AIREV, VIZELA

Criar a Clínica Alfredo Ribeiro e construir as novas instalações são o foco da instituição

A história da AIREV - Associação para Integração e Reabilitação Social de Crianças e Jovens Deficientes de Vizela não é longa, tem duas décadas, mas é a prova de que a necessidade aguça o engenho e o sonho comanda a vida.
Perante a inexistência de uma resposta em Vizela para os jovens com necessidades especiais, após terminarem a escolaridade obrigatória, pais e educadores uniram-se e fizeram o papel do Estado.
“Esta casa começou em 2002, numa altura em que não havia nenhuma resposta na área da deficiência. Os pais, quando acabava a escolaridade obrigatória, não tinham onde colocar os filhos. A partir dos 16 anos não havia onde colocar os jovens. Então, os pais e os professores de educação especial, com o apoio do Rotary Club de Vizela, criaram uma instituição, na altura, para seis jovens”, começa por contar Sara Costa, diretora-técnica da instituição, que acrescenta: “Entretanto, contactámos a paróquia de Ínfias, que nos cedeu as instalações, onde desenvolvemos o Centro de Atividades Ocupacionais, hoje CACI. Isto ainda em 2002, uma altura em que tínhamos que ir a casa das pessoas apelar e sensibilizar para trazerem os miúdos para as instituições. Nessa altura, a pobreza era muito escondida, os pais preferiam que os filhos estivessem em casa e a deficiência ainda era muito escondida”.
Felizmente, a realidade com o passar do tempo foi-se alterando e cada vez mais jovens foram ao encontro da AIREV, até um total de 20.
“Houve, então, um momento em que percebemos que havia muita procura e que necessitávamos de um espaço maior. Na altura, havia o PARES e o PIDDAC e pensámos que devíamos construir uma casa que respondesse a mais utentes em CAO e ainda criar um espaço residencial, porque os jovens estavam a ficar idosos e os pais já não conseguiam tomar conta deles”, lembra.
Candidatura apresentada ao PARES, que foi recusada, e depois ao PIDDAC, que foi aprovada, tendo a instituição avançado para a construção do atual edifício, “cujo mentor foi o senhor Alfredo Ribeiro, que tinha uma forma de estar muito empreendedora”, sublinha Sara Costa.
Alfredo Ribeiro não esteve na fundação da AIREV, mas muito do que a AIREV é hoje, e pode vir a ser dentro de um futuro breve, foi Alfredo Ribeiro que conquistou e empreendeu.
Assim, em 2013, era inaugurado o novo equipamento, entretanto alvo de algumas obras a fim de aumentar a capacidade para a que tem atualmente.
“Ao desenvolver o trabalho com os jovens, apercebemo-nos que teria que haver mais cedo uma intervenção junto destas pessoas. Havia uma equipa de intervenção precoce em Guimarães, que dava resposta a muitos poucos casos de Vizela, e candidatámo-nos à Segurança Social para criar uma equipa de intervenção precoce em Vizela, que foi aprovada em 2015”, conta Sara Costa, sublinhando: “Criámos, então, a nossa ELI [Equipa Local de Intervenção] que passou a responder a todas as crianças de Vizela e ainda algumas freguesias do concelho de Guimarães. Começámos por responder a 80, mas atualmente já temos muitas mais”.
Desde a sua criação, a AIREV tem crescido sustentadamente, abrindo respostas à população na medida do possível.
“A nossa caminhada continuou, mas assim que abrimos este equipamento a lotação ficou esgotada e, logo aí, pensámos que precisávamos de uma casa nova”, recorda, prosseguindo: “Então, a Câmara Municipal de Vizela ofereceu-nos metade de um terreno aqui ao lado, mas o senhor Alfredo percebeu que precisávamos do terreno todo. Então, ele fez a compra do terreno, fizemos o projeto de arquitetura, mas as coisas são demoradas e não andaram… Mas nós não desistimos!”.
Para do o projeto de crescimento físico da instituição, a AIREV avança para um novo projeto de intervenção social, após a criação da intervenção precoce.
“Na altura começou-se a falar mais da doença mental e havia muita confusão… Havia pessoas que nos chegavam ao lar que não tinham quadro de deficiência, mas de doença mental. Ainda hoje existe esta confusão. Então, o senhor Alfredo lançou o desafio à equipa e à Câmara Municipal para se criar um espaço, e até propôs o Castelo de Vizela, para se criar um espaço de intervenção comunitário na área da saúde mental e um fórum sociocultural, até haver uma parte residencial”, recorda a diretora-técnica.
Então, em 2017, com o apoio da autarquia, a instituição cria o projeto Saúde e Interpretação da Mente (SIM), um projeto comunitário de apoio a nível psicológico e de terapia a pessoas com doença mental.
“O projeto teve um boom enorme, principalmente na altura da pandemia. Foi um período em que passaram por nós cerca de 300 pessoas, atualmente acompanhamos 120. Estamos a fazer um trabalho para melhorar estas vidas”, destaca, referindo que, agora, o SIM está numa fase decisiva da sua existência: “A Câmara avisou de início que era um apoio para o arranque e que teríamos que arranjar a nossa própria sustentabilidade. É o que estamos a fazer, estamos a reestruturar por completo o projeto SIM para o tornar numa clínica, a inaugurar este mês de setembro e que será a Clínica Alfredo Ribeiro. A diferença está em darmos a oportunidade de apoiar mais pessoas e noutras áreas relacionadas com a saúde mental. Temos também um projeto de integração sensorial, que é a Clínica do EDI (Clínica Especializada no Desenvolvimento Infantil), onde já temos 32 crianças, especialmente com espectro de autismo, e que também vai estar sob o chapéu da nova clínica”.
Após o falecimento de Alfredo Ribeiro, em 2017, a presidência da AIREV foi assumida pelo filho Pedro Ribeiro, que olha para as suas funções de forma simples: “O meu papel é seguir o papel que o meu pai aqui desempenhava, dentro das minhas limitações, porque ele estava fisicamente presente todos os dias na instituição. Tento fazer o melhor e seguir a ambição que ele tinha e desejava para a instituição, que é o que todos queremos, ou seja, que a instituição cresça e preste cada vez melhor serviço à comunidade”.
É esse crescimento passa muito pela ampliação das instalações, um projeto há muito pensado e trabalhado, mas que tem esbarrado nas malhas da burocracia e dos financiamentos.
“O projeto de alargamento das instalações já nasceu de uma ideia do meu pai a que temos dado continuidade, mas com os contratempos foi-se protelando um pouco. A necessidade existe, todas as semanas vem gente nova bater-nos à porta, mas infelizmente estamos no limite. Se já havia esta necessidade há uns anos, agora tornou-se ainda mais premente que construamos o novo edifício, uma ideia de 2017”, argumenta Pedro Ribeiro.
O futuro agora parece mais risonho, porque depois de uma candidatura recusada ao PARES, a instituição viu ser-lhe concedido financiamento através do PRR e, por isso, pretendem avançar com a construção o quanto antes.
O projeto inclui um Lar Residencial para 30 utentes e ainda dois CACI, para um total de 60 utentes.
Inicialmente orçamentada, em 2019, em 2,5 milhões de euros, aos preços de hoje só para a construção dos dois CACI e da estrutura base do Lar Residencial a AIREV terá que desembolsar 2,8 milhões de euros…
Obviamente são situações que mexem com as contas e os cálculos da instituição. Ainda assim, a situação financeira da instituição não preocupa os seus responsáveis.
“Trabalhamos imenso a nível de marketing para angariar fundos, para além das comparticipações que recebemos da Segurança Social, o que é fundamental para cumprir a nossa missão e vejamos o futuro de outra forma, no caso com a construção do novo edifício. Trabalhamos muito com as empresas e com a autarquia, que nos reconhecem e nos ajudam disponibilizando verbas, que servem para melhorar as atividades dos utentes, mas também para termos um fundo de maneio que nos permita seguir com o crescimento da instituição. A AIREV tem saúde financeira, mas vivemos sempre destas verbas”, explica Pedro Ribeiro.
Na captação de parceiros, a instituição defende uma política de comunicação ativa, pois só assim, acreditam, se podem mudar mentalidades.
“As empresas são bastante colaborativas e, desde 2010, que temos uma equipa de marketing. Comunicar é muito importante para este tipo de instituições, não só para propósitos de fundraising, mas também de fidelizar as pessoas, para haver um sentido de pertença entre as empresas, a comunidade e a instituição. Para as pessoas nos ajudarem têm que ter um sentimento de pertença com a instituição e já fazemos esse marketing social desde 2010”, conta Sara Costa, exemplificando: “O nosso departamento de marketing trabalha muito a desmistificação de mentalidades em relação à deficiência. A presença dos nossos utentes nos eventos, como o Grande Prémio AIREV e outros, é muito importante porque as pessoas veem-nos e veem-nos ativos e a participar”.
A AIREV criou ainda uma loja online, onde vende produtos, sobretudo em pele. Do trabalho com pequenos pedaços de pele angariados nas fábricas locais nasceu o primeiro ateliê da AIREV. Entretanto, foi criada a Marca d’Amor, que também é vendida na loja online, cuja cara são os utentes, que fazem parte da materialização das peças. Por outro lado, a área de culinária consiste na venda de bolos e pastelaria à comunidade, seja a particulares, seja a confeitarias e afins.
Nesse sentido, a empregabilidade dos utentes é um objetivo que está sempre na mente da AIREV, no entanto, “ainda há um caminho a trilhar”, afirma Sara Costa, deixando um lamento: “Entristece-me que tenha que haver uma lei que, no fundo, obrigue as empresas a ter alguém com deficiência”.
Sempre que os utentes têm capacidade para a empregabilidade, a instituição vai conseguindo coloca-los no mercado de trabalho. Porém, “temos muito poucos jovens com capacidade para a empregabilidade”, sustenta.
Entre os muitos eventos de angariação de fundos que a instituição promove, destaque para Grande Prémio AIREV, que este ano já cumpriu a 12ª edição com um total de 6.500 atletas participantes, entre a vertente de competição e a da caminhada feita pela comunidade a que se juntam os utentes, e ainda o Jantar Solidário, que já se realiza há 20 anos.
E como seria Vizela sem a AIREV?
“Como vizelense, era impossível… desde sempre, ainda antes de integrar a equipa, percebi que a AIREV fazia parte de Vizela. E, depois, é impossível, porque há muitos casos de deficiência e é difícil ver os pais angustiados, porque não têm onde colocar os filhos”, refere Sara Costa, ao que Pedro Ribeiro acrescenta: “Se a AIREV não existisse, havia muita gente com a vida mais difícil, os pais tinham que ficar com os filhos em casa, muitos já sem conseguirem cuidar deles. E em casa as crianças não teriam as possibilidades de desenvolvimento que têm aqui na instituição”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2023-09-08



















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