HENRIQUE RODRIGUES

A nova vaga

1 - Passado o terror dos meses de Janeiro e Fevereiro, em que o crescimento das mortes por Covid-19 parecia imparável, a lenta mas progressiva diminuição das mortes, dos internamentos, em enfermaria e em cuidados intensivos, e do número de infecções, dava-nos a esperança de um  irreversível caminho para a normalidade.
Bem lembrado do erro que cometera na ocasião do Natal, ao ter permitido que os portugueses atravessassem o País em todas as direcções, para festivas reuniões familiares nas terras de origem - e assim proporcionando as condições para a difusão generalizada da infecção, com os efeitos desastrosos em Janeiro e Fevereiro -, o Governo, sensatamente, não repetiu na Páscoa a liberalidade que concedera no Natal, o que permitiu que, em Março, Abril e Maio, os números fossem baixando para valores muito mais reduzidos, abrindo uma réstia de esperança aos portugueses.
Creio que nunca como durante esta epidemia ouvi e li tantas variações sobre a estafada imagem da “luz ao fundo do túnel” – túnel onde estávamos, ora no princípio do fim da pandemia, ora no fim do princípio, ora em qualquer ponto intermédio, segundo o grau de expectativa do falante ou do escrevente.
O que sucedeu em Janeiro e Fevereiro constituiu mesmo - não há que ser macio com as palavras -, um erro de trágicas consequências. E podia ter sido evitado; ou, pelo menos, minorado nos seus efeitos mais dramáticos.
Pensar-se-ia que a imprevidência do Natal teria servido de escarmento.
Infelizmente, não serviu.
À aproximação do Verão, a pressão do sector do turismo – talvez o sector de actividade económica mais penalizado pela pandemia no nosso País – levou a melhor sobre a parte mais prudente do Governo, que entendia que era cedo para a abertura de fronteiras.
Não se pode iludir o ar de festa com que as televisões reportavam a entrada maciça de ingleses no Algarve (e também em Lisboa), a partir de uma data muito anterior à da final da Liga dos Campeões, no Porto, apresentando-a como a reconciliação do mundo dos consumidores ricos com a nosso clima, comida e paisagens e com os representantes da hotelaria e turismo a exibir a sua alegria com o regresso das libras e dos euros em abundância superlativa.
Estamos agora a pagar os efeitos desse segundo e repetido erro, com os números outra vez a subir, com o vírus a andar mais depressa do que a vacinação e correndo o risco que a sua difusão descontrolada – é o Governo que fala em descontrolo ... – faça surgir novas variantes, porventura mais hábeis a contornar a protecção da vacina.
Com esse erro renovado, deixámos agora fugir pela porta muito mais do que havia entrado pela janela.

 2 – Fora de dúvida que compete às autoridades públicas decidir de que forma compatibilizam a necessidade de retoma da actividade económica com a protecção da saúde e mesmo da vida dos cidadãos.
Foram eleitos para nos governar – e governar é decidir!
Têm, nessa medida, inteira legitimidade para ponderar quantas vidas podem ser trocadas pela retoma da economia – pois, na sua crueza, é também disso que se trata.
O que já me parece fora do tom e da boa norma é darem-nos explicações para os insucessos das medidas que vão sendo tomadas que não têm em conta um módico de inteligência dos cidadãos, nem o nível de informação que hoje geralmente possuímos sobre o estado da infecção em Portugal e no Mundo – a começar pela Europa a que pertencemos -, e que menospreza o juízo crítico que nos habituámos a lançar sobre a propaganda que acompanha as medidas que as autoridades vão tomando.
Sabe-se, das ciências da comunicação, como o registo propagandístico é constitutivo do discurso político.
Como acima escrevi, a abertura do País ao turismo britânico verificou-se muito antes da final da Liga dos Campeões; e mesmo antes de os outros países do Sul da Europa, que, como nós, vivem da venda do sol, e do mar, e da comida, abrirem as suas fronteiras aos ingleses - numa corrida contra o tempo, que quisemos ganhar, destinada a colher mais precocemente do que os outros as vantagens da ânsia de regresso à normalidade dos turistas endinheirados.
Quando abrimos o País ao turismo inglês, em 17 de Maio, já as autoridades britânicas anunciavam a existência da nova variante, a Delta, ou Indiana, que hoje é maioritária em Portugal; e advertiam para o seu potencial infeccioso e para os riscos que a acompanham.
Está tudo escrito nos documentos oficiais da Grã-Bretanha, acessíveis à distância de um clique.
E a própria OMS alertara para a natureza “preocupante” dessa variante, em 10 de Maio.
Hoje, neste tempo de informação global, “vem tudo nos compêndios”, como escrevia António Gedeão.
Não podem as autoridades públicas portuguesas manifestar a sua surpresa pela antecipação da disseminação da nova variante e pela emergência da nova vaga, quando a informação britânica, e da OMS, sobre ela estava publicada e era, ou devia ser, conhecida ... repetindo a desculpa apresentada após o Natal, de que se não esperava tão precoce invasão da variante inglesa, como a que levou à tragédia do Inverno passado.
Se “errare humanum est, perseverare diabolicum”.

3 – O processo de vacinação tem sido, na verdade, o melhor antídoto contra a mortalidade pelo vírus.
Nesse sentido, teve razão o actual Coordenador da Task Force, ao eleger como prioritário no processo de vacinação o objectivo de salvar vidas; e ao privilegiar para tanto a vacinação dos mais velhos, eles que eram – e são ainda – os mais sensíveis à infecção.
Deve-se, como se sabe, à vacinação maciça dos mais velhos a diminuição do número de mortes ao nível do que se vem verificando.
É por essa razão que o Vice-Almirante Gouveia e Melo nunca deixa de marcar, embora subtilmente, a sua discordância relativamente aos desvios a essa primeira prioridade, assacando às autoridades de saúde a responsabilidade por decisões que antecipam a vacinação de segmentos mais jovens da população, correspondentes a grupos de pressão mais reivindicativos ou com mais influência de “lobbying” e não se esquecendo nunca de reiterar que, por ele, seriam sempre primeiro os mais velhos.
Ele sabia que, não obstante as estatísticas que são enviadas para propaganda na imprensa referirem a quase totalidade das pessoas com mais de 60 anos como vacinadas, tal informação era tendenciosa, pois persistiam cerca de 720.000 pessoas nessas idades com apenas uma dose da vacina – com o risco ainda elevado de infecção, internamento e até morte, como se verificou em algumas situações.
(São os números apresentados pela Ministra da Saúde há 15 dias.)
E sabia também, como nós sabemos, que, em termos práticos, introduzir na vacinação prioritária dúzias de grupos profissionais de gente nova e saudável se traduziria necessariamente no atraso da conclusão da vacinação dos mais velhos.

4 – O Governo queria “o sol na eira e a chuva no nabal”;

Os lavradores sabem que tal não é possível.

Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2021-07-07



















editorial

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