FUNDAÇÃO LUIZA ANDALUZ

Nove décadas a acolher meninas desprotegidas

São 90 anos de história ao serviço de crianças e jovens do sexo feminino cuja vida as privou da família, permanente ou temporariamente.
Atualmente, a Fundação Luiza Andaluz, de Santarém, acolhe 20 jovens, dos oito aos 18 anos, mas já foram meia centena. Hoje, o retrato das crianças acolhidas é muito diferente do que foi ao longo da maioria do quase século de existência da instituição.
“Temos acordo de cooperação para 30 meninas, mas neste momento são apenas 20. Isto deve-se também às novas políticas, como do RSI e outras, mas não significa nada. Quem nos aparece aqui são jovens já com 14, 15 e 16 anos, ou seja, há um problema qualquer em que os pais não as conseguem controlar. Este é o principal problema dos dias de hoje. Já não são tanto as famílias disfuncionais, se bem que isso está sempre na base, mas é mais a dificuldade em educá-las. Não o fizeram quando elas eram pequenas e agora não conseguem impor-lhes regras”, sustenta Catarina Marcelino, diretora-técnica da instituição, argumentando: “Elas vêm para aqui, essencialmente, para aprender regras e para estudar e em alguns casos são elas próprias que se dirigem às comissões a solicitar o internamento nas instituições. Percebem que a sua vida com a família não é a melhor nem aquilo que elas querem”.
A diretora-técnica, educadora de infância de formação, acrescenta que “não é pela carência material” que as raparigas vão para a instituição, “mas pela carência de valores”.
“Algumas vêm também por carências económicas que leva à disfuncionalidade e a outros problemas, mas a maioria das meninas que aqui recebemos não tem nada que ver com problemas económicos”, afirma a técnica, identificando os principais problemas das jovens que ali acolhem: “A vivência que elas trazem a todos os níveis, de quem não tem limites e vive ao sabor das suas vontades… Não têm regras. Não havendo limites há sempre uma insatisfação que não se tapa. Elas chegam aqui com os seus vícios, como de fumar, de ter muitos namorados, não terem respeito pelas regras… Mas é engraçado, porque ao fim de 15 dias, começamos a notar a diferença e algumas delas reconhecem que o facto de terem regras é algo que as estabiliza. Sabem o que vem a seguir e não estão sempre a viver no suspense. São meninas com mais conhecimento da vida, que já sabem reclamar os seus direitos, antigamente não era tanto assim, e são mais revoltadas. Antigamente as meninas aceitavam mais porque viam que precisavam, algumas destas não entendem o porquê”.
E se é certo que a adolescência é reconhecidamente uma fase da vida de grandes atribulações, para Catarina Marcelino isso não pode desculpar tudo.
“A adolescência é um conceito relativamente recente e faz com que justifique tudo, mas, para mim, não justifica tudo… A adolescência vivida numa família disfuncional o problema cresce, mas também temos aqui garotas que são de famílias média-alta”, refere a diretora-técnica, acrescentando: “Este é um trabalho que tem vindo a sofrer grandes mudanças, o mundo pula e avança, as políticas mudam, tudo está em mudança e nós temos vindo, gradualmente, a adaptar-nos à mudança. Quando aqui entrei, há 12 anos, a maioria das utentes eram crianças pequeninas e tínhamos as grandes que já cá estavam desde pequenas. Neste momento, isso mudou, não temos crianças pequenas e, pelos vistos, nem grandes… Quem está por dentro disto, os governantes e demais pessoas ligadas a esta área, percebe que quando dizemos que temos 20 meninas isso equivale a 40, porque as problemáticas que elas trazem são realmente assustadoras. É quase preciso uma pessoa para cada uma delas. Embora continue a acreditar que temos aqui uma luzinha que nos ajuda bastante”.
Das 20 meninas que acolhe neste momento, há uma que é efetivamente crianças, com oito anos, mas as demais são jovens adolescentes. Isto significa que não são tanto as carências económicas que as levam até à instituição, apesar da crise que o País tem atravessado, mas outras problemáticas, como explica Catarina Marcelino: “A crise agudizou as problemáticas, mas ultimamente muitas destas meninas chegam aqui com bons telemóveis, ténis de marca, portanto, não têm falta de coisas… Elas têm tudo, mas não dão valor a nada. O que é efetivamente necessário é trabalhar com elas o ser, porque o ter elas têm. E o ser trabalha-se com muita dificuldade. Uma criança que não tem regras nenhumas, que come o que quer, às horas que quer, chega aqui tem o seu gel de banho, o champô, tem isto e tem aquilo, ao fim de um mês é uma burguesa, que já não gosta disto, nem daquilo e já exige. E depois questiono-me quando vão lá para fora o que é que levam daqui, porque vão voltar para o meio onde viviam. A maioria delas, graças a Deus, saem com os valores desta casa, que são os da solidariedade, respeito pelo outro, saber pensar e, no fundo, que sejam grandes mulheres”.
Assim, o trabalho da instituição vai no sentido de lhes fornecer ferramentas com que elas se possam fazer à vida e vencer.
“Cada uma tem um projeto de vida e nós estudamos as questões que as trouxeram para cá e vemos que alternativas há”, começa por dizer a irmã Rita Lopes, coordenadora da Fundação em Santarém, acrescentando: “O vir para uma instituição é o último reduto e nós temos que fazer o percurso ao contrário, ou seja, quem vamos encontrar que possa acolher esta jovem para que ela possa viver numa família dita normal. Nós, aqui, somos uma família, mas somos uma família muito grande. A comunidade reconhece que temos um ambiente muito familiar, em que as pessoas gostam de vir cá e sentem esse ambiente, e que são felizes. Nós achamos sempre que elas estão aborrecidas, mas quem vem de fora vê a coisa de forma diferente. Nós é que criamos expectativas, mas elas não têm que corresponder às nossas expectativas”.
Há 90 anos sedeada no centro de Santarém, a Fundação Luiza Andaluz estabeleceu laços fortes com a comunidade.
“Não é uma casa que tem as portas abertas, mas penso que é uma casa que faz parte da comunidade, porque já aqui está há muitos anos e as pessoas veem-na como uma casa discreta, mas com ação”, sustenta a religiosa, revelando: “Por isso é que temos muitos benfeitores, os que têm muito dão muito, mas os que têm pouco também dão alguma coisa. Temos uma gama de benfeitores enorme, porque as pessoas reconhecem o nosso trabalho e que somos uma porta aberta na linha do trabalho, da dedicação e que merece ser ajudada”.
E esse conjunto de benfeitores tem sido crucial para o trabalho desenvolvido pela instituição e até mesmo para a sua sobrevivência ao longo destas nove décadas.
“O papel dos benfeitores é fundamental e penso que sem eles não aguentaríamos, ou teríamos que reduzir o número de utentes, o que não se justificava com uma casa deste tamanho. Teríamos que ter menos crianças, logo menos gente e isso não faria sentido. Temos uma excelente relação com a Segurança Social e também com os outros parceiros e trabalhamos muito bem em rede, porque reconhecemos o valor deles e ele reconhecem o nosso trabalho”, argumenta a irmã Rita Lopes, sublinhando: “A saúde financeira recomenda-se. Neste momento, a situação está melhor porque pertencemos ao Plano SERE+ e é isso que nos tem dado estabilidade e alívio. Primeiro foi o Plano DOM e agora o SERE+, mas enquanto não os tivemos vivemos aqui muito aflitas, a contar todos os tostões. Vivíamos em constante alerta, porque os funcionários tinham que receber, pois também têm as suas famílias, depois a água, a luz e o gás… Se os benfeitores são sempre bons, nessa altura eram quem nos salvava”.
A viscondessa Luiza Andaluz (1877-1973) desde muito nova que evidenciou uma inclinação para o trabalho social.
“Já aos 14 anos, aqui no convento com as irmãs Capuchas, ajudava as irmãs e isso foi um bichinho que ficou. De pequenina as prendas que pedia, pelo Natal e pelo aniversário, eram coisas para dar aos pobres”, conta a religiosa, recordando que tudo começou quando Luiza Andaluz foi convidada pelo Cardeal a ajudar as irmãs Capuchas a tratar das meninas vítimas da pneumónica. Corria o ano de 1917.
E se antes já tinha fundado a Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, em 1925, em plena I República, adquiriu em hasta pública o convento, ali instalando a sua Fundação, com o propósito de acolher crianças desvalidas da vida.
“Ela sempre fez trabalho social, mas foi em 1917 que o intensificou, por altura da pneumónica, quando recolheu 60 meninas do distrito órfãs de mãe. Ela precisava de uma casa para acolher as meninas e acabou por comprar esta casa onde estamos agora”, conta a religiosa.
Na casa fronteira ao convento, onde habitava, Luiza Andaluz “criou um colégio para meninas ricas para sustentar as pobres”.
O colégio foi fundado em 1923 e funcionou nesse edifício até 1973, ano em que passou para outra zona da cidade, o complexo Andaluz, onde hoje é a Escola Superior de Educação, entre outros estabelecimentos de ensino superior.
“Por essa altura, a Congregação concluiu que ter um colégio não era a sua vocação nem espírito e vendeu-o. Tínhamos ali 50 irmãs e nunca foi o nosso espírito gerir colégios ou tratar da educação, mas mais os núcleos pastorais. Havia capacidade de respostas, mas não era a resposta que queríamos dar à sociedade, nem era o nosso espírito”, sustenta a irmã Rita Lopes, que acrescenta: “Em abono da verdade, também não é bem o que aqui fazemos, tanto que isto é uma obra única. Mas tem mais a ver porque é uma obra social e Luiza Andaluz sempre quis passar essa mensagem”.
De 1925 até 2002 a instituição funcionou exclusivamente com religiosas, mas a diminuição de irmãs e a prossecução de um ensinamento da madre Luiza Andaluz levou a que fossem integradas na equipa de trabalho algumas leigas.
“É certo que foi pelo menor número de irmãs, mas também um outro olhar sobre o tempo e um pensamento que herdámos da Luiza Andaluz, que é adaptarmo-nos constantemente aos tempos. Começámos a perceber que era bom termos leigos a trabalhar connosco, pois seria mais enriquecedor”, explica a irmã Rita Lopes, que sublinha: “fazemos por seguir o ensinamento que Luiza Andaluz nos deixou que é dar as respostas que são precisas no tempo, por isso estamos cá há 90 anos”.
Neste sentido, Catarina Marcelino, que em determinada altura tentou ingressar na Congregação – mas, como a própria diz, “reprovei no código” –, avança um pensamento da Madre Luiza Andaluz, “que define muito bem o que queremos fazer aqui: «Passar fazendo o bem à imitação do Mestre Divino, tornar felizes os que nos rodeiam, que doce programa de vida». Este é o nosso doce programa de vida, às vezes tem pouco açúcar, mas é fantástico e um desafio muito grande”.
Por isso é que “acolher o melhor, da melhor maneira possível” é a disponibilidade da instituição, que, segundo a diretor-técnica, está pronta para alterar a sua intervenção, desde que essa seja a necessidade dos tempos: “Se um dia isto não for para meninas, estamos prontas a acolher mães jovens e os seus filhos, mulheres vítimas de maus-tratos, ou outras… Estamos abertos àquilo que os tempos e o que Deus nos encaminhar”.
Apesar dos 90 anos, a instituição não deixa de olhar o futuro e, de certa forma, de estar à frente do tempo em determinadas questões. Quando há 12 anos Catarina Marcelino entrou para a instituição foi para apoiar as jovens mais velhas que, dentro dos muros da Fundação, viviam na Casa da Cerca preparando a sua saída.
“A Casa da Cerca é um espaço por onde as meninas mais velhas passam numa lógica de autonomia. Nessa altura ainda não se falava sequer de apartamentos de autonomia, mas nós já tínhamos isso”, argumenta Catarina Marcelino.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2015-03-17



















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