obriga a uma gestão muito rigorosa, criativa e flexível.
Manter a sustentabilidade de uma casa em que o Centro Comunitário tem protocolado 45 utentes mas acolhe 105, ou no Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS) o acordo contempla 100 pessoas mas trabalha com um número variável entre as 300 e as 350 e em que o Lar de Infância e Juventude (LIJ) tem apenas oito crianças, mas originou a criação de um Apartamento para Autonomia de Vida, onde vivem três jovens, e que não tem protocolo com o Estado, cria grandes dificuldades a quem tenta ajudar uma comunidade onde ainda existem grandes carências.
“Esse é o grande desafio que estamos a viver neste momento, ou seja, como manter a sustentabilidade das nossas respostas”, questiona Gabriela Nunes, directora-técnica da área de Intervenção Social e Comunitária da ADCL, revelando: “A Associação está a viver uma situação muito apertada, como a maioria das IPSS… Neste momento a situação está controlada, mas não sabemos como será o próximo ano… Não sabemos mesmo, porque temos cada vez mais pessoas a entrar-nos pela porta. Vamos pedindo à Segurança Social que nos reforce os acordos de cooperação, mas dizem-nos que não é possível, que não há dinheiro, e isto começa a tomar proporções efectivamente difíceis de gerir”.
Esta situação levanta enormes receios nos responsáveis da instituição, que ainda por cima vive de respostas sociais em que não há comparticipação dos utentes, ou estas são muito reduzidas.
“Olho o próximo ano com muito medo, é um receio enorme. Estamos, como diz o nosso presidente, a fazer navegação à vista e esta é desgastante do ponto de vista da gestão, da organização, do planeamento e até da inquietação a que nos provoca a todos”.
Estes receios prendem-se ainda com o facto de estar a terminar o presente Quadro Comunitário de Apoio (QCA), sendo o próximo ainda uma incógnita para os responsáveis da ADCL, cuja Área de Educação/Formação vive dos fundos emanados dos programas comunitários.
“Por outro lado, temos a esperança que o novo QCA traga algumas novas possibilidades do ponto de vista social para que possamos continuar a desenvolver as nossas acções e até implementar algumas novas”, afirma Gabriela Nunes.

 

Data de introdução: 2013-11-26



















editorial

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