PORTA SOLIDÁRIA JÁ SERVIU MAIS DE 42 MIL REFEIÇÕES DESDE O INÍCIO DA PANDEMIA

A crise está para durar e é preciso que as ofertas voltem a aumentar

Em fevereiro de 2009, a Paróquia da Senhora da Conceição, no Porto, criou o que designa por Porta Solidária, um local onde os mais carenciados podem ir buscar alimentação. Inicialmente pensada para apoiar as pessoas em situação de sem-abrigo, a crise que na altura tomou conta do país abriu o leque das pessoas que recorriam à Porta Solidária.
Desde então, “muitos milhares de refeições” já foram servidos através de uma resposta criada “na sequência da crise económica em Portugal e chegou a apoiar 300 pessoas por dia”, recorda o padre Rubens Marques, pároco da Igreja do Marquês.
Das 300 refeições/dia nos anos da crise, com a recuperação do país, os números desceram para cerca de metade.
“Em 2014, 2015, começou a diminuir o número de pessoas que aqui vinham e, em 2019, a média diária andava nas 160 refeições”, refere.
No entanto, tudo voltou a mudar desde março do corrente ano e o número de beneficiários da Porta Solidária cresceu exponencialmente: “Desde que foi declarada a pandemia, ou seja, desde o dia 12 de março até 30 de junho, já foram servidas 42.518 refeições, sendo que 1.631 foram a crianças com menos de 10 anos”.
O padre Rubens Marques explica que foi necessário adaptar a resposta às novas circunstâncias, pois foi necessário criar um “sistema take-away, em que as pessoas recebem um kit, que dá também para o almoço do dia seguinte, com duas peças de fruta, dois iogurtes, três sandes e ainda um recipiente com comida quente e mais um pão”.
Para além do crescimento exponencial de beneficiários da Porta Solidária, que atualmente serve uma média de 450 refeições/dia, o padre Rubens Marques sublinha a alteração do perfil das pessoas que recorrem à ajuda alimentar: “Quando a Porta Solidária abriu, havia muitas pessoas da classe média a recorrer ao serviço, mas depois da crise ficámos com os sem-abrigo, que foi para eles que abrimos, e muitos reformados, sobretudo homens que só têm dinheiro para pagar o quarto da pensão. Este era o perfil das pessoas que aqui vinham, mas agora mudou radicalmente. A média etária é muito baixa, há muitos jovens, quase 50% são desempregados da pandemia, maioritariamente jovens, e só 20% são sem-abrigo. Depois há também muitas famílias e aumentou muito o número de pessoas idosas à procura de alimentação. O perfil, neste momento, é muito mais diversificado do que era nos anos antes da pandemia”.
Na perspetiva do pároco do Marquês, “a crise está instalada e ainda vai ficar pior do ponto de vista da pobreza, porque não se sabe se algumas empresas irão abrir quando terminar o lay-off, o turismo vai recuperar muito lentamente e a maioria destas pessoas mais jovens trabalhava ligada ao turismo com empregos precários e, talvez, venham a engrossar as filas na procura de comida”.
A situação é complicada e não apenas para os cidadãos nacionais, pois à Porta Solidária têm acorrido também muitos estrangeiros, pois, na zona do Marquês, “há uma grande presença de brasileiros, de outros países da América do Sul e também, sobretudo, de África”, revela o padre Rubens Marques.
Também na Invicta a solidariedade tem sido extraordinária, um gesto essencial para que as instituições possam apoiar os que mais precisam.
“Temos assistido a verdadeiros milagres, pois temos muitas ofertas. Gasta-se muito por dia e as ofertas nunca são de mais, mas, felizmente, têm chegado. Temos tido muitas ofertas de muitos particulares, de famílias, também de empresas e de outras entidades da sociedade, de muitos grupos de outras paróquias e de fora da cidade também, e ainda de grupos de escuteiros”, sustenta o pároco, deixando um apelo: “Agora, precisamos de ter alguma continuidade nas ofertas, porque o boom das ofertas foi nos primeiros dois meses e nota-se que está a diminuir muito. Por isso, precisamos que volte a aumentar e que tenha continuidade para garantirmos estas refeições”.
Fundamental tem sido o trabalho dos voluntários, 27 por dia, divididos em vários turnos (das 10h00 ao meio-dia, das 15h00 às 16h30, das 17h00 às 20h30). Porém, com a chegada do verão e do êxodo habitual para destinos de férias é essencial que outras pessoas se voluntariem para que o serviço não cesse.
“Estamos numa nova campanha de angariação de voluntários, porque em julho e agosto muitas pessoas vão ausentar-se da cidade e é necessário substituí-las”, explica.
No final de junho, a Porta Solidária recebeu a ilustre visita do Presidente da República, uma presença “importante”, segundo o padre Rubens Marques.
“É importante por duas razões: primeira, para pôr nas agendas política e jornalística o problema da fome, que está a acontecer em Portugal, que vai aumentar e é uma situação gravíssima. Muita gente da classe média passou para pobre e muitos pobres passaram para pobreza extrema e isso altera o tecido social e as necessidades. Em relação à Porta Solidária tem interesse, porque demonstra que o senhor Presidente reconhece o nosso trabalho e o de muitos outros noutros locais como válido e, depois, porque as pessoas ficam mais sensíveis para colaborar, quer com ofertas, quer como voluntários”.
Com as ofertas e o trabalho dos voluntários, a Porta Solidária vai continuar a alimentar uma média de 450 pessoas por dia, mas, como referiu o padre Rubens Marques, esse número poderá crescer, porque a crise está para durar.

Pedro Vasco Oliveira (texto)

 

Data de introdução: 2020-08-06



















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