JUNHO DE 2014

“A Europa jaz, posta nos cotovelos …” - por Henrique Rodrigues

1 - O título da crónica reproduz o primeiro verso do poema inicial - I. OS CAMPOS. PRIMEIRO /OS CASTELLOS -, da “Mensagem”, de Fernando Pessoa, livro publicado em 1934:

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.”

2 – Em 1934, quando foi publicada a “Mensagem”, Portugal, rosto da Europa, fitava o Ocidente, onde está o Atlântico – e porventura a Atlântida …
Muitos anos correram desde a publicação do livro – 80 anos, para ser mais preciso -, e muito mudou neste País que é o rosto marítimo do nosso continente.
Grosso modo, poderemos dizer que, desses 80 anos, os quarenta primeiros foram da ditadura de Salazar e Caetano; e os segundos quarenta foram os que se seguiram à Revolução de Abril.
Durante a Ditadura, não olhávamos verdadeiramente para lado nenhum: nem para o mar que a Geografia e a História nos destinaram para horizonte – e para o mundo que há para além do mar: “Pelo Tejo vai-se para o Mundo./Para além do Tejo há a América/E a fortuna daqueles que a encontram …”, como escreveu o mesmo Pessoa; nem para as traseiras, o continente europeu.

Para responder ao desprezo que nos votavam os países democráticos do Ocidente, Salazar estabeleceu a doutrina do “orgulhosamente sós”, que marcou a nossa política externa durante o seu longo consulado.
Durante esses penosos 40 anos, olhámos mais para dentro do que para fora – já que não havia liberdade de informação nem de viagem, procurando transferir-se a rigidez e a clausura das fronteiras para dentro da cabeça de cada um dos portugueses.
Durante esses anos, em Portugal não se fitava o mar como Pessoa dizia que nos estava no carácter – senão para despedida dos soldados que partiam para as colónias, para a guerra.
Olhava-se para dentro, ensimesmava-se, entristecia-se …

3 - Nos últimos 40 anos, esse rosto com que Portugal fita o mundo deu uma volta completa – virando-se para o que antes eram as traseiras, essa Europa que nos ignorava.
E que continua a ignorar.
Os anos iniciais, após a adesão à CEE, foram de fartura.
Desaguavam diariamente milhões em Portugal, vindos de Bruxelas: para formações inúteis, mas que enriqueceram os espertos; para destruir a produção agrícola, subsidiando o absentismo e promovendo a troca de tractores por jipes e piscinas; para abater a frota de pescas, passando a comprar em Espanha o peixe pescado em Portugal pelos espanhóis; e para nos dotar da maior proporção de quilómetros de auto-estradas por habitante, com a vantagem de assegurar colocação e emprego nas correspondentes parcerias aos novos barões do regime, quando para lá transitassem directamente do Governo e adjacências.
Com esses milhões, vieram outros tantos regulamentos, com a única ambição de nos tornar a vida mais difícil e mais asséptica, mas justificando, por parte da clique burocrática e cinzenta da Comissão Europeia, a sua própria existência.
Sem nenhuma vantagem para os povos e para os países.
Como referiu Matteo Renzi, primeiro-ministro de Itália: “Se a Europa me explica em detalhe como é que eu devo pescar um peixe-espada e não me diz nada sobre a forma de salvar um emigrante que se afoga, isto quer dizer que há qualquer coisa que não está bem.”
Não posso deixar de juntar o meu assobio ao da multidão que recebeu Durão Barroso em Lampedusa e a minha prece à do Papa no mesmo lugar de horror.
Ainda hoje, 1 de Junho, dia em que escrevo esta crónica, Alexandra Prado Coelho, na Revista 2, do Público, ao escrever sobre uma visita que fez a uma antiga manteigaria de Lisboa – do tempo em que a manteiga se vendia a peso (embora o corrector automático do Windows me avise de que a palavra manteigaria não existe) -, saúda esta vitória dos proprietários dessa mesma loja: “Amarelos, reluzentes, os queijos (da Serra) descansam sobre uma tábua, símbolo de uma vitória da Manteigaria contra as legislações cegas que queriam obrigá-la a abandonar a madeira, substituindo-a por aço inoxidável.”
A igualdade entre os Estados, que constituía uma das virtudes da União Europeia, e que permitia, com efeito, aos pequenos Países reequilibrar – ou recalibrar, como diria o nosso Governo – o seu peso no conjunto da União, é hoje uma miragem e uma saudade.
A Comissão é inútil; e quem manda em vez dela, sem disfarce, é a Alemanha.
Sozinha, como sempre foi ao longo da História.
Assim como estivemos três anos a empobrecer em Portugal, a fim de transferir os escassos recursos da nossa pobreza para resolver os problemas da banca alemã, não tarda os regulamentos da UE proibirão, sob qualquer higiénica razão, que a gente coma ao fim da tarde uma talhada de presunto, curado na cozinha de um lavrador, acolitado por uma fatia de Serra, com umas lascas de bacalhau cru e uma cebolas do talho, acompanhadas de um ou dois copos de vinho, impondo-nos a choucroute e as salsichas, com cerveja da Baviera, para escoar os excedentes de produção alemães.
Fazendo connosco o que fazíamos dantes com as colónias, para onde mandávamos a zurrapa e proibíamos que comprassem fora de Portugal.

4 – Foi também este desalento, a certeza de que este tipo de Europa não nos serve, senão para fazer de nós servos, que foi a votos há uma semana.
Muitas das ausências nas urnas, muito dos votos contra a situação, tiveram estas boas razões.
A UE não é uma democracia, os povos da Europa não votaram uma única das medidas dos Tratados, já não nos mandam dinheiro para nos comprar a alma, transformam a nossa vida num inferno, inscrito numa folha quadriculada, com um regulamento em cada quadradinho.
A severa diminuição das votações nos três partidos que têm exercido o poder em Portugal tem também esta justificação: nenhum deles tomou, durante a campanha, qualquer posição crítica quanto ao modelo de funcionamento da União.
Pelo contrário: à única opção sensata, a dos pequenos passos, oferecem-nos, todos eles, um aumento da integração a mata-cavalos.
Não tenho derivas vanguardistas: independentemente das minhas opiniões, em cada momento, sobre cada um deles, o certo é que o PS, o PSD e o CDS, se nos governaram durante 40 anos, é porque tiveram os votos para tanto; isto é, souberam, durante este período, identificar-se com o sentimento popular maioritário.
O que a votação de 25 de Maio veio significar é que essa identificação é hoje minoritária – e que a manutenção do Governo na estabilidade do Bloco Central, que nos tem governado, com pequenas variações, desde 1980, exigirá uma posição nítida quanto ao nosso estatuto europeu.
Estes três anos de ajustamento e pobreza mostraram-nos que é essa a questão central.
Termos virado o pescoço do mar para as traseiras, com tão rápida rotação, pode fazer aparecer um torcicolo, é certo.
Mas pode mesmo partir o pescoço, de golpe.
Então ficaremos como a Europa que nos querem impor: a jazer, mas agora de borco; para voltar a Fernando Pessoa, um “cadáver adiado que procria”.

Henrique Rodrigues – Presidente da Direcção do Centro Social de Ermesinde 

 

Data de introdução: 2014-06-04



















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