CENTRO PAROQUIAL E SOCIAL DE CHAVIÃES, MELGAÇO

O futuro passa por um Centro de Noite

Criação do anterior pároco de Chaviães, hoje edil de Melgaço, o Centro Paroquial e Social local nasceu em 1994, mas esteve quatro anos no papel. Foi apenas em 1998, quando chegou à paróquia o padre Manuel Domingues que a obra começou a ganhar forma e a prestar serviços à população.
A primeira resposta social do Centro foi o Apoio Domiciliário, que, à semelhança da instituição, nasceu integrado no projeto camarário Melgaço Solidário, no âmbito da Luta Contra a Pobreza.
“Foi na sequência desse projeto que a instituição deu continuidade às respostas então criadas. Nessa altura implementou-se o SAD, porque na altura só a Misericórdia de Melgaço o fazia e para o alargar era preciso uma instituição de suporte. Então, o Centro Paroquial e Social de Chaviães foi o escolhido. Esta foi a forma que a instituição encontrou de pôr a resposta a funcionar e depois alargar as respostas”, recorda Alexandra Beites, diretora-técnica da instituição.
Como muitas das IPSS criadas por todo o território nacional, o Centro Paroquial de Chaviães arrancou em «modo desenrasca».
“Inicialmente não tínhamos instalações, tivemos que adaptar, de uma forma muito precária, o rés-do-chão da casa paroquial e ali funcionámos um bocadinho contra as normas. Disse muitas vezes que se aparecesse a ASAE fechava-nos as portas, mas acabou por correr bem e fez-se o possível”, lembra o pároco Manuel Domingues, ao que Alexandra Beites acrescenta: “Foi-se fazendo com os recursos que tínhamos. Havia o projeto de construção de um edifício definitivo que reunisse as condições necessárias, mas, mesmo assim, a situação precária durou muito tempo, mais tempo do que seria desejável, porque o Centro de Dia abriu em 2010 e estivemos nessa situação desde 1998”.
A este propósito o presidente da instituição recorda que, antes das atuais instalações, houve “um projeto para outro local e para a construção de um edifício de raiz”, mas a instituição propôs à Câmara Municipal a adaptação do edifício onde atualmente está sedeada: “Isto era uma escola primária que estava fechada, fizemos um contrato de comodato com a autarquia, fez-se uma ampliação e aqui estamos nestas instalações bastante boas”.
Inserida no concelho mais envelhecido do Alto Minho, Alexandra Beites lembra que “a pirâmide etária está completamente invertida e, por isso, é que houve respostas para a infância que fecharam”, dando como exemplo o edifício agora ocupado pela instituição: “Este espaço é um exemplo disso, pois era uma escola e fechou, dando lugar a um espaço que é ocupado por idosos. Isto é a prova da mudança na necessidade da comunidade”.
Com valências quase exclusivamente dedicadas à terceira idade, o Centro de Chaviães acolhe em Centro de Dia 20 utentes, em Centro de Convívio mais 50 e apoia no domicílio 70 seniores, tendo um quadro de pessoal de 42 trabalhadores. A estas respostas sociais junta-se ainda o Centro de Acolhimento Temporário «Raio de Sol», que funciona de forma autónoma das demais valências e que acolhe nove petizes.
“O «Raio de Sol» foi uma opção um pouco política. A anterior autarquia tinha a ideia de fazer, onde agora funciona o Museu do Cinema, um centro de acolhimento para crianças, mas que por diversas razões não se concretizou. No entanto, a ideia ficou a pairar e quando a Câmara adquiriu a antiga Casa dos Magistrados pensaram que seria o local ideal para a criação do CAT. Como não podia ser a autarquia a fazê-lo contactaram o Centro Paroquial. Foi uma sugestão externa, até porque a nossa vocação é a terceira idade, pelo que o CAT funciona, de certa forma, autonomamente”, esclarece a diretora-técnica da instituição.
Com o enfoque na área dos seniores, a instituição foi paulatinamente abrindo e desenvolvendo as respostas sociais.
“O Centro de Convívio abriu quase em simultâneo com o SAD e igualmente no âmbito do Melgaço Solidário, só que o nosso Centro de Convívio funciona de uma forma atípica, porque, quando a ideia foi lançada, a intenção era levar a animação a quase todas as freguesias. Ou seja, havia um Centro de Convívio quase em cada freguesia da zona da ribeira e que funcionavam nas sedes das juntas de freguesia ou nas casas paroquiais”, recorda Alexandra Beites, que conta como se chegou à situação atual de apenas dois locais acolherem esta valência: “Essa situação não era sustentável e teve que se concentrar os recursos, porque passando a resposta para a instituição não havia capacidade para ter a resposta descentralizada, por falta de recursos técnicos e físicos. Então, concentrou-se a resposta a dois centros apenas, que não funcionam no nosso espaço físico, mas em outros locais, um fica nas instalações da Junta de Freguesia de Prado e o outro era na Junta de Freguesia de Chaviães, mas com a construção do Centro de Dia passou a funcionar aqui na sede da instituição. Funciona em dois locais distintos e com dois grupos de utentes que abarcam as freguesias todas”.
E quando a técnica fala das freguesias todas da zona da ribeira, refere-se às freguesias de Chaviães, Paços, Cristóval, Fiães, Vila, Remoães e Prado, Alvaredo, Penso, Roussas e São Paio.
No território abrangido pela instituição, muito envelhecido e cada vez mais despovoado, o principal problema identificado por Alexandra Beites é a “falta de retaguarda familiar” e “nem tanto a questão económica”.
“As reformas são pequenas, mas, como vivemos num meio rural, há sempre o campo, a horta ou um animalzito e as pessoas vão gerindo os recursos em função disso. O principal problema é mesmo a falta de retaguarda familiar, porque vivemos numa zona de grande emigração e os idosos ficam sozinhos. Os filhos estão espalhados por esse mundo fora e os idosos não têm ninguém que lhes deite a mão”, indica a diretora-técnica, lembrando: “É precisamente nas alturas de férias, especialmente no verão, que aumenta a procura pelo Apoio Domiciliário, porque é quando os filhos vêm à terra e se apercebem que os pais estão a passar necessidades”.
Apesar desta situação, o padre Manuel Domingues sublinha que “nenhum utente está esquecido pelos familiares”, mas são as circunstâncias da vida que produzem estas realidades.
Sem resposta de lar, a instituição não olha essa resposta como a solução para os problemas da comunidade, pelo menos no imediato. Alexandra Beites lembra que na zona da ribeira há três respostas de lar de IPSS e mais uma de privados, considerando a cobertura é “suficiente para as necessidades da população de Melgaço”.
Aliás, a técnica considera mesmo que a replicação de respostas já existentes no território poderá levantar graves problemas às instituições que já atuam no terreno.
“A criação de mais instituições ou a abertura de mais respostas nas que já existem vai gerar conflitos entre as instituições, porque isto, no fundo, é um mercado e acabamos por colidir. Até agora trabalhamos em parceria, há uma boa relação entre as instituições, mas com alargamento a parceria vai-se dissipando e vamos começando a ser um pouco rivais. Estarmos a atuar no mesmo território, quando se tem que cumprir requisitos e estatísticas, dando cumprimento aos protocolos, não é saudável para ninguém. A população não aumenta e, se cresce o número de respostas, as coisas podem complicar-se para todos”, alerta, destacando “a boa articulação entre as instituições, particularmente, com a Santa Casa”.
Sem resposta para os utentes que chegam ao fim de linha, ou seja, que ficam de tal forma dependentes que nem o Centro de Dia nem o SAD são solução, necessitando de uma resposta residencial, a instituição de Chaviães tem perdido bastantes utentes, especialmente, para a Misericórdia, que oferece duas respostas em ERPI.
“Quando os utentes de Centro de Dia começam a perder a autonomia, perdendo a mobilidade, esta resposta já não é suficiente, tal como acontece com os utentes do SAD. Então, coloca-se a questão do lar. Atualmente, não temos os 25 utentes de capacidade em Centro de Dia porque perdemos muitos para o lar, por essas razões, dependência crescente, isolamento e falta de retaguarda. Só no ano passado foram imensos”, argumenta Alexandra Beites, ao que o pároco comenta: “E foram embora porque não tinham outra resposta aqui”.
Perante isto, a instituição tem intenção de criar um Centro de Noite, pois considera ser a resposta mais adequada de momento.
“A instituição tem um projeto para o futuro que passa pela criação de um Centro de Noite. Penso que à procura para uma resposta dessas e apercebemo-nos que as pessoas falam no assunto. Muitos dos utentes que perdemos disseram-nos que queriam ficar, mas nós não temos camas para ficarem de noite”, afirma Alexandra Beites, que revela ainda como um Centro de Noite poderia responder a outra necessidade da comunidade: “Já tivemos situações no passado de, por exemplo, quando os filhos regressam, mas precisam de ir aos países onde estiveram tratar de assuntos burocráticos e necessitam de se ausentar durante algum tempo, a preocupação dessas famílias é quem trata dos pais nesse período. E o Centro de Noite também serviria para dar esse tipo de resposta. Mesmo para os familiares poderem ir de férias e descansar um pouco. E faz muita falta uma resposta a esta necessidade”.
Atenta a essa situação, a Direção do Centro Paroquial está a pensar em construir um Centro de Noite.
“Já está em andamento para que seja feito o projeto, já negociámos com a autarquia a propriedade do edifício e do terreno envolvente. Como isto não é da instituição, e já tivemos algumas complicações no passado para negociar junto das entidades bancárias para o financiamento, porque normalmente elas pedem garantias e nós não temos, porque habitualmente é o património que serve de garantia e nós não temos. Havia a necessidade de sermos os proprietários, até porque todas as obras aqui feitas foram-no pela instituição, então contactou-se a Câmara, que mostrou sensibilidade à nossa necessidade e argumentos. Por outro lado, já houve compromissos no passado entre a autarquia e a paróquia, pelo que consideraram perfeitamente legítimo doarem o edifício e o terreno ao Centro Paroquial. Candidatámo-nos a um financiamento com o propósito de construir um Centro de Noite, num terreno contíguo a este e também alargar o Centro de Dia”, conta a diretora-técnica.
A ideia é que seja uma estrutura com capacidade para 20 utentes, mas os responsáveis da instituição olham mais à frente.
“Um Centro de Noite não é um lar, mas como os projetos devem ser pensados para o futuro, a ideia é que a infraestrutura fique com condições para se Direções futuras decidirem fazer um lar ela esteja preparada para tal”, revela Alexandra Beites, acrescentando: “O objetivo é, precisamente, criar uma resposta que ainda não existe e ir ao encontro de necessidades que não têm resposta atualmente. Lares já há três e não queremos oferecer mais do mesmo, queremos oferecer algo diferente e que vá de encontro às necessidades das pessoas”.
No entanto, o projeto para avançar ainda se debate com as questões do financiamento, pois os investimentos na ampliação e requalificação do edifício onde está sedeada a instituição ainda causa alguns constrangimentos.
Mesmo assim, o presidente considera que a situação financeira da instituição é boa.
“Sempre que reúno com o contabilista ele diz-me que estamos de parabéns pela boa saúde financeira, embora ainda tenhamos uma dívida a saldar ao banco até ao final deste ano. Só a partir daí ficaremos mais tranquilos”, refere o padre Manuel Domingues, ao que Alexandra Beites acrescenta: “Neste momento não temos capacidade para pedir outro empréstimo. A instituição financeiramente está saudável, consegue ter as contas em dia, mas não estamos folgados. A preocupação é a revisão dos protocolos, porque a Segurança Social faz a avaliação ao quadrimestre e se num desses quadrimestres, por exemplo, no SAD houver redução do número de utentes, por fatores que não controlamos, então, a Segurança Social reduz o protocolo, em função da média desse quadrimestre. Não é justo, porque estamos a contar com a verba que recebemos mensalmente e se há uma redução do financiamento a situação fica insustentável. Aliás, o investimento no Centro de Noite também é para garantir alguma sustentabilidade à instituição, pois é uma resposta nova e acaba também por fidelizar os utentes das outras respostas”.

 

Data de introdução: 2016-04-21



















editorial

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