O mundo continua em suspenso sobre o destino da navegação no estreito de Ormuz. Não deixa de ser curioso que o principal ponto das negociações de paz entre o Irão e os Estados Unidos seja um problema que nem sequer existia antes da guerra.
O que atualmente acontece no estreito de Ormuz deveria chamar a atenção do mundo para a importância da liberdade e segurança de navegação a qual, como agora fica evidente, pode ser facilmente posta em causa por um desígnio político dos estados que controlam pontos chave das rotas marítimas como sejam uns quantos estreitos estratégicos. Agora que o impensável aconteceu talvez faça sentido perguntar o que aconteceria à economia global se alguém se lembrasse de encerrar, por exemplo, o estreito de Malaca.
Os portugueses perceberam muito bem o problema quando no século XVI construíram uma presença política e militar forte no Oriente sem a qual o monopólio da rota do Cabo de pouco valeria. Os portugueses rapidamente compreenderam a importância de controlar os estreitos marítimos do oriente - em 1507 ocuparam Ormuz e em 1511 conquistaram Malaca. Curiosamente nunca ocuparam o Bab-El-Mandeb por onde continuou a passar o tráfego comercial com a costa do Malabar indiano que fazia efetiva concorrência à rota do Cabo.
Mas agora que nos apercebemos de como é fácil colocar em causa o funcionamento da economia global sem necessidade de recorrer a violência catastrófica talvez faça sentido perguntar se não haverá por aí outros “estreitos de Ormuz”, ou seja, outros países com capacidade para perturbar a economia global e a liderança americana recorrendo a meios não bélicos e relativamente fáceis de operacionalizar.
A primeira ideia que vem à cabeça é a fragilidade do mercado de dívida americano.
Os Estados Unidos têm uma posição líquida de investimento internacional negativa com uma dimensão monstruosa, qualquer coisa como 26,2 triliões (milhões de milhões) de dólares, quase 100% do PIB. Para se ter uma ideia do gigantismo da coisa, o país com a segunda posição de investimento internacional negativa é o Brasil com menos de 1 trilião de dólares de passivo líquido.
Naturalmente que aqui, como em tudo o resto, a minha dívida é o teu crédito. Os países com maior posição credora são a Alemanha, a China e o Japão com saldos positivos próximos dos 4 triliões de dólares.
No conjunto é a Europa que detém mais ativos financeiros americanos, dívida pública e outros, qualquer coisa como próximo dos 13 triliões de dólares, dos quais 2,8 triliões são dívida pública de médio/longo prazo. Os outros grandes detentores de dívida pública americana são o Japão e a China.
O que aconteceria se, de repente, os países que vão comprando ativos financeiros dos Estados Unidos, entre os quais a dívida pública americana e, desse modo, vão financiando os déficits do tio Sam no orçamento do estado e na balança de pagamentos, decidissem parar de comprar ou, no limite, se tornassem vendedores?
Em princípio as consequências são fáceis de antecipar – o custo da dívida pública americana subiria em flecha, o dólar perderia valor e os mercados financeiros globais entrariam em grande desarranjo.
Mas será credível uma tal ameaça? Talvez não tanto!
Em primeiro lugar é necessário ter presente que a maior parte da exposição dos países credores dos Estados Unidos não é controlada pelo estado, pertence a atores privados. Não bastaria um qualquer estado decidir usar a arma do crédito sobre o tio Sam, teria também de convencer os privados a acompanhar a posição política do estado. Alguns atores privados como bancos, companhias de seguros ou fundos de pensões poderiam ver os seus balanços negativamente afetados pela desvalorização dos ativos americanos pelo que provavelmente não seria fácil convencê-los a embarcar na aventura.
Por outro lado é necessário ter em conta que provocar uma debacle valor da dívida americana significaria desvalorizar o ativo que o estado credor ou os privados detêm, ou seja, fazer os credores mais pobres. De algum modo aplica-se aqui o velho aforismo de que se deves mil euros ao banco tens um problema, se deves um milhão o banco tem um problema.
Por vezes diz-se que a dívida pública americana detida pela China é uma arma estratégica que o império do meio pode utilizar para ferir o rival geoestratégico. Sempre que se fala da possibilidade de os Estados Unidos venderem armas a Taiwan os meios chineses insinuam a possibilidade de usar a arma do crédito.
Mas a verdade é que a ameaça só é credível até certo ponto. Não só a China não quer ver desvalorizado o seu crédito sobre a América como, por outro lado, as compras de dívida americana pela China são necessárias para manter uma cotação do yuan artificialmente baixa e, desse modo, estimular a máquina exportadora chinesa.
Embora a dimensão da dívida externa americana seja uma fragilidade não só dos Estados Unidos mas também da economia global, a verdade é que, mesmo sem atitudes dramáticas por parte dos credores, como deixar de comprar ou tornar-se vendedor de ativos americanos, as coisas vão mudando e claramente num sentido que não é favorável ao tio Sam.
As taxas de juro da dívida americana a 30 anos estão acima de 5% e em níveis que já não se viam desde 2007.
Por outro lado as dúvidas crescentes sobre a sustentabilidade da dívida, a utilização por tudo e por nada do dólar como arma política, as ameaças à independência do Reserva Federal e a erosão dos atributos democráticos americanos, nomeadamente a erosão dos checks and balances e da independência do poder judicial, têm levado os bancos centrais a preferir o ouro à dívida americana como meio principal de ativos de reserva. Pela primeira vez em décadas o ouro já pesa mais reservas dos bancos centrais do que os títulos do tesouro americanos.
O próprio dólar começa a perder peso no sistema económico internacional. O yuan chinês já vale cerca de 8% das transações comerciais a nível global, curiosamente mais do que o euro que se arrasta há anos nuns míseros 6%. O potencial de progresso do yuan enquanto moeda transacional é enorme, infelizmente o papel do euro continuará limitado por razões que talvez valha a pena explorar num futuro artigo.
Não é nada provável que alguém se lembre de fazer da dívida externa americana um novo estreito de Ormuz, ou seja, uma forma aparentemente fácil e não necessariamente violenta de colocar a América em cheque.
Mas, mesmo sem decisões dramáticas dos credores nesta matéria, é claro que o dólar e poderio financeiro americano já conheceram melhores dias.
Não há inqueritos válidos.