CEERIA - CENTRO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL, REABILITAÇÃO E INTEGRAÇÃO DE ALCOBAÇA

É urgente reinventar algumas respostas para a deficiência

Como muitas das instituições congéneres, o CEERIA dá apoio a pessoas portadoras de deficiência desde que nascem até que morrem, abrangendo todas as fases da vida e tentando responder a todas as necessidades.
“A vida da maioria destas organizações desenvolve-se como a vida de qualquer um de nós e há, claro, etapas decisivas. A primeira, e sempre mais heroica, é a que faz criar a organização, a sua génese e a sua razão de ser, sendo certo que nestes 40 anos muita coisa se foi transformando”, começa por dizer Luís Rodrigues, responsável pelo CEERIA (Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça), acrescentando: “Esta organização surge porque nessa altura nesta região, como em qualquer outra deste País, as crianças com deficiências ficavam em casa porque o sistema educativo não tinha respostas adequadas para a sua educação. Estas organizações, na sua génese, foram uma pedrada no charco, visando dar visibilidade a essas crianças e dizer-lhes que elas têm os mesmos direitos que as outras. Este é o grito do Ipiranga, aquilo que determina a razão de ser destas organizações”.
No caso do CEERIA, a instituição surge para “cumprir este objetivo”, mas, ao longo do tempo, as necessidades da comunidade e desta população específica aumentam.
“Desde logo, essas crianças crescem, deixam de ser crianças e passam a ser adultas e, no imediato, surge a necessidade de diversificar as respostas a desenvolver”, sustenta Luís Rodrigues, que aponta a integração de Portugal na União Europeia como um marco decisivo, “pela possibilidade que essa realidade deu a estas organizações para iniciar o desenvolvimento da Formação Profissional, ou seja, da integração socioprofissional dessas pessoas”.
E aqui, para o dirigente do CEERIA, “cumpre-se um segundo objetivo relevante, que é o demonstrar que muitas destas crianças, a que o sistema não estava a conseguir responder, também tinham competências para desenvolver o seu treino profissional e, assim, poderem ser integradas na sociedade”.
Neste sentido, o CEERIA “cumpre um segundo papel estruturante, que é tirar estas crianças do anonimato, reabilitando-as e devolvendo-as à sociedade de uma forma mais conseguida e estruturada”, defende.
Para além do marco importante que foi a diversificação das respostas, para Luís Rodrigues, é “igualmente estruturante” na vida destas instituições o seu reconhecimento “como parceiro estratégico da sociedade”.
“No caso do CEERIA, sendo um Centro de Recursos para a Inclusão (CRI), trabalhando com todas as comunidades escolares da região e trabalhando nos contextos naturais em que a criança se desenvolve, e sendo um centro de recursos para todas as pessoas com deficiência que estão inscritas nos Centros de Emprego, tanto de Alcobaça como de Leiria, visando dar-lhes um projeto de vida e uma competência de transformação que vise a sua integração socioprofissional, para além de uma série de outras competências que estes centros de recursos têm vindo a acrescentar, faz com que, hoje, sejamos parceiros das estruturas da sociedade e sejamos capazes de lhes dar, como a qualquer um de nós, dignidade e possibilidade de desenvolver as suas potencialidades”, afirma o responsável pelo CEERIA, sublinhando: “A afirmação que foi tendo na comunidade e a visibilidade e a capacidade de trabalhar com a comunidade leva ao reconhecimento de que somos um parceiro absolutamente estratégico e indispensável em todos os níveis no apoio a estas pessoas”.
Com um total de 99 colaboradores no apoio a 768 utentes, o CEERIA, atualmente, apoia: 60 crianças em Intervenção Precoce na Infância; cinco na Valência Socioeducativa (escola de ensino especial); 276 no Centro de Recursos para a Inclusão; 274 adultos no Centro de Reabilitação Profissional; 115 em Centro de Atividades Ocupacionais (CAO); e 38 no Centro de Apoio Residencial (lar residencial).
Em termos de equipamentos, a instituição estende-se por três equipamentos: a sede, na rua do Castelo, onde funcionam os serviços administrativos, um CAO e algumas oficinas, entre outros serviços; a Quinta das Freiras, onde há um CAO e um lar residencial; e ainda no Lameirão, onde a instituição tem dois lares de autonomia.
O crescimento e desenvolvimento do CEERIA está igualmente patente na alteração do nome da instituição que, quando foi fundada por um misto de técnicos, pessoas da comunidade e pais – “As pessoas que mais sentem a necessidade de que isto exista” –, se designava por Centro de Educação Especial e Recuperação Infantil de Alcobaça. Esta situação é elucidativa, também, da evolução da própria sociedade, que hoje já olha a deficiência com outros olhos.
“Sim, hoje, fruto com certeza de alguma transformação de mentalidades na sociedade e muito do trabalho destas organizações no terreno, apesar de ainda existir muito preconceito e dificuldade, muita transformação está, inquestionavelmente, conseguida”, sustenta Luís Rodrigues, frisando: “Mas muito trabalho ainda está por fazer, muito caminho está por percorrer, mas alguma coisa já está feita”.
Neste sentido, segundo o responsável do CEERIA, a instituição “tem muitos projetos”, mas as dificuldades atuais em implementá-los passam pelo edificado, em especial o da rua do Castelo, que está muito degradado e a necessitar de uma intervenção urgente.
“Não sei se vamos conseguir, mas este edificado e o palacete onde estamos está num estado de degradação enorme e se não lhe deitamos a mão não sobreviverá mais um inverno. Neste momento, estamos a concluir os projetos de requalificação destas instalações para vermos o que conseguimos fazer avançar”, afirma, sublinhando: “Não se trata de acrescentar mais ao CEERIA, mas de melhorar o espaço. Requalificar as instalações da rua do Castelo é a prioridade, mas mais do que investir em edificado, sendo que neste caso é mesmo urgente, queremos avançar com alguns projetos”. Com uma zona de intervenção que vai desde Pombal até à Nazaré, a intenção dos responsáveis pela instituição não é replicar a instituição noutros locais.
“Não queremos fazer um CEERIA 2 em frente ao Mosteiro da Batalha, nem um CEERIA 3 junto ao Castelo de Leiria, o que queremos é afirmar a nossa territorialidade, respondendo, de forma suficientemente qualificada, às pessoas deste território e com as forças locais”, explica, reforçando: “Idealmente não queremos construir mais coisa nenhuma e o CEERIA conseguirá afirmar-se nesses territórios se for capaz de com os parceiros locais estabelecer parcerias estratégicas. Um primeiro projeto é continuar a consolidar estas parcerias nos territórios e uma segunda dinâmica que queremos afirmar é a diversificação dos serviços prestados”.
Considerando que “a nível de respostas para pessoas com deficiência se está a chegar a uma nova etapa”, Luís Rodrigues não tem dúvidas que é preciso as instituições reinventarem essas mesmas respostas.
“Em relação ao CAO não tenho dúvidas que estamos na fase em que temos que nos reorganizar e reinventar. Tudo o que está instalado está esgotado e não se prevê, para os próximos anos, construção de raiz de novos equipamentos para poder abarcar o enquadramento desta resposta. E é necessário passarmos a um outro nível”, defende, avançando que “é necessário criar uma resposta mais ligeira”.
Por outro lado, este responsável, que é igualmente vice-presidente da Humanitas – Federação Portuguesa para a Deficiência Mental, diz ser fundamental “desenvolver parcerias para apoiar pessoas de mais idade, com uma maior articulação”, dando continuidade a um dos vetores de desenvolvimento da instituição, que “tem sido esta diversificação de respostas que presta”.
Para Luís Rodrigues, “o CEERIA é um instrumento fabuloso de transformação social” e, pessoalmente, “um privilégio”, considerando a instituição uma espécie de “mata-borrão”.
É que, “a sociedade vai excluindo cada vez mais e quando nos olhamos como sociedade e vemos as pessoas que ficam nas margens, margens que rapidamente se tornam centros, não tenho dúvidas que sem o CEERIA estas margens seriam ainda maiores”.
E muito importante para compreender estas instituições e o que elas fazem é a forma como olham as pessoas portadoras de deficiência.
“Para nós, a deficiência não é um defeito, nem uma nódoa, nem uma doença… A deficiência é uma característica do ser humano. Na diversidade humana todos temos características distintas. O que faz a riqueza do ser humano é, precisamente, essa diversidade. Então, a primeira matriz clara que este caminho percorrido nos tem ajudado a criar é a de que a deficiência é uma característica do ser humano, não é uma doença que se cura, não é uma nódoa que se apaga. E nessa característica, a nossa convivência e a nossa capacidade de nos desenvolvermos com essas pessoas, longe de nos limitar ou atrofiar, acrescenta-nos coisas”, sustenta Luís Rodrigues, acrescentando: “E estas instituições são fundamentalmente mediadoras para a tranquilidade da sociedade. Este é um papel estruturante que o CEERIA procura implementar na comunidade que serve, o de ser facilitador. Daí que todo o trabalho que aqui se desenvolve tem por orientação estratégica recorrer sempre que possível a serviços da comunidade. Na organização apenas se pode fazer aquilo que a comunidade ainda não reúne condições para poder trabalhar com os nossos jovens. E esta é estruturalmente uma das funções do CEERIA, poder dizer à comunidade em que estamos inseridos que convivermos uns com os outros é algo que nos acrescenta como pessoas”.

 

Data de introdução: 2016-07-07



















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