1. Face às transformações provocadas pela inteligência artificial, pela automação (aplicação de tecnologia, programas, robótica ou processos para alcançar resultados com o mínimo de intervenção humana) e pela expansão do poder tecnológico, o Papa Leão XIV publicou a Carta Encíclica “Magnifica Humanitas” , divulgada em 25 de maio de 2026 e assinada no dia 15 de maio, dia em que perfaziam 135 anos da publicação da encíclica Rerum Novarum (15 de maio de 1891), marco fundador da Doutrina Social da Igreja.
A escolha da data estabelece uma ligação direta entre os desafios enfrentados pela Igreja durante a Revolução Industrial e as questões provocadas pela revolução digital contemporânea. Assim como a Rerum Novarum procurou responder às transformações sociais e económicas do século XIX, a “Magnifica Humanitas” ilumina os desafios associados às tecnologias emergentes e ao crescente impacto que elas exercem sobre a sociedade.
Na encíclica, Leão XIV dirige o olhar da Igreja para uma pergunta decisiva do nosso tempo: o que acontece com o homem quando a tecnologia passa a influenciar a própria compreensão da realidade, da verdade e da dignidade humana?
Como todas as encíclicas, trata-se de um documento solene do magistério pontifício, por meio do qual o Santo Padre oferece orientações doutrinárias e pastorais diante de questões fundamentais para a vida da Igreja e da sociedade.
2. A “Magnifica Humanitas” é uma Carta Encíclica dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Ao longo do documento, o Papa Leão XIV reflete sobre os impactos espirituais, sociais, económicos e culturais provocados pelas novas tecnologias e pelo crescimento do poder digital, propondo um discernimento cristão diante das transformações do mundo contemporâneo.
Desde as primeiras páginas, o Papa deixa claro que sua preocupação central está ligada à forma como o homem passa a compreender-se a si mesmo numa cultura marcada pela eficiência, pelo desempenho e pelo controle. O documento acompanha os desafios trazidos pela inteligência artificial, pela automação e pelas novas formas de concentração de poder tecnológico, sempre à luz da dignidade da pessoa humana.
Por isso, a encíclica retoma princípios permanentes da Doutrina Social da Igreja, como o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a justiça social e a dignidade inviolável da pessoa humana.
Logo na abertura da encíclica, o Papa escreve: “A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos” (1).
Essa imagem conduz toda a encíclica e reaparece em diferentes momentos do texto como chave de leitura para os dilemas espirituais e culturais da era digital.
3. O título “Magnifica Humanitas” pode ser traduzido como “Humanidade Magnífica”. A expressão revela o assombro diante da dignidade humana criada por Deus e recorda a responsabilidade de a preservar num período de profundas transformações culturais e tecnológicas.
Ao escolher esse nome, o Papa Leão XIV reafirma que existe no homem uma grandeza que nenhuma máquina é capaz de reproduzir. A pessoa humana possui um valor que ultrapassa produtividade, desempenho ou capacidade técnica.
No parágrafo 15, o Papa afirma: “Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor” (15).
A escolha do título também revela o eixo cristológico da encíclica. Em Cristo, o homem encontra plenamente sua dignidade e sua vocação. Por isso, nenhuma tecnologia poderá ocupar o lugar da graça, da comunhão e da relação humana.
4. Ao longo da encíclica, o Papa Leão XIV insiste que a humanidade atravessa uma mudança histórica profunda. Nunca o homem teve tanto poder sobre si mesmo, nem tanta capacidade de transformar a realidade ao seu redor.
No parágrafo 4, ele escreve: “Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma” (4).
Diante desse cenário, o documento propõe um discernimento moral capaz de acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas. O Papa alerta que o progresso técnico precisa ser avaliado também pelos efeitos que provoca sobre a dignidade humana, sobre o trabalho, sobre a verdade e sobre a convivência social.
A encíclica nasce da perceção de que a tecnologia passou a influenciar dimensões centrais da experiência humana. A inteligência artificial já interfere na comunicação, na educação, no trabalho, na política, na economia e até mesmo nos modos como as pessoas percebem a si próprias e se relacionam umas com as outras.
Por isso, o Papa afirma que a Igreja deve oferecer critérios morais e espirituais capazes de orientar a sociedade face às novas possibilidades abertas pela tecnologia.
Mais adiante, o documento afirma: “Não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo. […] ser construtores de comunhão, não arquitetos de Babel” (16).
A partir dessa imagem, a encíclica convida famílias, educadores, governantes, comunidades cristãs e todos os homens de boa vontade a participarem ativamente na construção de uma cultura verdadeiramente humana.
Lino Maia
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