CENTRO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DE TORTOSENDO, COVILHÃ

Não somos melhores, mas trabalhamos diferente

Apesar dos baixos números da taxa de natalidade de Portugal e de o Centro de Assistência Social de Tortosendo, concelho da Covilhã, se situar no interior do País, Artur Fazenda, presidente da instituição, afirma que a instituição não tem do que se queixar, a não ser de falta de vagas.
“É um facto que há menos crianças, mas aqui a instituição não se pode queixar”, começa por afirmar, explicando: “Há duas razões principais para isso, que são o facto de sermos das melhores instituições que existe no concelho e, depois, o trabalho que aqui se faz. Não considero que esta instituição trabalha melhor do que as outras, mas trabalha um bocadinho diferente”.
Para o presidente, que entrou para a instituição no ido ano de 1979, “em termos de tratamento, as crianças são tratadas de igual modo em todo o lado, aqui há é diferenças organizativas, que se refletem no bem-estar das crianças”.
“Fazemos um bom trabalho, temos boas instalações e depois os pais chegam mais depressa da Covilhã aqui, do que do hospital ao Pelourinho, como aqui dizemos, para além de que não falta espaço para estacionar”, argumenta.
Desde o primeiro Acordo de Cooperação que as vagas contratualizadas com a Segurança Social são 126, sendo que, neste momento, a instituição acolhe 136 crianças. “Vamos chegar às 140 rapidamente, mas a capacidade é de 150 crianças e não suporta mais. Não tenho vagas desde 2011, mas uma grande lista de espera”, sustenta.
Apesar de ser uma localidade do interior, a Universidade da Beira Interior e o Hospital atraíram muita gente para a Covilhã e freguesias limítrofes, fixando uma população jovem que vai alimentando as instituições dedicadas à infância.
Porém, nem tudo são rosas… “O desemprego é uma chaga e não há semana em que não tenha aqui um pai ou uma mãe a pedir para baixar a mensalidade porque estão desempregados. Há uma grande taxa de desemprego e o que se vê é um desemprego de longa duração. Tenho aqui casos de mães na casa dos 40 anos, que já lhes acabou o subsídio de desemprego, e que não têm saída nenhuma. Enquanto no Litoral ou nas cidades grandes poderá haver alternativas, aqui não. Um dos males do Interior é não ter resposta para situações destas e, em especial, para o desemprego de longa duração. E não tem porque não há investimento”, argumenta Artur Fazenda, que traça um breve retrato sócio-económico de quem recorre ao Centro de Assistência Social de Tortosendo: “Na envolvente da instituição há muita dificuldade. Cerca de 70% das crianças que aqui estão os pais têm rendimentos médios, mas os outros 30% são pessoas que de um momento para o outro podem estar em grandes dificuldades, em especial por causa do desemprego”.
Obviamente, estas situações de dificuldade das famílias acabam por se refletir na instituição. Apesar disso, Artur Fazenda assevera que nenhuma criança sai da instituição pela carência financeira dos pais, reconhecendo, no entanto, o problema que isso levanta às instituições que trabalham na área da infância, se bem que a de Tortosendo ainda consegue escapar: “Há um abaixamento muito grande na entrada de dinheiro e essa é uma das principais razões para as instituições estarem com dificuldades. Não esta, felizmente, mas principalmente as como esta que trabalham com a infância. Quem trabalha com a infância tem mais dificuldades, porque as da terceira idade têm sempre a reforma dos utentes. Tenho aqui crianças que se os pais caírem os dois no desemprego, como temos casos aqui, deixam de pagar. Tenho aqui crianças que quem paga são os avós, com a pouca reforma que recebem. Sofremos um bocado com isso e com aquelas mensalidades que vão acumulando e que nunca mais vão ser pagas. Em 2014 eram cerca de 14 mil euros de incobrável, no fim do ano, o que é muito para uma instituição destas”.
Mesmo assim, a instituição de Tortosendo ainda não está no fio da navalha, mas Artur Fazenda não se coíbe de deixar algumas críticas: “Financeiramente vamo-nos mantendo equilibrados, com dificuldades, mas também digo que só as ajudas do Estado não são o suficiente… Certo é que também não vejo alternativas para instituições como a nossa. E inseridos nestes meios, em que a indústria é residual, ainda é mais difícil. Depois os empresários, que aqui já nem há, não são como os que fundaram esta casa. Tirando o Nabeiro, que outro empresário neste País cuida do seu pessoal?”.
Relativamente ao papel do Estado, o líder da instituição é bastante crítico: “É certo que o Estado em vez de dar 2% não pode dar 20% de aumento nos Acordos de Cooperação, mas há outras ajudas, através de impostos indiretos que podia dar. Repare, dos pais recebemos 12 meses, a Segurança Social paga 12 meses, mas nós temos que pagar aos funcionários 14 meses! O esforço que uma instituição faz para pagar isto é enorme, principalmente o subsídio de Natal. Já não digo para nos pagarem 14 meses, mas porque não isentarem-nos de pagar um mês à Segurança Social? Isto sim revertia na prática em favor das instituições e com mais utilidade do que mais um euro por mensalidade”.
Para Artur Fazenda, “se as IPSS prestam um serviço ao Estado, que lhe pertence, o faz bem e mais barato, por que não serem melhor apoiadas?”, questiona, acusando: “Não é com mais um euro por criança para dois anos que as coisas se resolvem”.
Apesar do cenário não ser o melhor, o presidente do Centro de Tortosendo mostra-se confiante no futuro.
“Em termo do número de crianças estou otimista, porque não é que os outros não trabalhem bem, mas nós trabalhamos diferente. Tenho que dizer a muita gente que não tenho vaga. Perspetivas futuras quanto à natalidade também estou otimista, mas ninguém pense que é com estes incentivos. Se alguém pensa que por dar 500 euros por nascer um bebé no ano a seguir ou passados dois anos tem outro, está muito enganado. Há 20 anos as dificuldades eram iguais ou piores e havia mais filhos. Não acredito que a razão principal seja a económica”, sustenta Artur Fazenda, deixando uma forte crítica aos pais: “A única coisa que está a levar a esta baixa da natalidade é o egoísmo. Os pais, ou potenciais pais, têm um estilo de vida do qual não querem abdicar e não abdicam, porque os filhos dão muito trabalho. O egoísmo das pessoas é que não as deixa ter filhos”.
Por outro lado, “antigamente aos 27, 28 anos as pessoas tinham a vida praticamente estabelecida, o que não acontece atualmente, mas hoje as pessoas não querem perder a liberdade para irem onde querem sem terem empecilhos, atrás delas, empecilhos entre aspas, pois são os filhos delas!”, argumenta, reforçando: “Também acredito no aspeto económico como fator inibidor, mas continuo com a mesma opinião, a principal razão é o egoísmo. E por isso sou crítico para com as instituições que estão abertas ao fim-de-semana. Há aqui crianças que entram às 7h30 e saem às 18h30 e ainda vão para a música, para a ginástica ou para a natação. E chegam a casa, dão-lhes banho e metem-nas na cama. É pena as nossas instituições facilitarem as coisas. Se tivesse a instituição aberta até à meia-noite, até à meia-noite tinha aqui crianças. E pergunto: estão a trabalhar? Não, não estão a trabalhar. Se fosse para trabalhar era diferente, mas não é esse o caso! Tenho pena daqueles que estão a trabalhar até tarde. Aqui as instituições fecham todas às 18h30 e os pais que trabalham no comércio? A esses dou-lhes toda a razão e aí faria o sacrifício de estar aberto até às 19h30, mas nunca para o que os pais pedem”.
Importante na evolução da instituição foi a construção de raiz do edifício onde está a funcionar desde 2006.
“Com o novo edifício a instituição passou a ser completamente diferente, foi de facto um salto qualitativo. Há uma instituição que morreu e outra que nasceu em 2006. O outro era um edifício com quatro andares e reconverter uma casa de habitação num infantário não é o melhor. Nesse aspeto não há comparação possível”.
Relativamente ao novo edifício, cuja primeira pedra foi lançada em 2002, a sua história é bastante curiosa, pois a obra teve, para a instituição, um custo zero, apesar de ter sido avalada em 984 mil euros.
“Depois de há muitos anos andar a pedir um terreno à Junta de Freguesia, foi com o atual presidente, que teve as filhas na instituição, que conseguimos esse objetivo. Após lhe ter falado num terreno que tinha visto na freguesia e que era perfeito para o que queríamos, ele chamou-me para vir ver o que era a Quinta da Estremilda e me dizer que aquele terreno era para a instituição”, começa por contar, continuando: “A Somague tinha feito um bairro social de 44 casas em Tortosendo, em que parte estava em terrenos da Junta e a contrapartida da empresa foi este terreno e o tosco da obra. Em 2001 é assinado um protocolo entre o Centro, a Câmara Municipal da Covilhã e a Junta de Freguesia de Tortosendo com vista à mudança de instalações da instituição. O que receberíamos era o terreno de mil metros quadrados, o projeto e o edifício em tosco. A coisa foi avançando e, no fim, a Somague fez a casa toda”.
No entanto, a posse do edifício ainda está por definir, mas é algo que não preocupa Artur Fazenda: “O equipamento fomos nós que comprámos, portanto é nosso, o resto ainda não está muito bem definido, mas considero-o como nosso. Não temos escrituras, mas considero-o nosso”.
Sem grandes projetos em mente, principalmente pela falta de capacidade financeira da instituição, Artur Fazenda tem um sonho antigo, mas sustenta não haver condições para o concretizar.
“Há uma coisa que gostava de ter e que Tortosendo não tem, que é um ATL. Já no tempo da antiga casa o Centro Regional da Segurança Social insistiu connosco para arranjarmos um ATL, mas já aí não havia condições”, recorda, explicando a necessidade da valência e as razões para a instituição não avançar: “ Um ATL é algo que faz muita, mas mesmo muita falta. No entanto, não é um projeto a agarrar. É um projeto aliciante, mas outros que avancem, pois não temos condições físicas para mais uma valência. Teríamos que construir, mas a instituição não tem terrenos e também não os pode comprar. Alguém teria que os dar, que foi o que aconteceu com este. No momento e nos tempos mais próximos não vejo possibilidade de qualquer investimento na instituição”.
O Centro de Assistência Social de Tortosendo nasceu da vontade de um grupo de empresário da região, que em 1955 (data dos primeiros estatutos) decidiu criar um Centro Materno-Infantil, algo muito frequente na época, com o principal objetivo de distribuir leite às crianças mais carenciadas, nomeadamente filhos das operárias. Refira-se que a região da Covilhã e freguesias limítrofes era altamente industrializada.
Em 1967 a instituição praticamente deixou de existir, por falta de apoios e por ter perdido o espaço onde funcionava, mas por ação do pároco, que levou para Tortosendo uma comunidade de religiosas, nasceu uma espécie de Casa de S. José, que funcionava como creche, mas numas instalações inadequadas. “Era uma espécie de garagem”, afirma Artur Fazenda, que recorda de seguida a ocupação da casa onde a instituição funcionaria até 2006.
Em pleno Verão Quente de 1975, depois dos donos de uma casa situada no centro da freguesia ter posto uma faixa na varanda a dizer «Futuras instalações do Centro de Assistência Social», os pais das crianças que estavam na instituição ocuparam a casa”, conquistando o edifício para a instituição, que ali se manteve até ter a atual casa nova.
“Funcionámos ali até 2006 com muitas dificuldades… A principal preocupação eram as instalações, porque não tinham condições, apesar de haver muita criança”, sustenta Artur Fazenda, que se orgulha de, apesar das instalações, a instituição nunca ter sentido falta de crianças, “pelo bom trabalho que aqui se desenvolve”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2015-07-02



















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