CENTRO SOCIAL E PAROQUIAL DE SANTA EULÁLIA DE CRESPOS, BRAGA

Sobriedade no apoio à família

“As pessoas quando querem fazem”, afirma o padre Luís Pereira, presidente do Centro Social e Paroquial de Santa Eulália de Crespos, quando se refere ao que é hoje a instituição do concelho de Braga, dizendo ainda: “Isto até é um exemplo para o País. Nós se quisermos mudar, mudamos, por vezes o que falta são líderes. Aqui, as pessoas acreditaram em mim e aderiram. Quando as pessoas veem que estamos empenhados, a trabalhar voluntariamente e que não há outros interesses, a população empenha-se e isto serve para o País. Precisamos de líderes e de pessoas que ajudem a solidificar e a dar corpo às coisas, porque as pessoas nem sempre sabem como fazer”.
O pároco refere-se aos cerca de 400 mil euros angariados na comunidade para a construção do edifício-sede da instituição, mas recorda: “Quando cheguei à paróquia há 10 anos apanhei a batata quente, que era ou fazia um Centro que cumprisse as normas ou o que existia fechava”.
Nascido em 1996, o Centro Social arrancou com uma parceria com a Junta de Freguesia e pela área da infância, mais concretamente um ATL, que funcionava nas instalações da autarquia. Cinco anos volvidos, a instituição abraça o apoio domiciliário aos mais velhos, entrando assim na área sénior. No entanto, passado algum tempo foi decidido separar as respostas sociais e o Centro Social ficou apenas com o SAD, separando-se, inclusive, fisicamente, passando para umas instalações provisórias cedidas pela paróquia.
Após alguns anos de funcionamento nestas instalações, em 2007, a instituição lança o projeto de construção de um equipamento que albergasse não só o SAD, mas também um Centro de Dia e uma creche, “que era o que faltava na altura para responder às necessidades das populações”, refere o padre Luís Pereira sobre o equipamento inaugurado em 2011 e que teve um custo de 830 mil euros.
Apesar de generosa e solidária, as populações de Crespos e das freguesias vizinhas têm passado dificuldades.
“A população vai-se mantendo, mas esta crise levou a uma certa desertificação por via da emigração. Houve muita gente que emigrou”, sustenta o pároco, que demonstra como isso se tem refletido na comunidade: “Temos alguns casos em que os idosos ficaram sem retaguarda familiar. Houve uma emigração até de ex-emigrantes que já tinham regressado e que até tinham criado empresas, e que tiveram que regressar a França. Depois, há também um conjunto de jovens que, por falta de oportunidades ou de melhores expectativas lá fora, também emigraram, especialmente, para a França e a Suíça”.
A juntar a isto, “os idosos são pessoas que tiveram vidas muito difíceis, que trabalharam muito, que fruto da dureza da vida têm determinadas patologias e, por vezes, não têm muita retaguarda familiar e têm baixos rendimentos”, acrescenta o padre Luís Pereira, explicando que a instituição tem a realidade em conta na sua relação com os utentes: “Desde o início que procuramos juntar um serviço de qualidade, o que conseguimos e os utentes reconhecem-no, e, sobretudo na parte dos idosos, prestar o serviço a um custo bastante mais baixo do que o das tabelas da Segurança Social. O que fazemos é que umas valências compensem as outras”.
Enfatizando a importância da “gestão muito rigorosa” praticada no Centro Social, “sobretudo da contratualização de serviços”, o presidente da instituição destaca o “esforço colossal para, até recorrendo a particulares, a instituição não ter um empréstimo bancário para a construção do edifício”.
Os cerca de 830 mil euros investidos no novo equipamento foram pagos em cerca de 60% pelos programas a que a instituição se candidatou e os restantes 40% pelo próprio Centro Social.
“Cerca 400 mil euros foram investimento da comunidade local em donativos. A população considera isto como dela e, no fundo, é”, revela, lembrando que “o problema de muitas instituições são os grandes empréstimos que têm à banca”, situação que a instituição não vive, o que “dá alguma folga financeira para fazer algumas atividades mais na instituição ou, por exemplo, ter um psicólogo a tempo inteiro”.
Contudo, o padre Luís Pereira indica a descapitalização das pessoas como o grande problema, pois “mesmo que queiram dar não podem”, porque “o desejo era fazer um lar, mas de momento o Centro não tem capacidade financeira para o fazer e a comunidade local, por muito que quisesse, não consegue”.
Atualmente, o Centro Social e Paroquial de Santa Eulália de Crespos acolhe 36 crianças em creche, 20 idosos em Centro de Dia e apoia outros tantos no domicílio, com uma equipa de 19 funcionários.
“Um lar complementava”, atira o pároco, explicando: “Há aqui alguns lares, não é um equipamento cuja necessidade seja premente, porque há oferta aqui à volta. Agora as pessoas também procuram um ambiente de lar que não seja o da cidade, que tenha espaço ao ar livre, como o nosso tem, até temos um parque geriátrico”.
A localização do Centro, a pouco mais de 10 quilómetros de Braga, é, juntamente com o serviço prestado, uma grande mais-valia e exemplifica: “Temos aqui dois idosos que são de Arcos de Valdevez e que moram num apartamento em Braga, foram mesmo dos primeiros a vir para o nosso Centro de Dia, e gostam de vir para aqui porque lhes lembra a terra deles”.
O padre Luís Pereira lamenta o estereótipo em torno da ideia de que o que é na cidade é melhor, “porque tem os serviços e tem tudo à mão”, e tem uma opinião muito clara: “Costumo dizer que estamos perto da cidade e longe da cidade. Tenho tudo o que a cidade me pode oferecer aqui à mão, e com uma boa rede de transportes públicos, e tenho tudo o que de bom o campo me pode oferecer. Por isso é que é um privilégio viver aqui, conseguimos juntar o bom dos dois mundos”.
No entanto, as pessoas ainda valorizam muito o estarem em suas casas e muitas vezes a adesão aos serviços oferecidos pela instituição é complicada.
E aqui, o padre Luís Pereira encontra outros responsáveis. “A Segurança Social, até pelo valor da comparticipação que pratica, faz da resposta de Centro de Dia uma coisa menor. Eu não lhe chamo Centro de Dia, o que nós temos é um Lar de Dia. O idoso toma o pequeno-almoço, come a meio da manhã, almoça, lancha e leva a sopa para casa. Além disso, não temos os idosos numa sala sentados a ver televisão, temos um fisioterapeuta, uma animadora, uma psicóloga, fazem aqui a higiene, temos médico, a farmácia e, muito importante, intervenção psicológica, por causa das demências, da depressão e da tristeza. E há atividades inscritas num plano integrado. O que vemos é que o que custa é trazer o idoso a primeira vez, porque depois já não querem sair”, explica o pároco.
E se este é o presente do Centro Social, o futuro, pelo menos na vontade do padre Luís Pereira, passa muito pelo Centro Intergeracional Sobrietas (Sobriedade).
“É um projeto que ainda está a desenvolver-se, aproveitando uma parte da casa paroquial que estava vazia e onde fizemos uma obra com um âmbito mais rústico, no sentido de complementar o Centro de Dia. Uma obra destinada a todas as gerações, às crianças, aos jovens e aos idosos, não apenas para atividades paroquiais mas também com o fim sociocultural. Procurar fazer dali um centro de convívio e um centro cultural de modo até a dinamizar outras atividades culturais com a população”, revela, acrescentando sobre a motivação: “Neste momento a nossa dificuldade é ser o Centro Social que ajuda a promover essas atividades, mas o que gostávamos era poder ter um financiamento de modo a desenvolver o projeto. Neste momento o Sobrietas carece de fundos para avançar, pois é necessário uma equipa para dinamizar a parte sociocultural da comunidade. Temos ideias mas falta-nos capacidade financeira”.
A solução poderá estar nos fundos comunitários, estando os responsáveis pela instituição a pensar fazer uma candidatura ao Portugal 2020, e assim concretizar o projeto, primeiro equipar o espaço com algum equipamento ainda em falta e, depois, implementar atividades, que podem também ser de “acompanhamento psicológico das crianças, acompanhamento do estudo, formação musical e outras”.
Cidália Cunha, diretora-técnica do Centro, aponta o “apoio às famílias” como uma necessidade premente, lembrando mesmo que um SAD noturno seria uma solução muito positiva para quem não tem retaguarda, sublinhando que “é fundamental trabalhar a questão das mentalidades”.
Para a técnica, “o problema é cuidar de quem cuida, porque as pessoas estão exaustas e depois não estão para isto”, o que depois se reflete numa realidade dura: “A maior parte das pessoas daqui estão zangadas com os pais. As famílias pedem ajuda para saber como lidar com os idosos em fim de linha, não indo para um lar. Há muita intervenção que pode ser feita, mais apoio noturno, articular os recursos locais para as pessoas ajudarem as famílias à noite, sem andarem estas senhoras a ganhar aos mil euros. As pessoas podiam-se juntar, faz falta articular melhor os recursos existentes. Deitar um idoso pode ser motivo de zanga entre os filhos e por vezes somos nós que deitamos o idoso às cinco da tarde! Falta um gabinete que articule os recursos das diversas freguesias, mas isso cabe à Segurança Social e às Juntas”.
E como seria Crespos sem o Centro Social? “As pessoas estão habituadas a sobreviver. São pessoas simples e humildes que vivem do seu trabalho, mas o Centro deu outra visibilidade à paróquia e à freguesia, ajudou a fixar as crianças e a que a escola não fechasse e se afunilasse tudo em Braga”, responde o padre Luís Pereira, acrescentando: “Penso que tem ajudado bastante a população de Crespos. É uma espécie de segurança para as pessoas. Para além de aumentar a qualidade de vida, proporciona que as pessoas se fixem, porque as pessoas sabem que têm aqui uma creche para os filhos e um Centro de Dia para os idosos. O Centro Social dá consistência à comunidade, porque as pessoas sabem que um dia se precisarem há alguém que lhes vale”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2016-04-11



















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