CENTRO DE APOIO FAMILIAR PINTO DE CARVALHO, EM OLIVEIRA DE AZEMÉIS

'Quando a gente não diz o que faz, os outros dizem o que não fazemos'

Quem chega ao Centro de Apoio Familiar Pinto de Carvalho (CAFPC) não pode deixar de ficar surpreendido pelo dinamismo que ali se vive e pelo ar moderno que se respira. Mais ainda: o respeito pelos fundadores e pelos beneméritos que ao longo de 150 anos deram corpo e apoiaram esta obra é marca bem visível em quantos a dirigem e nela trabalham, mas também, decerto, em muitíssimos que por ela passaram, e continuam a passar, durante século e meio.

Porque celebrar vida tão longa não acontece com frequência, ao nível das instituições sociais, o CAFPC recebeu a visita do Presidente da República, Cavaco Silva, durante a presidência aberta dedicada à inclusão. O facto está assinalado em lápida bem visível e a instituição, pela voz do professor António Magalhães, sentiu-se honrada com esse gesto do mais alto magistrado da Nação, até porque a comunicação social divulgou a acção social do Centro Pinto de Carvalho na área da família, abrangendo várias frentes, qual delas a mais importante.
“Nós não andamos pela praça pública a dizer o que fazemos, mas a visita do Presidente da República serviu para se falar de nós e do nosso trabalho”, afiança o primeiro responsável da instituição. E acrescentou: “Quando a gente não diz o que faz, os outros dizem o que não fazemos.”

O SOLIDARIEDADE confirmou que o CAFPC tem procurado, desde a fundação, responder às carências das populações de cada época, tal como acontece actualmente. Quiseram os fundadores cuidar da infância desvalida, mas também acolher os viandantes e tratá-los convenientemente para que pudessem seguir viagem, como sublinharam António Magalhães e António Oliveira, presidente e tesoureiro da instituição, respectivamente. E desde então, essa tem sido regra de ouro de quantos têm passado por esta mais que secular casa de bem-fazer, numa adaptação contínua às carências sociais e humanas da comunidade, diferentes de década para década.

“Os problemas de há 150 anos não são os mesmos de hoje; há outras formas de pobreza, às quais temos de estar atentos”, adiantou António Magalhães, que não deixou de frisar que isso implica grandes esforços e muitas “dores de cabeça”, para se conseguir o equilíbrio financeiro, já que as comparticipações estatais são notoriamente insuficientes. “Para o Lar Juvenil, pelos nossos estudos, a comparticipação do Estado anda à roda dos 50 por cento; e aí começam as nossas dificuldades”, salientou o nosso interlocutor, que mostrou, durante a entrevista, ser homem de esperança.

“A grande dificuldade desta casa, o que escapa aos observadores menos atentos, está no facto de nela se trabalhar 24 horas por dia e 365 dias por ano, tendo em conta que o pessoal que ali está de noite ganha mais 20 por cento; e depois descansa dois dias a seguir, se trabalha ao domingo, o que aumenta os custos”, lembra António Magalhães.

Questionado sobre como resolver esta situação, disse: “se o Estado nos desse metade do que gasta com as suas instituições, nós até servíamos marisco todos os dias.” E porque a Segurança Social não dá o suficiente, esta instituição, como outras, tem de recorrer à comunidade e à imaginação para conseguir o que falta para o dia-a-dia. As pessoas dão o que podem, em géneros alimentícios e roupas. Quanto a roupas, as ofertas são bastante significativas e a rouparia, em laboração na casa, consegue adaptar as peças às necessidades dos internados.

Há crianças com traumas difíceis de ultrapassar

O Lar juvenil, com 60 internados, sector que vem desde a fundação, é motivo de grandes preocupações e de muitas dificuldades, porque as crianças acolhidas “trazem os piores hábitos”. Vêm de famílias desestabilizadas, algumas foram violadas e outras são portadoras de traumas difíceis de ultrapassar. Aliás – acrescentou – “as crianças que acolhemos são-nos enviadas pelo Tribunal, que só as tira às famílias em última alternativa”.
Os acolhidos no Lar podem regressar às suas famílias, apenas quando houver garantias de segurança. Por isso, muitas se mantém na instituição até depois dos 18 anos, idade limite para o internamento, segundo a lei em vigor. “Quando um jovem faz 18 anos, não lhe dizemos ‘põe-te na rua’, antes procuramos encaminhá-lo para o mercado de trabalho, ajudando-o na construção de um projecto de vida”, disse.

Paralelamente ao Lar, há o Centro de Acolhimento Temporário destinado a situações de emergência. “Há tempos, o Tribunal mandou-nos para aqui, durante a noite, 12 crianças, porque o pai, a mãe e a avó tinham sido presos”, referiu. Em casos como este, muitas crianças continuam no Centro Pinto de Carvalho, enquanto algumas podem ser encaminhadas para outras instituições, para famílias de acolhimento ou para adopção.
Os apoios às famílias, em especial às mais carenciadas, são uma constante neste Centro de Oliveira de Azeméis. Daí a criação de um Banco de Recursos para fornecer alimentos, roupas, objectos diversos e móveis aos mais pobres. Ainda está em pleno funcionamento um Gabinete de Acompanhamento Parental. Com estes serviços, sublinhou o presidente da direcção da instituição, os técnicos de serviço social e psicólogos do CAFPC “prestam ajudas às famílias dos jovens internados e a outras da comunidade, que se encontram numa situação de crise”.

Por diversas vezes, os dirigentes desta IPSS garantiram o seu empenhamento na procura de soluções para dificuldades sentidas pelas pessoas. Doentes, toxicodependentes, idosos, famílias desestruturadas e vencidos da vida são contactados e auxiliados com alimentos, mas também com apoio psicológico e até com dinheiro. “Às vezes – adiantou António Magalhães – o grande problema é a incapacidade de algumas famílias se governarem.” E logo enfatizou o facto de se trata de um serviço gratuito, para o qual a Segurança Social contribui com 80 por cento dos vencimentos. Nós temos de conseguir os restantes 20 por cento e de fornecer carros e gasolina, a que se juntam outras despesas, como facilmente se compreenderá.
A este propósito, considera que é premente a falta de pelo menos mais duas carrinhas, para se poder chegar a outras famílias e pessoas carentes de tudo, muitas delas a viverem ignoradas pela comunidade e numa solidão amarga.
Noutras alas do edifício, funcionam a Creche, o Jardim-de-Infância e o ATL, valências estas que, apesar de ali acolherem utentes oriundos de famílias de fracos recursos, que pagam, quando pagam, o mínimo, ajudam a manter os lares, com algumas “borrazinhas”, garantiu António Magalhães.




UIPSS E CNIS SÃO FUNDAMENTAIS

A união faz a força


Porque a união faz a força, os dirigentes do Centro de Apoio Familiar Pinto de Carvalho consideram que a UIPSS e a CNIS são fundamentais. Por isso, a instituição esteve desde a primeira hora integrada nestas estrutura de âmbito regional e nacional.
António Oliveira e António Magalhães, tesoureiro e presidente do Centro, respectivamenteAntónio Magalhães e António Oliveira consideram que as relações com os Governos “não são nada fáceis” e que a CNIS é a legítima representante das IPSS junto dos departamentos estatais e nas negociações ao mais alto nível. Sem ela, seria muito difícil mostrar as grandes “dores de cabeça” das instituições sociais, que vivem o dia-a-dia no contacto directo e permanente com as pessoas e comunidades, sobretudo com as mais esquecidas.
António Magalhães reconhece que a solidariedade ainda é uma realidade muito grande nas nossas sociedades. Ela está bem presente na oferta de géneros e de outros bens de consumo e serviços. E também valoriza o voluntariado como muito útil e essencial. Porém, sublinha que, para lidar com crianças altamente problemáticas, carregadas de traumas provenientes de más e forçadas experiências sexuais e outras, não serve “uma alma caridosa qualquer”. Os técnicos, altamente especializados, devem ser uma marca indelével nas IPSS vocacionadas para situações complicadas.

O presidente do CAFPC adiantou ao SOLIDARIEDADE que as técnicas da instituição estão em contínua ligação com as estruturas concelhias do serviço social, porque se aposta no trabalho em rede, fundamental para se pouparem energias, e sempre alimentando um espírito de entreajuda.
Sobre o ATL, em que o Estado mexeu sem considerar os investimentos das IPSS, António Magalhães questiona-se sobre os resultados das reformas que a ministra da Educação está a implementar. “Eu não sei se a senhora ministra já pensou quem é que apoia as crianças das 7 às 9 horas e das 17.30 às 19 horas, isto é, antes e depois das aulas”, disse.

Considerando que hoje é vulgar as pessoas trabalharem por turnos, perguntou: “Quantos pais poderão ir às escolas buscar os filhos às 17.30 horas? E de manhã, quem está na escola para receber as crianças às 7 horas?”
Nessa linha, garantiu que, “se calhar, ficava mais barato ao Estado fazer parcerias com as instituições, em vez de estar a recrutar professores e a arranjar salas”. E a rematar, deixou as suas inquietações: “Como é que a senhora ministra pode dizer que não vai prejudicar as instituições com as medidas que decretou?”




UM POUCO DE HISTÓRIA

150 anos a ajudar os mais pobres

O Centro de Apoio Familiar Pinto de Carvalho foi fundado em 16 de Setembro de 1856. Completou, recentemente, 150 anos de existência, cultivando, desde a primeira hora, a atenção aos mais desfavorecidos.
Nasceu por iniciativa de António Pinto de Carvalho e de sua esposa, Rosa Pinto de Carvalho, para recolher jovens sem lar. Começou com o nome de Asilo da Infância Desvalida, em casa dos fundadores, no lugar de Pinheiral, em Ul. Depois, porque as instalações eram demasiado acanhadas, o primitivo asilo foi transferido para o solar dos Barões da Cadoro, próximo da estação dos CTT. Em 1912 o asilo inaugurou a primeira casa própria, na rua Manuel Alegria, junto ao Hospital.

Nos primeiros estatutos – manuscritos no pergaminho que é a mais valiosa peça do arquivo do Centro Pinto de Carvalho – aprovados pelo rei D. Pedro V, pode ler-se que o Asilo se destinava a recolher os desvalidos, de um e outro sexo, de 8 a 10 anos, preferindo os órfãos de pai e mãe, depois destes os órfãos de pai, e por último os filhos dos indigentes.

Apesar de os primeiros objectivos dizerem que o asilo se destinava a crianças da freguesia de Ul, podendo alargar-se a outras freguesias do concelho, a verdade é que sempre recebeu quem mais precisava, das origens mais variadas, tendo em conta a grande pobreza que grassava na região e no País.
Com o rodar dos anos, o primeiro edifício, construído de raiz para responder às necessidades da época, mostrou-se ultrapassado. Foi sentida, então, a urgência de se construir uma casa nova, para a instituição assumir mais e maiores responsabilidades.

As actuais instalações, que ocupam uma área coberta de cinco mil metros quadrados, situam-se na rua Padre Manuel José de Oliveira, próximo da Escola Secundária Ferreira de Castro. Trata-se de uma edificação moderna, arejada e muito funcional. A luz natural invade todos os espaços e o equipamento responde às maiores exigências pedagógicas. Demorou 12 anos a construir, por falta de verbas e de apoios prometidos, e a inauguração aconteceu em 16 de Fevereiro de 2004. Salas e salões, dormitórios e sanitários, auditório e gabinetes, refeitórios e cozinha bem equipada para fornecer 250 refeições ao meio-dia, zonas de lazer e recreios formam um conjunto harmonioso que vale a pena ser visitado e apreciado. À entrada, um painel convida quem passa a entrar para conhecer a instituição mais antiga do concelho e quiçá do distrito.
Contudo, é premente a construção de um Polidesportivo, para permitir a ocupação mais sadia dos jovens internados e dos utentes das várias valências. Haja quem se disponha a ajudar, porque esta instituição merece o carinho de toda a gente.

A actual designação desta IPSS – Centro de Apoio Familiar Pinto de Carvalho –, com respostas mais amplas e mais diversificadas, surgiu entretanto, por imperativo legal e para enquadramento de novas valências. E com ela veio a premência de erguer o edifício que é hoje sinal de muita vida e que suporta um Lar com 48 jovens do sexo feminino e 12 do sexo masculino, entre os quatro e os 18 anos; um Centro de Acolhimento Temporário com capacidade para 30 internados; um Centro de Apoio Familiar com as valências de Creche (35 utentes), Jardim-de-Infância (75) e um ATL (52).

Paralelamente a estas vertentes sociais, esta instituição, permanentemente atenta aos problemas das gentes deste tempo, mantém em funcionamento o CAFAP – Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental, o GAF – Gabinete de Apoio Familiar, o Banco de Recursos e o Espaço Essência, destinado ao desenvolvimento psicossocial dos utentes, bem como de crianças e jovens da comunidade, através de actividades lúdicas e pedagógicas.

* Texto e fotos

 

Data de introdução: 2006-10-14



















editorial

O TRIÂNGULO DA COOPERAÇÃO

A consciência social, aliada ao dever ético da solidariedade, representa uma instância suprema de cidadania, um compromisso inalienável para com os mais vulneráveis e em situação de marginalidade, exclusão e pobreza.

Não há inqueritos válidos.

opinião

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