JARDIM-DE-INFÂNCIA Nª Sª DA PIEDADE, ODEMIRA

Apanhadores de sonhos

Ao entrar na casa-mãe do Jardim-de-infância Nª Sª da Piedade, em Odemira, tem-se a sensação de se estar a entrar numa pequena aldeia dentro da vila que é sede do maior concelho em extensão territorial do País. O aglomerado de edifícios, de traça tradicional, intra-muros, de paredes brancas e bordeadas a azul, com caminhos, jardins e hortas e um miradouro sobre o rio Mira, que oferece uma paisagem transcendente, remete o visitante para um universo imensamente reduzido, ou não fosse aquele espaço todo das… crianças.
Aliás, lá dentro quem manda são os petizes, ou seja, quem manda é uma força de expressão que encontra o seu fundo de verdade no modelo educativo adoptado pela instituição fundada pela Congregação das Oblatas, no ido ano de 1967, e que é o do Movimento da Escola Moderna.
E no que consiste? Nada mais, nada menos do que dar às crianças a iniciativa do que deve ser explorado e aprendido.
“Nós queremos ser apanhadores de sonhos das crianças, ajudá-las a desabrochar as capacidades que têm, pelo que cada educador é um apanhador de sonhos. E queremos que as crianças aqui consigam sonhar o futuro para a vida delas. Aqui, sonha-se e cria-se. Os pais sonham sempre qualquer coisa para os seus filhos, mas aqui queremos que os sonhos das crianças se realizem nelas futuramente. E o grande sonho é que sejam felizes, independentemente do que forem na vida. E aqui ajudamo-las a caminhar e a descobrir, porque elas vão sempre voar o voo delas e não o nosso, mas queremos ser esse suporte com que elas podem contar”, começa por explicar a bem-disposta irmã Teresa Geraldes, que acrescenta: “E fazemo-lo com muita arte e um bocadinho de manha”.
Por seu turno, Vanda Francisco, directora pedagógica, levanta o véu sobre a prática pedagógica da instituição.
“O projecto curricular da instituição é «Terra, um planeta com vida», mas cada sala é livre de trabalhar o tema. Por outro lado, trabalhamos com o Movimento da Escola Moderna, que preconiza que se trabalhe com o que as crianças querem e nada que lhes seja imposto. Os projectos emergentes de algum conhecimento que a criança queira ter sobre determinado assunto faz com que a ela explore, mostre aos colegas e, depois, estes ficam também curiosos. As nossas salas são heterogéneas, com meninos de três, quatro e cinco anos, e isto faz com que os mais velhos ajudem os mais pequenos, que por sua vez se desenvolvem-se de uma forma natural com os mais velhos, que são ainda protectores dos mais pequenos”, sublinha Vanda Francisco, ao que a irmã responsável pela instituição acrescenta: “Anualmente temos formação no Movimento da Escola Moderna na Escola Superior de Educação. As educadoras estão sempre a fazer reciclagem. É nossa preocupação que o pessoal da instituição tenha formação permanente e dirigida às suas áreas, sejam educadoras, sejam auxiliares. E vamos fazer comunicações, a nível nacional, a outras instituições sobre a nossa prática”.
A directora pedagógica recorda um projecto desenvolvido com as crianças, em que cada sala tem uma horta, “porque valorizamos muito o contacto das crianças com a terra”. Desse projecto inicial nasceu um outro, como refere a irmã teresa Geraldes: “Editámos um livro, com o título «E eis que tudo era bom», sobre um projecto que desenvolvemos em 2009, mas que continua a ser desenvolvido. Foi um trabalho que as crianças fizeram na horta com uma engenheira agrónoma, com as educadoras e com os pais e em que agora mantemos as hortas. São hortas pequenas, mas para as crianças aquilo é uma quinta. Inicialmente não tínhamos intenção de editar livro nenhum, mas surgiram coisas tão boas que avançámos para a publicação. E como não tínhamos verba foi a Associação D. Pedro V que nos subsidiou a publicação. A partir deste livro nasceu na instituição o Dia Genesis, em que a criança se dedica à horta, à observação, à contemplação e ao registo do que vê”.
O facto de Odemira ser uma terra que vive essencialmente da terra e da agricultura, com grandes empresas agrícolas ali sedeadas, este despertar para as coisas da terra é um trunfo da instituição na passagem para as crianças de alguns valores, muitas vezes esquecidos, mas de grande valor para o Homem.
Com o objectivo de melhorar o serviço prestado, a instituição está em processo de certificação de qualidade, pela norma ISO 9001/2008.
“Queremos tornar-nos mais fortes no que fazemos e ter mais consistência em tudo. E o que inicialmente nos parecia muito difícil, agora é algo muito normal e natural. Foi essencialmente uma forma de nos organizarmos melhor e que nos ajudou bastante. Mais do que a certificação, o nosso objectivo era ter qualidade nas nossas práticas. E aceitámos o desafio da qualidade para fazermos melhor e termos a consciência plena de que estamos a fazer bem”, sustenta Vanda Francisco.
E é com orgulho, e um grande sorriso, que a religiosa responsável pela instituição fala do projecto das «7 Maravilhas do Infantário», pois a esmagadora maioria têm que ver com as práticas levadas a efeito na instituição.
“Criámos um concurso sobre as 7 Maravilhas da instituição e foram os pais que durante três meses trabalharam nessa escolha e em que a mais valorizadas foram as crianças e a equipa pedagógica, que inclui todos os funcionários”, explica.
Às Crianças e à Equipa Educativa, seguiram-se as Instalações, a Segurança, a Higiene, a Alimentação e, por fim, a Criatividade.
Quanto a projectos mais estruturantes, para já a Direcção da instituição não tem nada em mente, especialmente depois de o Infantário ter ampliado a sua capacidade de acolher crianças, com a construção de dois equipamentos, na freguesia vizinha de Boavista dos Pinheiros.
“A ampliação dos infantários foi um grande projecto do qual temos que descansar um pouco. O projecto da instituição é formar uma boa equipa. Não é só formar e ajudar a formar crianças, mas é também formar adultos, pessoas que dentro da sociedade tenham um papel activo, criativo e inovador e que acreditem que vale a pena darem-se a uma sociedade que acreditamos ser cada vez melhor”, sublinha a irmã Teresa Geraldes, ao que Vanda Francisco acrescenta: “A nossa instituição também está muito aberta à comunidade e as pessoas aderem muito bem a todas as coisas que fazemos e estão sempre à espera de mais da nossa parte. E somos muitas vezes convidados para realizar actividades. Temos uma relação boa com a comunidade”.
A colaboração com a Câmara é profícua e a religioa destaca mesmo um dos mais recentes, pela grande aceitação que teve da população de Odemira: “A Câmara pediu que o infantário assinalasse os 40 anos do 25 de Abril e nós organizámos uma festa em que participaram as crianças, os pais, a equipa pedagógica e a comunidade, onde estiveram cerca de 700 pessoas. A festa foi linda”.
O Jardim-de-infância de Nª Sª da Piedade acolhe no total 120 bebés em creche, 150 crianças em pré-escolar e ainda meia centena em ATL, sendo que na casa-mãe existem as três valências, enquanto na Casa Beatriz Gamboa, inaugurada em 2007, funciona apenas uma creche, enquanto na Casa Maria Luísa Cordes da Ponte, em funcionamento desde 2011, existem as valências de pré-escolar e ATL.
Com uma equipa de 65 funcionários e três religiosas, a instituição serve ainda 64 refeições diárias através da Cantina Social e serve 200 refeições, em Odemira e Boavista dos Pinheiros, às escolas do 1º Ciclo do Ensino Básico. Ou não fosse a alimentação uma das Maravilhas do Infantário!
Do muito que se tem falado acerca da quebra da taxa de natalidade em Portugal, Odemira parece não poder queixar-se.
“Ainda não sentimos a diminuição de crianças e pelas matrículas que temos para o próximo ano não dá para sentir, mas não quer dizer que daqui a um ano não possa acontecer. Mas numa vila do Alentejo ter mais de 300 crianças é significativo”, sublinha a irmã Teresa Geraldes, o que Vanda Francisco complementa: “E existem mais instituições, não somos a única. Podiam os pais trazer as crianças todas para aqui porque não existiam mais, mas não, existem pelo menos mais duas IPSS no concelho com infantário. As empresas agrícolas, e há algumas grandes empresas, acabam por trazer muitas pessoas que passam a viver aqui”.
Apesar de sócio-economicamente Odemira ter uma população num nível médio-baixo, “porque as pessoas até podem ter trabalho, mas têm ordenados baixos”, a instituição consegue ter uma boa saúde financeira.
“A coisa está equilibrada, embora tenhamos um elevado número de crianças gratuitamente. E há um número um bocadinho crescente a solicitar a redução das mensalidades”, sustenta a religiosa.
E à pergunta de como seria Odemira sem o Jardim-de-infância Nª Sª da Piedade, a irmã Teresa Geraldes não tem dúvida: “Seria mais pobre e não teria tanta beleza. Há duas coisas que embelezam Odemira, o rio Mira e o infantário. Imagine uma vila sem crianças e sem infantário. Acho que a vila não seria o que é hoje, não teria tanto encanto sem estas duas coisas”.
Defendendo que na instituição todo o pessoal sabe que “é com paixão” que o trabalho tem que ser feito, a irmã Teresa Geraldes define assim a missão de todos os que ali laboram: “A missão da instituição é acolher as crianças e o infantário ser a continuação das casas delas. Queremos que as crianças se sintam bem e sejam felizes, para quando forem adultos fazerem outros felizes”.

NÃO HÁ UM ÚNICO PÁSSARO NO CÉU

“Nós passamos muito o aspecto da contemplação e do espiritual às crianças, e não precisa de ser cristão, até porque temos crianças, por exemplo, Testemunhas de Jeová, mas quero que elas a partir da verdade humana que podem encontrar na instituição, porque esta acima de tudo tem que ser humana, é que vão descobrir Deus. O rosto de Deus somos nós… Há confronto, porque não somos perfeitas, nem somos de cera, somos mulheres de carne e osso, com defeitos e é nesses confrontos que a gente cresce”, começa por explicar a irmã Teresa Geraldes, para de seguida contar o caso de um menino de sete anos que, numa carta aos pais corporizou tudo aquilo que a instituição pretende passar para as crianças. “Uma criança do ATL foi de férias com os avós para Lisboa e escreveu uma carta aos pais em que dizia: «Gosto muito de estar com os avós, mas tenho tantas saudades de Odemira, porque aqui não vejo os pássaros voarem, não há um único pássaro no céu». É para isto que trabalhamos”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2014-09-17



















editorial

O TRIÂNGULO DA COOPERAÇÃO

A consciência social, aliada ao dever ético da solidariedade, representa uma instância suprema de cidadania, um compromisso inalienável para com os mais vulneráveis e em situação de marginalidade, exclusão e pobreza.

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA, PRES. CONF. PORTUGUESA DO VOLUNTARIADO

A Política Melhor (II)
Na continuação dos assuntos abordados no meu texto anterior, reitero que vale a pena, aos dirigentes das IPSS, independentemente das suas convicções ideológicas ou...

opinião

JOSÉ A. SILVA PENEDA

A guerra na Ucrânia e as consequências para a Europa
A guerra na Ucrânia é, sem dúvida, o maior desafio que se coloca à União Europeia desde a sua fundação. É a primeira vez, desde a última grande...