HENRIQUE RODRIGUES

O empreendedorismo

1 - Começou durante o cavaquismo, com a adesão à CEE e à conta dos fundos que desde então têm afluído com religiosa regularidade, em substituição das especiarias quinhentistas, do pau brasil e do ouro, igualmente do Brasil, nos séculos XVII e XVIII, e das remessas dos emigrantes, no século XX.
A principal diferença entre essas fórmulas do passado e a dos fundos europeus é que, no que respeita às especiarias e aos recursos recebidos do Brasil, quem deles aproveitou foram a Coroa e a Fazenda, e, quanto às remessas dos emigrantes, foram elas que permitiram a acumulação do capital da aliança entre a banca e a grande indústria que sustentava o regime de Salazar e Caetano, enquanto os fundos europeus tiveram o mesmo efeito que as leis de desamortização de Joaquim António de Aguiar, dito o Mata-Frades.
Por essas leis, como se sabe, o Estado expropriou os bens da Igreja, chamados de mão-morta, que depois vendeu ao desbarato à burguesia liberal afeiçoada ao Regime, atribuindo aos compradores como contrapeso títulos de barões e baronetes.
Era a esse propósito que Garrett referia o dito popular: “Foge, cão, que te fazem barão! Mas, para onde, se me fazem visconde?”
(O próprio Garrett foi feito visconde; às vezes, mais vale estar calado …)
Afonso Costa veio mais tarde repetir a estratégia de confisco dos bens da Igreja, com as Leis de Separação do Estado das Igrejas – distribuindo-os pelos apoiantes do Partido Democrático.

2 - Voltando ao início da crónica, o que começou com o cavaquismo foi a emergência como grupo homogéneo dos chamados empreendedores, especialistas no saque dos fundos europeus e legítimos herdeiros do papel de sustentação do regime vigente – que os sustenta e mima.
(Num artigo, creio que no Expresso, Francisco Louçã disse mais ou menos isto, tanto quanto me lembro: “ouço a palavra empreendedor e fico logo alerta!”)
São, normalmente, jovens; possuem, sempre, ambição; são, igualmente, dinâmicos; em regra, são bem remunerados; com frequência, têm um curso de gestão a mais variada.
São os yuppies – segundo a definição do Dicionário Priberam de Língua Portuguesa, “jovem executivo, geralmente bem remunerado, dinâmico e ambicioso.”
Em Portugal, mais especificamente, são os JEEP – “Jovens Empresários de Elevado Potencial” – inovação corporativa da década de 90 do século XX.
O que é certo é que essa nova qualidade – o ser-se empreendedor - passou a figurar como palavra-passe para acesso às novas grutas de Ali-Babá e para delas retirar os correspondentes proveitos.
Desde 1985 que, da CEE, hoje, União Europeia, tem chegado dinheiro a rodos, que era e é preciso gastar; e a abundância dos fundos europeus depressa encontrou escoamento em projectos da mais variada natureza e dos mais diversos matizes, tantas vezes sem outras virtualidades que não o seu próprio escoamento.
Foi a época das piscinas e dos jipes à conta dos fundos para a agricultura, dos programas de formação sem formadores, sem formandos, ou sem utilidade, do financiamento de iniciativas falidas, dos gabinetes de projectos especializados na linguagem tecnocrática dos corredores de Bruxelas.
Tais empreendedores foram-se acolhendo no regaço dos partidos dominantes, aqueles que têm duradouramente integrado ou chefiado os sucessivos governos, desde a década de 80 do século passado até aos dias de hoje – e que são o PS e o PSD.; ou nos seus círculos de influência.   
E passaram a escrever os seus currículos e a exibir os seus cargos em inglês – exibindo uma vocação cosmopolita, mais compatível com os respectivos merecimentos.
(Embora tenham a mesma raiz, que distância semântica vai do pequeno-burguês novecentista “gerente” – “aquele que gere” - para um mais moderno “gestor” – igualmente “aquele que gere”!
E que diferença entre o “gestor” e o CEO, ou o Chairman – que hoje qualifica qualquer empresário que se preze; e até mesmo gestores públicos!
Pois não é verdade que a imprensa trata sempre pelo acrónimo CEO o novo Director Executivo do SNS – a joia do serviço público)?

3 – Estou bem acompanhado nesta rejeição de alguma dessa nova linguagem e do deslumbramento parolo donde provém.
Na sua intervenção, enquanto Presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, em 2022, em Braga, o Professor Jorge Miranda manifestou igualmente a sua estranheza e discordância com o uso indiscriminado do inglês nos códigos da comunicação de portugueses, com portugueses, em Portugal – quando há palavras da “portuguesa língua” para dizer o mesmo.
E, no programa da CNN do passado fim de semana, “O Princípio da Incerteza”, José Pacheco Pereira, ao falar da ex-Secretária de Estado do Tesouro, também referiu com desdém os currículos em inglês como traço tristemente distintivo desse clã de CEO,s e gestores.
Esta internacionalização da linguagem bebe do mesmo registo com que nos é apresentada a necessidade de os gestores públicos em Portugal terem atribuídas remunerações que escandalizam uma normal consciência cívica ou moral.
Que é para os manter entre nós, para evitar que fujam para as empresas estrangeiras, que os seus elevados méritos justificariam … dizem…
Como se fossem o Messi, ou, em seu tempo, o Cristiano Ronaldo …
(Embora se tenha de pagar para dar aulas na Universidade de Colúmbia, em vez de receber salário, como caberia a quem trabalha …)
Há dois meses, na crónica que aqui mesmo publiquei, referia-me à circunstância perversa de o recrutamento do pessoal político se ter reconduzido de forma crescente ao universo empresarial e à sua cultura – em desfavor da cultura do serviço público ou da academia, como era de tradição. 
E de o universo das empresas e o do pessoal político ser o mesmo, ocupando os seus membros, à vez, lugares num ou noutro lado desse mesmo mundo – e trocando de par, como no vira.
Cito-me a mim mesmo: “Não me interessa aqui se um ministro pode ou não ser dono de uma empresa, ou deter partes do capital dessa empresa; ou se o empresário marido de uma ministra pode ou não contratar com o Estado e lucrar – mesmo legitimamente – com o negócio.
O meu ponto é que quase não há ministro, ou titular de outro cargo, que não seja, ou tenha sido, empresário – ou seja de famílias habituadas à cultura empresarial.
Há quase como que uma osmose – como diria o Herman – entre a tribo dos políticos e a turba dos empresários.
A política vai às empresas, ou ao mundo e à cultura das empresas, recrutar o seu pessoal; ou esse pessoal político, a partir do estrado em que se encontra, cria empresas e proporciona-lhes oportunidade de negócios, para responder a necessidades, efectivas ou inventadas, que lhes compete prover.”
A crise que por estes dias tem assolado o Governo, à conta dos 500.000 euros da ex-Secretária de Estado do Tesouro, deve-se apenas a essa distorção da área de recrutamento dos membros do Governo – que pensam que pode extorquir-se aos cofres do Estado por uma gestão falida o que a iniciativa privada paga por resultados.
Até o Primeiro-Ministro veio hoje (2 de janeiro) dar-nos conta de que pensa o mesmo que o País quanto ao desconforto que a gestora da TAP e da NAV ingenuamente lhe ofereceu.

Henrique Rodrigues (Presidente do Centro Social de Ermesinde)

 

Data de introdução: 2023-01-05



















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