DE MÃOS DADAS, RIO TINTO, GONDOMAR

Olhar as crianças como seres competentes e capazes

Não é muito habitual o SOLIDARIEDADE ter por cicerone nas suas visitas uma criança de 5 anos. No entanto, foi o que aconteceu na De Mãos Dadas – Associação de Solidariedade Social, de Rio Tinto, mais concretamente da zona do Forno. O Rodrigo explicou ao repórter o trabalho que ele e os seus colegas de sala vêm desenvolvendo desde o início do ano lectivo, em que África ocupa um lugar central. Entusiasta e comunicador, o Rodrigo foi um bom exemplo do método pedagógico implementado na instituição do concelho de Gondomar, que olha a criança como um ser competente e capaz.
«Toda a nossa pedagogia é baseada num modelo construtivista, onde a criança tem um papel activo na construção do seu próprio conhecimento. Ela aprende fazendo, explorando e experienciando», pode-se ler no enunciado inscrito no site da instituição, que releva ainda alguns dos aspectos fundamentais nesta «pedagogia da consideração pela criança»: «Os seus interesses, as suas experiências e aprendizagens prévias, as suas características, as suas preocupações, as suas ansiedades, as suas curiosidades e até mesmo as suas ideias e pensamentos».
Construindo o seu próprio modelo pedagógico, a equipa técnica da instituição fê-lo bebendo na Metodologia de Projecto (ajuda a criança a extrair um sentido mais profundo da realidade em que está inserida), no Modelo Curricular High-Scope (base para a organização do espaço da sala enquanto possibilitador de uma aprendizagem activa), no Modelo Pedagógico de Reggio Emília (permite que a criança aprenda através das relações com os pares, equipa pedagógica, comunidade e pais) e ainda no Movimento da Escola Moderna (possibilita um espaço onde o sentido de cooperação e solidariedade é uma constante).
Entrar nas diversas salas é mergulhar num mundo de descobertas, onde não se vê um centímetro de parede e onde o espaço é disputado pelos Beatles, Amália Rodrigues, Adamastor, foguetões, a savana africana, ou pela chita, animal preferido do Rodrigo, por ser o mais veloz de todos.

CRESCIMENTO

O Projecto Educativo é de facto a grande bandeira da instituição, que o presidente Amadeu Branquinho atribui à equipa de educadoras de infância: “Elas têm uma marca própria”.
Sem poder marcar a diferença pelas instalações, a instituição decidiu apostar nos recursos humanos, dando-lhes formação e ouvindo-os para criar algo de inovador.
“A determinada altura constatámos que, como nunca fizemos equipamentos de raiz, mas adaptámos sempre as valências aos espaços, num fim-de-semana reunimos todos os colaboradores, tipo retiro, algo que ainda hoje se faz, e pedimos propostas, sugestões e ideias. Daí resultou a ideia de fazermos a diferenciação pela qualidade do serviço e por um projecto curricular inovador, em que haja a partilha e interacção permanente com a família”, conta Amadeu Branquinho, que volta a entregar os louros às técnicas: “Foram as educadoras que criaram o projecto, que está defendido em tese por vários professores universitários, que já aqui vieram estudar a situação”.
O percurso da instituição, nascida a 3 de Julho de 1985, no seio da Cooperativa Mãos À Obra, foi feito com apostas “na formação dos colaboradores, na pesquisa de novos instrumentos e na qualidade”, refere o presidente, revelando: “Fomos a primeira instituição a ser certificada na área alimentar em todo o País e na área dos serviços. Temos vindo a evoluir por esses sistemas diferenciadores. E foi a forma que encontrámos para concorrer num mercado que estava a ser agressivo, designadamente, pelas autarquias”.
E se a crise já levanta muitos obstáculos às instituições sociais, a concorrência desenfreada e, muitas vezes, desleal, só agrava a situação. No entanto, as coisas já estiveram piores para o lado da De Mãos Dadas.
“No ano passado a instituição estava a atravessar uma dificuldade grande de tesouraria. Entretanto, ganhámos um prémio que permitiu fazer uma auditoria e metermos aqui um jovem financeiro, com muitas competências, que fez a reestruturação de uma dívida bancária que temos e que aliada à dispensa de alguns colaboradores, pela redução de utentes que entretanto tivemos, a instituição está a readquirir, em termos de tesouraria, a viabilidade que não tinha há um ano”, sustenta o presidente, que aponta o investimento na requalificação das instalações do ATL e a aquisição de mais um espaços como as causas para esse desequilíbrio, mas sublinha que “a situação complicou-se face ao decréscimo das comparticipações familiares, mas hoje a situação está perfeitamente equilibrada, devido a essa reestruturação”.
Exclusivamente dedicada à área da infância, a instituição tem sofrido com a redução do número de crianças.
“Isto é um paradoxo, porque em 2008 há uma política do Governo de criação, com financiamento, de novas salas, e nós até tínhamos lista de espera, mas dois anos depois, ainda estávamos a começar a pagar esses investimentos, o mercado altera-se, muito pela grande emigração dos jovens, pelas famílias que começam a ficar desempregadas, pelo lançamento de equipamentos novos pelas Autarquia, a que as pessoas podem acorrer a preços muito mais baixos. Isto está já a ser analisado a nível da Rede Social, porque se funcionamos em rede é necessário articular as coisas, senão não funciona”, alerta Amadeu Branquinho.
Decisivo para o equilíbrio da situação financeira e para o desenvolvimento da instituição foi, na opinião do presidente, “a profissionalização da gestão, que foi fundamental para a instituição poder dar o salto, porque hoje o voluntarismo e a boa vontade não chegam”.

ESTABILIZAR

E apesar de a instituição sonhar com mais, especialmente começar a oferecer respostas à terceira idade, os tempos não estão para novas aventuras.
“Neste momento queremos é consolidar esta situação. Nos próximos cinco anos não admitimos crescer. Vamos consolidar, porque o estudo que fizemos diz-nos que a partir do terceiro ano passamos a ter disponibilidade financeira própria para investimento sem necessidade de recorrer à banca”, sustenta, revelando: “O último estudo que fizemos diz-nos que está esgotada a oferta do pré-escolar, que as carências são ao nível da terceira idade. Na nossa zona todas as instituições que ofereçam resposta nessa área terão muita procura… Estávamos no caminho certo com a intenção de construir o lar, mas não conseguimos”.
De facto, já há uns anos a instituição elaborou um projecto para a construção de um equipamento, na zona do campo de ténis e do rinque, que albergaria um Lar e um Centro de Dia. Porém, era necessário que a assembleia de condóminos da Urbanização Mãos À Obra aprovasse por unanimidade a cedência do espaço. Tal não aconteceu e a oportunidade gorou-se, pois até já financiamento estava garantido.
“Apresentámos um projecto que se enquadrava na perfeição no resto da urbanização, com umas poucas residências, mas a grande força era a assistência em casa, dado que o grau de proximidade permitia prestar esse serviço… Durante o dia, a quem se pudesse deslocar, garantíamos assistência, monitorização e animação, mas, apesar de haver financiamento, na assembleia de condóminos o projecto foi recusado por uma dúzia de pessoas. E, assim, o projecto foi abortado estupidamente”, lamenta Amadeu Branquinho, que assinala haver uma grande percentagem de residentes na urbanização com mais de 65 anos.
Uma outra medida posta em prática este ano e que visa igualmente a redução de custos, na busca do equilíbrio financeiro, foi a entrega a uma entidade externa do serviço de cozinha.
“Era um passo que estávamos a adiar, porque não tínhamos estudos das vantagens de sermos nós a confeccionar e a entregar as refeições. Como a maioria das IPSS, fomos confrontados com os problemas da crise e as famílias com muito menos recursos. Então, pedimos a duas entidades estudos de viabilidade económica e tivemos que fazer opções… Tínhamos dificuldades na gestão das compras, não conseguíamos fazer boas compras, porque não temos capacidade de armazenamento, e as opções, segundo esses estudos, apontavam-nos para tentar rescindir com uma das colaboradoras mais antigas da cozinha e adjudicar a uma entidade competente e certificada a gestão das compras e confecção alimentar. Se a empresa adjudicada está certificada não fazia sentido mantermos a nossa certificação, pelo que a suspendemos. E neste momento estamos a fazer a experiência com muitíssimos bons resultados, com uma economia em todas as escalas muito grande”, defende, referindo que a confecção das refeições continua a ser feita nas instalações e pelos colaboradores da instituição, mas sob supervisão dessa empresa.

NOVAS RECEITAS

Para tentar rentabilizar ainda mais a cozinha e esta nova parceria, e não só, a instituição já proporciona festas de aniversário para as crianças, mas há algo mais que Amadeu Branquinho espera ver implementado dentro em breve: “É a possibilidade de disponibilizarmos refeições, não apenas para a comunidade, mas também para o exterior. Já fizemos um estudo e poderá haver interessados, pelas mais diversas razões, que queiram vir aqui, numa espécie de take-away, buscar as suas refeições previamente encomendadas. Isto tem uma perspectiva comercial, pois só na Urbanização são cerca de 600 famílias. Uma outra situação que faz parte do projecto de alargamento de serviços tem que ver com o transporte de pessoas. Ou seja, prestar uma série de serviços às pessoas da Urbanização, especialmente em termos de transporte dos mais idosos. Isto implicará que as pessoas se façam sócias, pois poderão, entretanto, beneficiar de uma série de serviços que pretendemos disponibilizar à comunidade”.
O propósito de todas estas acções é “o alargamento da componente financeira e, assim, a instituição não depender tanto do Estado”.
De Mãos Dadas é uma associação de solidariedade social que emergiu, em 1985, na comunidade da Urbanização Mãos À Obra, criada em 1974. Os rés-de-chão dos blocos habitacionais eram vagos e abertos, apenas entrecortados pelas colunas de sustentação do edifício.
“As pessoas que aqui habitavam puseram mãos à obra e começou-se, então, a fechar os espaços. Foi um trabalho muito interessante, porque a Cooperativa forneceu os materiais e a mão-de-obra era indiferenciada e composta pelos moradores… Alguns nunca tinham pegado num tijolo… Foi um momento muito especial”, recorda Amadeu Branquinho, que lembra a simbologia do nome da instituição: “Isto nasce de todos darem as mãos e, então, foi assim que surgiu o nome De Mãos Dadas. Hoje isso já não existe, a sociedade evoluiu por um caminho em que esses valores já pouco se vêem”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2014-06-09



















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