HENRIQUE RODRIGUES

“…Até encostarmos o ouvido à morte./E ver seu nome de si, enfim, despido”

1 - Em 1977 – já lá vão 44 anos … -, tive o prazer de editar uma antologia de poetas nascidos, residentes ou de outra forma ligados à Região do Porto – entre eles, Fernando Echevarría, recentemente falecido.

Foi por essa ocasião que conheci Fernando Echevarría - ao que recordo, em casa de Fernando Guimarães.

A colaboração de Echevarría constava de um conjunto de 5 sonetos, inéditos, sob a epígrafe “Da Arquitectura e do Urbanismo”, depois incluído no livro “Introdução à Filosofia”.

Esse conjunto veio somar-se às contribuições de Aida Santos, Aureliano Lima, Diogo Alcoforado, Fernando Guimarães, José Augusto Seabra, José Fernando Guimarães e Vasco Graça Moura, além da minha própria colaboração na referida antologia.

Tinha criado, com alguns amigos, uma associação cultural, “Exercício de Dizer”, no clima de entusiasmo e desanuviamento que se seguiu ao 25 de Abril de 1974 e da expectativa com que augurávamos o regresso à dinâmica cultural que tinha sido a marca do Porto desde o advento do liberalismo até ao Estado Novo, com a Renascença Portuguesa e Pascoaes.

(Fernando Echevarría e José Augusto Seabra tinham chegado pouco antes do exílio, onde participavam na Oposição ao regime até então vigente no nosso País.)

Foi essa associação que editou a referida antologia, a que se seguiu, em 1981, uma nova antologia, denominada Terra:Porto, também compendiando autores ligados ao Porto e seu espaço de influência, através de textos que tivessem o Porto como motivo expresso ou implícito. 

Até então, conhecia mal a obra de Fernando Echevarría; mas, a partir do deslumbramento com que li esses textos, cedo a escrita desse autor me passou a constituir arrimo, quer do ponto de vista do estilo, quer de uma subtil elaboração retórica, passando a ser para mim um verdadeiro autor de culto.

Aliás, os meus mais persistentes leitores bem o sabem, já que me socorri inúmeras vezes, nestas crónicas, de versos ou poemas de Echevarría para iluminarem, com um registo de leitura mais profunda, a forma mais canhestra de alguns passos da minha escrita. Ou, para utilizar uma formulação de Echevarría, para me ajudarem a marceneirar o meu próprio pensamento sobre os assuntos de quer trato.

Essa apropriação de alguns passos da escrita de Echevarría é particularmente reiterada quando escrevo sobre a morte, ou “Sobre os Mortos” – título do livro com o mais espantoso e sensível olhar sobre os mortos, e sobre a subsistência de sinais, ou manifestações, ou da nossa percepção deles, da presença dos mortos, dos nossos mortos, ou da sua memória, na nossa vida, ou na nossa sobrevida – planos que com frequência se fundem, num registo que cruza a metafísica com o mundo das coisas, da realidade – e livro ao qual roubei os dois versos que constituem o título da crónica.

2 - Neste contexto da morte recente de Fernando Echevarría, vou recolher aos bastidores da escrita e deixar o espaço da crónica para homenagear o Autor, através de textos seus – que é sempre a melhor forma de homenagem um escritor.

Trata-se de deixar aos leitores desta crónica dois poemas de Echevarría:

um, a seu pai, incluído no referido livro “Sobre os Mortos”, e que constitui, de tudo o que li até hoje, a mais aproximada e sensível manifestação literária, traduzindo o olhar sobre o processo de envelhecimento e decaimento das pessoas que amamos;

outro, dedicado “Ao Senhor D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto”, também incluído no livro “Introdução à Filosofia” – em homenagem ao corajoso Bispo que ousou afrontar Salazar, na sequência da farsa da eleição presidencial de 1958, e que por isso foi também exilado, como o Poeta.

(Aliás, Echevarría acompanhou Humberto Delgado, que fora candidato nessa eleição de 1958, na oposição à ditadura, a partir do exílio.)

 

3 - Aqui ficam os dois poemas,

“IN MEMORIAM
a meu pai

 

Cada dia te víamos andando
mais para dentro de ti mesmo. O tempo
ia ficando parado
à medida que o sangue, mais pequeno,
circulava num espaço
que já era seu próprio esquecimento.
A certa altura, a placidez do campo
lavrava o teu rosto. Que terreno
era então ver-te olhando,
como se o olhar e o fio do centeio
fossem a luz do ano
com nostalgia de parecer eterno.
Foi essa a idade em que haver sido amado
pelo pão, pelo vinho e pelo vento
te trouxe a crestação com que o trabalho
deu tez ao sonho, e honradez e peso
a ficares assim, em paz sentado,
marceneirando teu próprio pensamento.
E, aos poucos, por ele madrugando,
seguiste ainda mais por ele adentro,
de forma que, hoje, nem te vemos. O halo
onde foste minguando é só aceno
de quem se foi pensando
até ao outro lado de si mesmo.”

 

“Ao Senhor D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto

Lembre-nos Deus. Relâmpagos nos guarde
até que a suspensão cesse, divina,
no repente de sempre que só arde
sem fim, e instante que se não termina.

E cesse a suspensão, que faz da árvore
lugar que nos refresca e nos ensina
a reter o repente em sombra pelo mármore
e a circulação do sangue e da resina.

E, havendo assim cessado a suspensão,
relâmpagos sejamos novamente,
vibrando além de haver um coração

que seja sobretudo a sua mente.
E seremos em Deus. Estar nele então
é havermos sido sempre em seu presente.”

Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2021-10-13



















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