EUGÉNIO FONSECA

O voluntariado reforça a solidariedade das IPSS

A identidade das IPSS é a solidariedade. Nem todos poderão ter a mesma ideia sobre este valor humano nem a prática da mesma é igual. Até agora, não encontrei um conceito com que me identifique tão bem com este valor humano como o formulado por S. João Paulo II ao escrever: «Esta (solidariedade), portanto, não é um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos[1] . É claro que não é um mero sentimento, mas um compromisso, nem tão pouco uma simples oportunidade de demonstrar uma prática de altruísmo do tipo “toca e foge”, mas a possibilidade de envolvimento a sério com pessoas e causas. A solidariedade é a expressão inequívoca de, sem receios e hesitações, pensar com conhecimento da realidade e realizar ações, com a diversidade necessária, em prol de pessoas em diversas situações de fragilidade, mas todas em ordem ao bem comum. O que considero dar uma maior força à solidariedade é justificar a sua necessidade pelo sentido de responsabilidade que as pessoas devem ter umas pelas outras. O voluntariado tem de se alicerçar nesta forma de entender a solidariedade. Se conseguir ir por este caminho ele torna-se uma prática de cidadania. 

Não se conhece, nem sequer aproximadamente, o número de voluntários existente em Portugal. Para além de não ser obrigatório ao Instituto Nacional de Estatística fazer o estudo regular deste setor, ainda não temos um conceito, minimamente, consensualizado do ser voluntário. Por isso, vão aparecendo estatísticas parcelares. Decerto que a revisão da Lei de Bases de Voluntariado, em curso, vai minorar este constrangimento. O que se sabe é que somos dos países que estamos na cauda da Europa em termos de voluntariado organizado.

Nesta linha de dificuldade, também não sei quantos voluntários regulares estão a colaborar nas nossas IPSS. O que tento fazer a seguir é apenas uma mera abordagem ao número de voluntários existentes nas IPSS. Existem 5.665 IPSS ou equiparadas.

Se contarmos que todos os membros dos órgãos sociais são voluntários, o que não acontece em alguns casos, e que todas as IPSS possuem os três principais órgãos, o que também não se verifica em algumas situações, como é o caso dos Centros Sociais Paroquiais, que estão dispensados de terem Assembleias Gerais, e ainda que cada Mesa da Assembleia Geral seja composta por 3 elementos, a Direção por 7, o Conselho Fiscal 3, a juntar mais 2 suplentes por cada órgão, teremos 205.181voluntários.

Reafirmo que este número é apenas uma simples amostragem e, estou certo de que pecará por defeito. Mesmo assim, já é muito significativo. Todavia, tenho a perceção de que seja, significativamente, menor o número dos que doam o seu tempo para, sem substituir postos de trabalho, (que devem ser criados), poderem reforçar a dedicação do pessoal assalariado que, mesmo sendo muita, por vezes não chega para fazer tudo o eles desejariam. Basta recordar o quão importante foi o contributo do número incontável de voluntários no tempo mais agudo da COVID. Para além disso, podem levar sugestões de atividades muito úteis ao desenvolvimento socio-educativo-cultural-psíquico-espiritual dos destinatários e até dos trabalhadores.

Reconheço que há determinados receios na integração, no quotidiano das instituições, de pessoas que, por vezes, nem se conhecem. Para isso, deveria haver alguém com a responsabilidade de gerir o voluntariado. Cada IPSS deveria ter um/a gestor/a do Voluntariado que se encarregasse de: ver em que áreas seria necessária a colaboração de voluntários; disponibilizar um primeiro questionário ao qual, depois de validado, se seguiria uma entrevista feita por uma psicóloga (se existisse na instituição) ou pela própria gestor/a; o acompanhamento e avaliação dos primeiros tempos de trabalho do voluntário; o dirimir de pequenas possíveis tensões que pudessem vir a existir…

Como é do conhecimento geral, existe a Confederação Portuguesa do Voluntariado- CPV. Ela tem a honra de ter como suas confederadas as duas Organizações que mais IPSS abrangem como são a CNIS e a União das Misericórdias Portuguesas. A CPV está disponível para ajudar a criar ou revitalizar o setor do voluntariado sempre que for solicitada. Como tem acontecido noutras situações conta, para isso, com a cooperação de outras filiadas que já trabalham muito bem nesta área.

Em Portugal, o voluntariado está a difundir-se por várias áreas. A mais expressiva é a da cultura, recreio e desporto. Todavia, está a ser muito apelativa no que respeita à defesa do ambiente, à proteção dos animais, à cooperação internacional e ao desenvolvimento local. Mas não podemos esquecer que a sua génese está na solidariedade.

                                                                                                 Eugénio Fonseca

 

[1] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Sollicitudo Rei Socialis (30 de Dezembro de 1987), Lisboa: Edições Paulistas 1988, 38. 

 

 

Data de introdução: 2025-04-10



















editorial

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Sucede que a falta de motivação das IPSS para colocarem a sua rede de ERPI ao serviço do escoamento das situações de internamento hospitalar inapropriado, nas condições atualmente em vigor, se afigura amplamente justificada (...)

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