HENRIQUE RODRIGUES

Os exames do Secundário

1 - O processo dos exames do fim do ensino secundário tem ocupado, a par dos incêndios, as preocupações do início do Verão.
Trata-se de um tema que bem merece a atenção que lhe é dedicada: as notas dos exames do ensino secundário têm um papel importante nas possibilidades de acesso dos alunos ao ensino superior e de escolha das Universidades e dos cursos que constituem a sua preferência.
O acesso ao ensino universitário, designadamente nas Universidades públicas, constitui, em muitos cursos, um bem escasso – o que explica o clima de concorrência entre os alunos para obterem as melhores classificações nas provas de exame.
(Volta não volta, vem ao debate a questão de saber se esse processo de seriação dos alunos pelas notas dos exames como critério de acesso ao ensino superior é justo, nomeadamente por concorrerem para a média de acesso as notas de frequência do secundário; e por, neste, nem todos estarem em posição de igualdade, uma vez que algumas famílias têm posses que lhes permitem inscrever os seus filhos em certos colégios privados, dos mais cotados – mas outras não dispõem desse recurso.
Mas esse é outro debate, que não vem ao caso no presente contexto senão para explicar a pressão a que as famílias e os alunos estão sujeitos no período dos exames finais, situação que bem mereceria que o Governo não viesse contribuir para aumentar o nervosismo próprio do processo.)
Descontando essas circunstâncias exteriores, que todavia inquinam a questão, creio que o objectivo essencial dos exames a nível nacional é o de assegurar que, no que diz especificamente respeito a esse processo, ele sirva para avaliar os conhecimentos e as competências dos alunos e que a respectiva seriação corresponde a tais competências.
Pelo que tenho lido e ouvido, essa finalidade não está assegurada.

2 – Uma das inovações do processo de exames deste ano consiste em digitalizar e, após a digitalização, trinchar cada uma das provas dos alunos, por forma a enviar cada fatia – correspondendo a cada pergunta, ou item – a um professor corrector diferente.
Isto é, cada prova de exame será corrigida por três, ou quatro, ou cinco, ou mais professores, consoante o número de questões que a prova integra.
E cada professor corrector só recebe a resposta já fatiada que vai corrigir, desconhecendo, e não podendo conhecer, as restantes fatias da prova de exame elaborada pelo aluno.
Para o caso, como é frequente, de toda a resposta de um aluno a uma determinada questão exigir mais do que o espaço que está na página ou folha de exame, a resposta continua noutra, sempre sob um código de identificação específico.
Ora, o que tem acontecido, segundo relatos que têm vindo a lume, é essa parte da resposta não aparecer, no que é enviado para o professor corrector – e, portanto, poder nem ser corrigida, embora, pelo conteúdo, pudesse merecer o máximo da pontuação.
Todos, ou quase todos, nos lembramos dos exames que fizemos ao longo da vida – e de como frequentemente passávamos adiante perguntas, com o nervosismo, sem darmos conta, na corrida contra o tempo que cada exame constitui.
Poder-se-á dizer, como diz o Ministério da Educação, que, não obstante a estrutura da plataforma de digitalização e a complexidade do retalho das folhas das provas de exame, tais enganos seriam logo a seguir corrigidos.
No entanto, se não o forem, a folha de continuidade, nesse caso, vai para outro corrector – que não é a quem cabe a correcção dessa pergunta, de que não conhece a primeira parte da resposta.
Nada disto devia acontecer; e a culpa é de quem engendrou o sistema de avaliação, a plataforma e as suas funcionalidades.
E o que não pode é nenhum supervisor vir dizer que, quando o resto da resposta não acompanhe, até ao fim da data prevista, a questão enviada digitalmente para o corrector, este avalie apenas a parte da resposta que recebeu, sem cuidar do que se segue - que, todavia, integra e completa a resposta total – porque, nesse contexto, há que garantir que nenhum aluno seja prejudicado com a ablação de parte das respostas.
Como qualquer percebe, serão, e muito, prejudicados.
E muitos, como tem sido denunciado pelos professores correctores.

3 – Diz-me a minha Mulher, que foi professora toda a vida, que o processo de retalhar as respostas das provas de exame e enviar cada retalho ao respectivo corrector não tem apenas os inconvenientes procedimentais e os incidentes acima enunciados.
E que o preenchimento de cruzinhas como modalidades de resposta de escolha múltipla, em certas áreas, apenas serve para o sucesso estatístico, ao invés da elaboração de frases completas, com sujeito e predicado e com sentido – que permitiriam verificar competências.
O modelo anterior, em que cada professor corrector avaliava e classificava a prova integral de cada aluno, permitiria, em algumas disciplinas dessas áreas, uma avaliação mais completa do que a simples soma de respostas parcelares.
Permitiria uma compreensão mais ampla do perfil global do aluno, com umas respostas iluminando a resposta a outras – e assim permitindo uma avaliação mais completa e aprofundada das provas.
O Ministério da Educação veio elucidar-nos de que a opção pelo procedimento de digitalização das provas de exame já havia sido deliberado pelo Governo anterior, tendo-se o Governo de turno limitado a pôr em execução o novo sistema.
Não ponho isso em dúvida.
Do que se trata é de enviar para Lisboa todas as provas, para a respectiva digitalização e para a colocação na plataforma correspondente, centralizando um procedimento que até agora se desdobrava pelos distritos.
Ora, se é para centralizar, o PS e o PSD não poderiam estar mais de acordo.

 

Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2026-07-15



















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