LURDES POMBO, PRESIDENTE DA APPACDM DE CASTELO BRANCO, EX-DIRIGENTE DA CNIS

É preciso saber sair das lideranças das instituições

À porta dos 81 anos Lurdes Pombo ou, para quem a conhece melhor, Milú Pombo, já decidiu abandonar a liderança da APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) de Castelo Branco, a derradeira missão com relevância pública das muitas que teve na vida. Ao cabo de 17 anos de presidência tem a certeza que é o momento de passar o testemunho. Não há nenhuma razão de força maior para essa decisão. Apenas a lucidez de uma mulher que defende que a decisão de sair é tão ou mais importante do que a ambição de liderar. E deve ser a própria pessoa a tomá-la. Por isso, em 2022 deixou de fazer parte da direção da CNIS; em 2023 não se recandidatou à presidência da UDIPSS de Castelo Branco; este ano, em fevereiro, deixou a presidência da Assembleia Geral da AEDAR-Associação dos Ex-Deputados da Assembleia da República; em breve cessará funções na APPACDM.

Lurdes Pombo nasceu em Sabrosa do Douro em 1945, filha de gente visceralmente católica que conseguiu dar uma formação superior aos filhos. Lurdes foi estudar para Coimbra, interna num colégio de freiras, fez o Instituto de Educadores, perto do irmão que, também na cidade dos estudantes, enquanto fazia as cadeiras do curso de Direito, tinha do pai a incumbência de vigiar a irmã.
A vigilância não impediu que tivesse conhecido Mário, um aluno que se formou em medicina, com quem se relacionou até ao casamento e lhe moldou a vida. “Em Coimbra conheci o meu marido, beirão, obstetra, e ele queria vir para a sua terra, Castelo Branco, que estava a acabar de construir o hospital. Ele sentiu que tinha a possibilidade de iniciar uma maternidade. Eu vim por arrasto.”
Com a formação social e pedagógica que trazia de Coimbra consegue colocação no Dispensário Alfredo Mora e vai trabalhar com o Dr. José Lopes Dias, uma personalidade albicastrense de referência. “O doutor José Lopes Dias foi diretor de distrital de saúde, foi quem criou a escola Superior de Saúde de Castelo Branco, um médico que ia muito para além da medicina e que tinha fortes preocupações sociais. Eu vim trabalhar com ele, dirigir o dispensário Dr. Alfredo Mota, uma grande instituição que tinha protocolo com a direção-geral aqui na cidade e tinha creches, jardins, lactário, atendia os pobres e desenvolvia muitas atividades.”
Ali esteve nos anos de 1972 e 1973. Foi pouco tempo porque sabia-se que mais tarde ou mais cedo ia abrir o Instituto da Família e Ação Social com uma vaga para técnica de educação para trabalhar o distrito na área da infância e juventude. Lurdes Pombo nem sequer queria considerar a possibilidade de candidatura. “Eu hoje posso dizer que devo quase tudo ao doutor José Lopes Dias que, nesse momento, me diz o seguinte: você vai mesmo concorrer porque Castelo Branco é demasiado pequeno para si. Concorri, consegui a vaga, acabei por ficar e adaptar-me à região.”
Em 1973 entra para o IFAS que, depois, nos anos 80 dá origem à Segurança Social. E era quem comparticipava as instituições da região. Foi nessa altura que começou a relação próxima com a APPACDM de Castelo Branco. “Eu entro para o IFAS e abro a APPACDM. Fui vice-presidente durante algum tempo, mas era complicado acumular as duas funções. Não devia porque, entretanto, eu fui convidada para fazer parte da Comissão Instaladora do Centro Regional de Segurança Social de Castelo Branco, onde acabei por ser vice-presidente.”
Viviam-se momentos históricos no país com a transformação da ditadura em democracia e a descoberta, às vezes, dolorosa da liberdade. “Quando estávamos em Coimbra o meu marido foi preso pela PIDE. Coisas de estudantes, mas isso marcou-me muito. Tivemos alguns problemas em trabalhar para o Estado. Quando viemos para Castelo Branco já eramos democratas. Não aceitávamos as situações de forma acéfala. Chegámos mesmo a considerar fugir do país, tínhamos um filho para defender. Quando aconteceu o 25 de Abril, o meu filho tinha quatro anos. Foi uma alegria imensa sentir a liberdade. Eu na altura gostava muito do Sá Carneiro, tinha muita coragem e nós identificávamo-nos com a social-democracia que ele defendia. Em finais de 1975 fiz-me militante do PSD. O PREC revoltou-me. Tinha passado por alguns problemas em Coimbra, mas estava a acontecer algo semelhante e isso era inadmissível. Virei-me para o meu marido e disse-lhe: Ouve lá Mário, um de nós tem que fazer vida política. Ao que ele me responde: pronto, como eu já estive preso agora é a tua vez...”
É como recém militante do PSD que Lurdes Pombo entra, em terceiro lugar, nas listas para a autarquia albicastrense nas primeiras eleições, em 1976.  Envolve-se convictamente nas campanhas eleitorais, percorrendo o distrito a defender as cores, as políticas e as ideias do PSD e fazendo discurso político, aproveitando a influência do marido, médico obstetra, e também a influência da Segurança Social onde trabalhava. Nas segundas autárquicas, em 1979, volta a integrar a lista social-democrata. Nas legislativas em 1980 também é convidada para fazer parte do rol de nomes mas, propositadamente em lugar não elegível.
Em 1985 Cavaco Silva vai fazer a rodagem do Citroën à Figueira da Foz, onde decorria o congresso do PSD, é empurrado para a candidatura à liderança e vence. Lurdes Pombo esta lá. “O Cavaco Silva, em quem eu não votei na Figueira da Foz, eu era João Salgueiro, ganhou por 14 votos. Ele vem a Castelo Branco, logo a seguir e eu fui-lhe apresentada, com muitos elogios à mistura. Ora, para evitar mal-entendidos, eu disse logo: o senhor é o presidente do PSD e para mim é quanto basta para estar aqui a trabalhar, mas quero que saiba que não votei em si na Figueira da Foz. O Cavaco reagiu de imediato: dê cá um abraço. É a primeira vez que aparece uma pessoa a dizer que não votou em mim. Eu nem percebia como tinha ganho só por 14 votos... A partir daí passou a considerar-me e sei que quando o meu nome apareceu lá indicado por várias secções do partido ele escolheu-me.”
Lurdes, ou melhor, Milú Pombo, dava nas vistas. Era uma mulher bonita, dinâmica, entusiasta e mobilizadora. Integrou a lista de candidatos a deputados do PSD de Castelo Branco nas legislativas de 1991 e chegou à Assembleia da República. Fez duas legislaturas, de 1991 a 1999, mas com interrupções. Ao todo esteve do Parlamento perto de cinco anos.  Num tempo em que havia apenas cerca de 10 por cento de mulheres na casa da democracia.  “Era muito difícil. Mandaram-me algumas vezes ir coser meias para casa, disseram-me que estava a tirar lugar a um homem, enfim... Mas, de uma maneira geral, respeitavam-me e no meu grupo parlamentar sentia-me útil e integrei trabalhos importantes em comissões, sobretudo relacionadas com a ação social e a solidariedade. Foram tempos fantásticos. Os de hoje, no Parlamento, parecem-me mais desinteressantes.”
A ligação à Assembleia da República prolongou-se através da Associação de ex-deputados da AR, que ajudou a fundar e onde chegou a ser presidente da Assembleia Geral.
Lurdes Pombo nunca abandonou Castelo Branco, nunca esqueceu a missão da solidariedade. Em 2008 assume a liderança da UDIPSS de Castelo Branco e em 2009 cumpre um sonho. Depois de ter estado na criação da APPACDM e de ser vice-presidente durante muito tempo, chega a sua hora de ser presidente da Instituição. Com cerca de 150 funcionários e colaboradores, três Centros de Atividades Ocupacionais, um lar de apoio e diversas valências de reabilitação no distrito, a instituição presta apoio diário a cerca de 600 utentes. A APPACDM tem um Museu da seda e Sericicultura na Quinta da Carapalha e projetos de Agricultura Biológica e Pecuária, Cultura, Música, Educação e Formação Profissional. Lurdes Pombo é o motor da Instituição que faz mover os mecanismos de apoios institucionais e bulir todas as influências. “Eu peço muito, mas como nunca pedi para mim, é fácil pedir para a APPACDM. Nunca nenhuma porta se fechou, na Segurança Social, Educação, Saúde, Instituto da Formação Profissional, a Câmara que até que fez o museu, importante para a cidade para o país, e o centro de Sericicultura para fazer a seda, enfim, ajudamos Castelo Branco a ser considerada cidade criativa da UNESCO”.
Lurdes Pombo não consegue passar despercebida. Porque também não quer. Deu sempre nas vistas por onde passou. E foi natural que sendo presidente da APPACDM e presidente da UDIPSS de Castelo Branco fosse contactada pela CNIS para desempenhar um papel na direção. Foi o padre Lino Maia, que liderava a Confederação, quem fez a abordagem. Aceita fazer dois mandatos na direção da CNIS de 2015 a 2022. E foi ela quem pedia para sair. “O padre Lino confiou muito em mim. E nessa altura fez-se muito e bom trabalho. Ninguém me mandou embora. Eu achei, até por razões pessoais, que não devia continuar e disse-o ao padre Lino.”
Lurdes Pombo perdeu o marido há cerca de quinze anos e o único filho há sete. A mulher de sorriso pronto e riso solto chora sempre que se recorda da família perdida. E de tudo o que construiu na vida era o que tinha de mais importante. “Sim, o mais importante foi a família. A família é a família. A família que eu constituí e que neste momento está num cemitério. O marido e o filho. Fui bem penalizada com isso.”
Depois da CNIS abandonou em 2024 a UDIPSS de Castelo Branco. No início desse ano iniciou um novo mandato na presidência da direção da APPACDM. Mas, a decisão está tomada, vai libertar-se da Instituição e a IPSS vai libertar-se de Lurdes Pombo. E, diz, ambas ficam a ganhar. “As pessoas reconhecem o trabalho que eu tenho feito. De tal maneira que fui a primeira mulher a receber a medalha de ouro da cidade nos anos oitenta e depois em 2021 atribuíram-me outra medalha de ouro da cidade como fundadora da instituição e pelo vasto trabalho na área da solidariedade social na região. Castelo Branco reconheceu o meu trabalho.”

V.M.Pinto (texto e fotos)

 

 

A CNIS devia abrir mais a porta às mulheres

A CNIS vai a eleições no próximo ano. Tem acontecido que, com apenas uma exceção, o presidente eleito é padre.  Acha que o próximo presidente da CNIS irá confirmar a regra?
Na minha opinião, não devia ser. Mas vejo muito bem que exista pelo menos um padre na direção da CNIS, de preferência na vice-presidência. A realidade hoje, é diferente. Digo o mesmo em relação ao distrito de Castelo Branco. Quando eu tomei conta do IFAS havia um grande número de centros paroquiais. Passava-se o mesmo por todo o país. Mesmo quando estive na presidência da UDIPSS tive sempre um padre como vice. Eu achava que deveria haver representatividade. E a solidariedade católica era e continua a ser muito importante, apesar da iniciativa da sociedade civil ter aumentado exponencialmente.

Estará a chegar o momento de uma mulher liderar a CNIS?
Eu nem sequer tenho razões de queixa. Eu fui muito bem aceite em Castelo Branco nas diferentes missões que desempenhei, sobretudo como líder.  As pessoas reconhecem o trabalho que eu tenho feito, e tal maneira que fui a primeira mulher a receber a medalha de ouro da cidade.
Mas, sim, eu lamento a pouca representatividade feminina na Confederação. Por acaso, neste momento a CNIS deve ter o recorde de mulheres nos órgãos sociais. Acho que a CNIS deve fomentar a igualdade, de facto. Não faz sentido que o presidente seja homem, o presidente da Mesa da Assembleia Geral e o presidente do Conselho Fiscal também. Portanto, a CNIS devia abrir mais a porta às mulheres.

Quando sair da APPACDM de Castelo Branco o que vai fazer?
Vou continuar a divertir-me, participar em atividades culturais, viajar. Há só uma coisa que me preocupa que é o isolamento das pessoas de idade. Eu sou idosa, tenho a idade que tenho, mas felizmente tenho recursos económicos para ter quem cuide de mim e quando chegar o momento poder fazer algumas opções. A gente não sabe o dia de amanhã.   

Porque escolheu dedicar-se à solidariedade?
Acho que um episódio da minha infância foi determinante para descobrir a vocação social e solidária. Lembro-me de quando tinha 5 ou 6 anos e ia com a minha mãe ao dia dos mortos em Sabrosa do Douro e à saída era confrontada com colunas de deficientes e pobres que estendiam as mãos à esmola dos que visitavam o cemitério local. A minha mãe fazia distinções no número de moedas que me dava para depositar nas mãos dos pedintes. Os pobres levavam uma os deficientes levavam mais porque precisavam de mais ajuda. É a explicação que eu vou encontrar para o meu chamamento para o trabalho com a deficiência.

Foi tudo mais difícil por ser mulher?
Sim, nesses tempos para as mulheres era complicado.  Sobrevivi com sucesso porque eu sempre que me envolvi, envolvi-me com paixão. Dei-me toda, inteira, eu gostava e tinha a preocupação de fazer o melhor possível em tudo o que assumia. Eu sabia também, e sentia esse peso, que tinha todos os olhos virados para mim à espera dos meus falhanços para me destruírem.
 
 
 

 

Data de introdução: 2026-06-11



















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