JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

A falta que nos faz uma boa teoria da inflação

No recente encontro do BCE em Sintra, um conhecido economista disse que nos falta uma teoria da inflação. Sábias palavras! De facto, conhecemos mal os mecanismos que governam o andamento dos preços.

Durante muito tempo pensámos ter na curva de Phillips um modelo robusto. Basicamente tratava-se de escolher entre ter menos desemprego e tolerar um pouco mais de inflação ou controlar a inflação à custa de um pouco mais de desemprego.

Soava bem para os ouvidos acostumados ao economês, ou não houvesse aqui uma vaga reminiscência da curva dos limites da capacidade de produção, não raramente vertida para o aforismo popular sobre a antipática, mas inelutável escolha entre mais canhões e menos manteiga ou vice-versa.

Contudo, já sabíamos que o modelo aqui e ali perdia poder explicativo. Por exemplo, antes da pandemia vivemos com taxas de desemprego historicamente baixas sem que isso tivesse desencadeado qualquer pulsão inflacionista, bem pelo contrário.

Da mesma forma, o modelo não pode explicar o recente surto de crescimento dos preços uma vez que as taxas de desemprego até subiram um pouco em razão da crise sanitária.

O principal índice da inflação americana, o CPI, andava no final de 2020, início de 2021, na casa de 1,2%/1,4%. Em abril saltou para 2,6% e, desde maio, ainda não baixou dos 5%. Taxas de inflação desta ordem de grandeza já não se viam há muitos anos. Os dados recentes da Alemanha mostram a inflação em máximos das últimas décadas.

É muito mais fácil explicar este surto nos preços com base em observações casuísticas, nomeadamente deslocações e distorções causadas pela crise sanitária, do que com base num qualquer modelo teórico.

Um exemplo. Com a necessidade do teletrabalho aumentou brutalmente a procura por computadores, sistemas de comunicações etc. A procura de componentes eletrónicos naturalmente disparou. Obviamente que a capacidade produtiva das empresas não aumenta com um estalar de dedos e algumas indústrias ficaram sem garantia de abastecimento dos chamados chips.

Uma dessas indústrias foi o setor automóvel. A consequência é que não há capacidade de produção de carros novos em quantidade suficiente para satisfazer a procura. À medida que os carros novos foram ficando com prazos de entrega muito grandes as pessoas viraram-se para os carros usados e os preços subiram naturalmente. Não admira que um dos fortes contribuintes para o crescimento dos CPI por esse mundo fora seja o aumento dos preços dos carros usados.

Outro exemplo. Os portos marítimos foram ficando congestionados devido à Covid19. Consequentemente a procura pela capacidade de transporte foi ficando muito maior que a oferta disponível – o preço dos fretes multiplicou-se por 5 ou mesmo 6 vezes. Pior ainda, o tempo para levar um contentor de Shanghai para Chicago duplicou, o que significa que há hoje o dobro da oferta em trânsito e, consequentemente, estando nos barcos não está disponível para quem quer comprar.

Os campos dividem-se sobre o caracter sustentável ou transiente deste crescimento dos preços, ou seja, entre os que entendem que existe um risco real de uma espiral inflacionista à moda dos anos 70 e os que vêm no atual crescimento dos preços um caráter episódico, explicável por fatores relacionados com a gestão da crise pandémica e que desaparecerão à medida que a situação sanitária for sendo controlada.

Acreditar na versão autossustentada ou no caráter episódico do atual crescimento dos preços tem implicações da maior importância para todos.

Para o comum dos cidadãos não é indiferente viver num ambiente de crescimento dos preços controlado ou num clima de espiral inflacionista. Quem, entre os portugueses, ainda se lembra dos anos 70/80 do século passado, recorda o mau andejo que foi conviver com taxas de inflação na casa de 20%/30% ao ano.

Para os investidores pode implicar uma alteração radical das estratégias de alocação de capital.

Para decisores políticos - bancos centrais, governos e parlamentos – pode significar todo um novo ciclo, como de costume com inusitadas oportunidades e ameaças para grupos sociais, partidos políticos, etc.

Quem tem razão neste debate? Os nervosos ou os que não revelam stress?

Neste caso jogo na equipa dos relaxados.

O mundo mudou muito no último meio século – os sindicatos já não têm o poder do passado, a inflação passou a ser uma tema global com a grande unificação das últimas décadas, a tecnologia criou toda uma nova fauna de agentes económicos com imenso poder, a demografia fez o seu caminho, a desigualdade é hoje muito pior do que então e, que diabo, alguma coisa teremos aprendido com a desgraça de antanho.

Os que dormem mal com a possibilidade de uma espiral inflacionista lembram-me aqueles generais que ainda combatem a guerra que já acabou.

Mas não há o risco de, se este modo das coisas durar muito tempo, ligar a máquina da espiral inflacionista?

Bom…, risco zero é coisa que não existe neste nosso vasto mundo. Contudo, acredito que o risco é pequeno.

Confesso que estou mais preocupado com outro tipo de inflação. Aquilo que vamos comprando no dia a dia pode encarecer um pouco, mas não creio que o grande risco esteja aí.

A inflação que me preocupa é a inflação no valor dos ativos e, em particular, no valor dos mercados financeiros (ações, obrigações, etc.) e no preço das casas.

Apetece-me aqui ser um pouco monetarista e dizer como Milton Friedman que humm!..., o dinheiro deve ter alguma coisa que ver com isto.

Claro que há milhentos de fatores que explicam a euforia que vai pelos mercados. No entanto, há um que é particularmente notório – a inundação em dinheiro das economias via compra de ativos pelos bancos centrais.

Mesmo agora, quando o risco de uma crise económica provocada pela emergência sanitária parece ter retrocedido, só a Reserva Federal americana injeta todos os meses 120 biliões de dólares (+/- metade do PIB de Portugal) na economia através da aquisição de títulos. No BCE o número é também assustador.

E isto tem de parar!

A razão porque este tipo de inflação me preocupa mais que o crescimento dos preços daquilo que vamos comprando no dia a dia é esta: os preços dos bens e serviços de consumo poderão corrigir por si mesmos (veremos!), já os preços dos ativos só corrigem de duas maneiras: ou provocam algures no tempo uma crise financeira ou a política monetária intervém antes, provavelmente, à custa de uma recessão mais ou menos profunda. Nenhum dos cenários é bom!

Há um outro motivo para estar menos preocupado com a hipotética inflação dos preços dos bens e serviços. Provavelmente nem sequer seria mau viver um par ou dois de anos num regime de inflação na casa dos 4/5% e sem uma reação da política monetária particularmente robusta.

Já não resta espaço para tratar deste tema com a profundidade devida. Voltaremos a ele numa próxima crónica.

 

Data de introdução: 2021-11-10



















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