HENRIQUE RODRIGUES

Gramática Grega

1 - Os meus leitores hão-de perdoar-me o estilo pot pourri da crónica.
Mas pareceu-me, a pretexto das várias reacções, quer domésticas, quer europeias, aos resultados das eleições na Grécia e à vitória nelas do Syrisa, bem como aos propósitos, já reafirmados após a imediata formação do novo Governo, de cumprir as promessas eleitorais, pareceu-me, repito, que seria interessante uma deambulação por algumas variações literárias, todas da lusofonia, à roda do tema.
E deixar que, desta vez e em minha vez, falem os poetas.
Pelo que li nos jornais, parece que a fábula da cigarra e da formiga foi um dos topoi mais glosados, vista na perspectiva, largamente predominante, de a formiga representar o trabalho e a poupança, em metáfora das virtudes; e a cigarra, o lazer e a preguiça, emblema dos vícios.
No discurso dominante, a formiga, que guarda as suas reservas para o Inverno numa despensa subterrânea, e para isso vive quase sempre no frio, debaixo da terra, representa, nesta quase federação europeia em que vivemos, os países do Norte: também eles frios, acumulando a parte preponderante dos bens e recursos globais; ao passo que a cigarra, que prefere cantar à luz do dia a enfiar-se a trabalhar debaixo da terra enquanto o sol vai alto, constitui o estereótipo dos países do Sul, quentes e madraços – e pobres, por tal razão.
(São os PIGS, acróstico amável com que os do Norte nomeiam os Países da periferia europeia; quer dizer, os porcos, como aqueles em que Circe transformava os seus amantes …)
A fábula de La Fontaine é sufragânea deste sentido e desta distinção.
Mas a fábula não tem só esta leitura.
Na verdade, ao ouvir o líder parlamentar Luís Montenegro a acolher-se, num comentário às eleições gregas, ao sentido tradicional e epidérmico da fábula, quando o novo Ministro das Finanças da Grécia, Varoufakis, advertira precisamente que formigas são todos os trabalhadores, quer os dos países do Norte, quer os do Sul da Europa, todos igualmente explorados pelo capital financeiro; e que este capital é que é a cigarra, que todavia enriquece sem trabalhar, mediante a exploração cada vez mais desenfreada do trabalho, lembrei-me de um poema do poeta brasileiro simbolista, Mário Pederneiras, que, durante a juventude, muitas vezes ouvi, dito por João Villaret:
É assim:
“Dona Formiga/ Pertence à classe das senhoras sérias,/ Tem cuidado da casa e do alimento;/ Não fala muito, muito pouco briga,/ Tudo o que faz é com discernimento/ E, enfim, não gosta de passar misérias.
Além de tudo, é de ambições modestas,/ Todo o seu bem, no seu labor converte/ E faz da vida ideias esquisitas…/ Não faz visitas/ E não se diverte… / Nunca se viu, Dona Formiga, em festas.
De tanto se ocupar da vida e do futuro/ E tornar o labor mais sério e duro,/ Chega a ficar grotesca e cómica;/ Pois, mesmo assim, nos amplos e/ massudos/ Livros morais, de exemplos e de estudos,/ Com que, da infância, o estímulo/ se apura,/ Ela figura/ Como um sólido exemplo de econômica.
Trabalha muito no pesado Estio,/ Porque receia/ Que o Inverno venha achá-la/ desprovida./ Por isso, quando chega o Frio/ E cessa a lida,/ Já ela está com a dispensa cheia.
Dona Cigarra - esta, coitada!/ Não vale nada/ Entre as pessoas sérias!/ É a pobre infeliz/ que dá lições de canto/ E que o Verão inunda/ Da sua Alma de estroina e vagabunda… / Entretanto,/ Dona Cigarra, eu sei, passa misérias.
É da boémia a mais perfeita imagem,/ Adora a luz e mora na folhagem…/ E tal a vida é e tal a aceita,/ Sempre de sonhos e ilusões repleta… / Dona Cigarra até parece feita/ Da própria massa de que é feito o Poeta!
Passa o Verão… E o véu do Estio,/ O tempo, sobre o Céu e a Terra corre;/ Torna-se a/ Vida mais penosa e séria… / Dona Cigarra não resiste ao frio/ E, coitadinha, morre/ E morre, quase sempre, na miséria.
Contam, que um dia,/ Morta, do Sol, a límpida alegria,/ Sem luz para cantar,/ Como fizera no Verão inteiro,/ Fora à Formiga, em prantos, implorar/ Um pedaço de pão do seu celeiro…
Como a Formiga, então lhe perguntasse/ Onde se achava/ E o que fizera na estação/ passada,/ Honestamente, disse que cantava… / Pois a malvada,/ Sem dó da mísera mendiga,/ Quase morta de fome e já sem voz,/ Numa ironia desumana e atroz,/ Mandou que ela dançasse
Por isso, é que eu não gosto da Formiga.”

Por mim, também estou como o Mário Pederneiras: não gosto das formigas.
Ainda para mais este ano, em que batalhões de formigas me comeram os dióspiros do quintal e as uvas da vinha …

2 – Também o nosso Alexandre O’Neill, em versos cantados pela Amália, se afasta do cânone tradicional, elegendo a liberdade, o direito de optar, como o bom critério para se ser cigarra ou ser formiga, desfazendo, nos dois últimos versos, o que parecia até então ser o registo convencional:

“Minuciosa formiga/ não tem que se lhe diga:/ leva a sua palhinha/ asinha, asinha.
Assim devera eu ser/ e não esta cigarra/ que se põe a cantar/ e me deita a perder.
Assim devera eu ser:/ de patinhas no chão,/ formiguinha ao trabalho/ ao tostão.
Assim devera eu ser/ se não fora/ não querer”
 

3 – Sobre imprevisões, surpresas, exemplos, e também sobre os efeitos destas eleições sobre a moeda única, fui buscar a “Homenagem à Grécia”, de Jorge de Sena, na Peregrinatio ad Loca Infecta:

“… Às vezes, Palas Ateneia emerge da cabeça de Zeus. O manto dela custa muitos dracmas. Será o dracma a moeda?”

4 – Independentemente do que pensemos sobre o Syrisa, ou sobre Tsripras, aquele vestígio levemente anarquista que trazemos no lado do coração não pode deixar de nos fazer esperar que corra bem a aventura de quem rejeitou a rota imposta pelos ocupantes de há 70 anos e de hoje; recorrendo agora a José Augusto Seabra:

“Argonauta rendido de ilha em ilha, entre vagas de signos, só erravas ao invés do sentido. Nunca à pátria chegado. Arauto já sem rasto da rota e da partida.”

Ou, noutro texto:

“Trepavam a rugosa colina de Hephaistos no encalço da sombra de outra Ideia Só então meditavam a fímbria da distância do Pnix ao Areópago. Sabiam que a cicuta aguardava o descanso dos pés.”

Os gregos não quiseram a cicuta.

 Por seu lado, os dirigentes teutónicos e seus acólitos, cariátides que suportam os novos templos, onde se adoram os deuses contemporâneos, os ídolos de Frankfurt, de Nova Iorque ou da City, mantêm, perante os novos rumos da Argus, a inamovível impassibilidade das pedras – o que nos suscita a pergunta formulada ainda por José Augusto Seabra:

“Cariátides lívidas de equânimes perfis: que cio nunca passa nessas faces febris?”

  1. José Augusto Seabra, "Nova Renascença", Porto, 1985

 

Henrique Rodrigues, Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2015-02-04



















editorial

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