EUGÉNIO FONSECA

Cooperação entre as autarquias e as IPSS

Decerto que já tomaram posse todos os eleitos para os órgãos municipais e os das Juntas de Freguesia. É a hora de começar a pôr em prática, progressivamente, as propostas de ação sufragadas no último ato eleitoral. Desconheço, como é óbvio, a grande maioria dessas propostas, mas arrisco a afirmar que há uma que não foi esquecida. Refiro-me à cooperação institucional com as IPSS. Se, porventura, algum programa eleitoral votado, não tem referências a esta relação, ainda vai a tempo de, nos seus planos municipais ou dos das Juntas de Freguesia, não esquecerem de o considerar. Aliás, duvido que haja alguma IPSS que não mantenha parcerias, formais ou informais, com as suas autarquias em qualquer um dos seus níveis.

É certo que a negociação e renovação dos Acordos de Cooperação continua a ser feita com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e/ou com o Ministério da Saúde. É conveniente que estes acordos, no que concerne à contribuição estatal, contemplem condições que favoreçam a prestação de condições salariais mais justas, pois tenho a convicção de que a maioria das instituições desejariam pagar melhores remunerações e não o conseguem, tendo isso contribuído, nos dois últimos anos, para a saída de muitos/as trabalhadores/as para o sector público. Este é um grande desafio que se coloca às IPSS, particularmente, às que estão instaladas em comunidades socioeconómicas críticas, dado que as mensalidades dos seus utentes são muito baixas ou nulas. Nada disto é novidade. Aliás, tenho vindo a referir, há bastante tempo, a necessidade de se rever o quadro de cooperação, de modo que ele contemple a diferenciação positiva. Esta, obrigaria a uma solidariedade efetiva entre IPSS. Quero dizer que as comparticipações do Estado seriam maiores para as que, comprovadamente, têm menores possibilidades por estarem situadas em zonas, socialmente, empobrecidas.

Com a transferência de competências do Estado central para as autarquias, a relação destas com as IPSS passou a ter outras possibilidades, particularmente, no âmbito da ação social e da educação. Mesmo sabendo que essas transferências não muniram de verbas suficientes as autarquias, estas terão condições mais profícuas para garantir a sustentabilidade das IPSS. Porém, esta sustentabilidade deve ser uma preocupação de todas as IPSS. Ela passa pela diferenciação de atividades. Há que considerar a eventualidade da cooperação entre IPSS, no sentido da partilha de bens imóveis e móveis.

Todos sabemos que uma das maiores carências existentes em Portugal, é a impossibilidade de aceder a uma habitação. Ponderar o contributo das IPSS é uma hipótese a não excluir. Sou contra a criação de Empresas Sociais em substituição das IPSS. As instituições têm de ser geridas como empresas, mas a justiça social e a solidariedade são a sua identidade. Por isso, devem manter a designação de IPSS. Todavia, para cooperarem na diminuição do déficit de habitações, admito que as instituições do mesmo concelho se poderiam/deveriam unir, para criarem empresas de habitação que apostassem na construção e gestão de casas a custos moderados. Há verbas comunitárias para esse efeito.

Também as que praticam assistência social devem associar esta atividade a outras que contribuam para a promoção humana, que visem a superação das causas que geram as situações de pobreza e de exclusão social. A proteção social não pode ficar confinada à distribuição dos bens, sob pena de resvalarem para o assistencialismo. Esta poderá ser uma forma de diversificar as suas atividades, às quais acrescento o apoio à criação do autoemprego, sob pena de se extinguirem.

O muito propalado trabalho em rede é indispensável, pois ele torna mais fácil a oferta de respostas estruturantes que uma instituição, de per si, não conseguirá. Penso também na área da saúde, concretamente, na prestação de cuidados primários e na expansão da saúde familiar.

Por fim, que se reforce o voluntariado em cada uma das IPSS. Ele não se pode limitar à prestação do tempo doado pelos membros dos Órgãos Sociais. Desconheço quantos voluntários existem, mas são eles que poderão manter viva a solidariedade como um dos valores cruciais de qualquer IPSS. Instituições sem um amplo grupo de voluntários é como um corpo que respira só com um pulmão. Posso garantir que Confederação Portuguesa do Voluntariado está disponível para apoiar as IPSS que queiram incentivar a criação ou o fortalecimento da sua rede de voluntários. Se não o fizermos, corre-se o risco do tecnicismo de serviços que devem estar assentes numa solidariedade ativa.

A pertença aos Conselhos Locais de Freguesia e às Redes Sociais dos Municípios é outra condição para a sustentabilidade das IPSS. Quem junta constrói, mas se dispersa não sairá dos “cuidados intensivos” da sociedade e muitas perecerão.

Desejo uma relação muito profícua entre as IPSS e o poder local para o bem das comunidades que servem.   

                                                                                    

 

 

Data de introdução: 2025-11-10



















editorial

Autonomia das IPSS

Um provedor para zelar pela autonomia de todas as IPSS só seria admissível se fosse escolhido pelo conjunto de todas as IPSS, de todas as suas origens, de todas as afinidades e de todas as Entidades Representativas. 

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