PRIMEIRO ENCONTRO DAS IPSS DO DISTRITO DE AVEIRO

O Estado não pode tratar de modo igual o que é diferente

Decorreu no Centro Social Cultural e Recreativo de Avelãs de Cima, Anadia, no passado sábado, 28 de Outubro, o I Encontro das IPSS do Distrito de Aveiro, com a participação de cerca de uma centena de dirigentes. A iniciativa partiu da UDIPSS (União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social), tendo por tema “Os Novos Desafios da Solidariedade”. Os trabalhos desenvolveram-se durante todo o dia, com a abordagem de questões relacionadas com os novos desafios impostos por uma sociedade em rápida transformação.
Trabalhos em parceria e em rede, formação contínua, qualidade dos serviços e projectos, legislação e o exercício da solidariedade, num País rico em voluntariado, foram assuntos que suscitaram diálogo enriquecedor.
Na sessão de abertura, as intervenções de fundo estiveram a cargo do presidente da CNIS, Padre Lino Maia, do director do Centro Distrital de Segurança Social (CDSS), Celestino de Almeida, e do Governador Civil, Filipe Neto Brandão.
O Consultor Jurídico da CNIS, Henrique Rodrigues, com Margarida Menezes e Rui Monteiro, do CDSS de Aveiro, abordaram questões técnicas fundamentais, para o presente e para o futuro das IPSS.
José Carlos Batalha e José Leirião (através de comunicação enviada por escrito), da UDIPSS de Lisboa, trataram dos temas voluntariado e novos desafios da solidariedade.

Lino Maia, Filipe Neto Brandão e Henrique RodriguesNa sua intervenção, o presidente da CNIS sublinhou a importância do trabalho em rede e em parceria, referindo que “já lá vai o tempo de cada um actuar na sua quintinha”. Disse que é preciso dar as mãos para todos enfrentarmos os desafios e ultrapassarmos as dificuldades, tendo acrescentado que “as IPSS desenvolvem trabalhos de pessoas, com pessoas e para pessoas”.
Lino Maia salientou que as nossas instituições respondem a 70 por cento dos problemas sociais do País, com os seus 250 mil trabalhadores, o que corresponde a 4,2 por cento do PIB. “Graças às IPSS, não são tão graves os problemas provocados pela crise que o País está a viver”, referiu.
Depois de garantir que “o nosso lucro é o sorriso e a esperança das pessoas que apoiamos”, o presidente da CNIS lembrou que o sector social está a ser cobiçado por gente ligada a interesses lucrativos. Alertou então para o perigo de passarmos a ser olhados como fazendo parte desses interesses, quando as nossas motivações são outras, porque visam as pessoas com múltiplas carências.

A propósito das comparticipações estatais, o presidente da CNIS frisou que “o Estado não pode tratar de modo igual o que é diferente. Não faz sentido que alguns utentes, com bons ordenados, recebam da Segurança Social, através das IPSS, “comparticipações iguais às dos que têm pensões muito baixas”, disse.
Entretanto, enfatizou a urgência das instituições apostarem na sua própria sustentabilidade, tendo em conta que “é preciso mais formação para uma melhor gestão”.
Defendeu o bom relacionamento entre as pessoas, dirigentes, trabalhadores e utentes, uma melhor qualidade dos serviços e a inovação, mesmo sabendo que o que fazemos “é muito bom, porque é feito com amor”. E porque “sabemos que nunca esgotamos a capacidade de amar, estaremos assim preparados para enfrentar a concorrência que aí vem”, disse.

Por sua vez, o director do CDSS de Aveiro afirmou que a solidariedade é um compromisso de relação com os outros, “tanto na freguesia como no País e até no mundo”. Recordou que a actual textura social é diferente da de há 30 anos, como muito diferente será no futuro, o que exige um esforço de permanente actualização.
Celestino de Almeida afiançou, falando da sua própria experiência de 32 anos ao serviço de uma IPSS, como dirigente, que “é muito bom trabalhar para os outros e receber como paga a satisfação ou um gozo que não sabemos explicar”. Mas logo assegurou que, se há pessoas com capacidades económicas diversas, também têm de ser apoiadas de forma diversa pelo Estado.

O Governador Civil manifestou o seu reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nas IPSS, bem como pela UIPSS e pela CNIS, mas não deixou de considerar que se torna imprescindível que as instituições se abram mais umas às outras, para uma maior rentabilidade das respostas sociais.
“Se é inevitável a entrada do sector lucrativo nesta área, as IPSS nada têm a recear”, porque, para o privado, “só vão os que podem pagar”, assinalou Filipe Brandão. Ainda acentuou que as redes sociais têm uma palavra a dizer, para as IPSS continuarem a existir e a prestar serviços de qualidade.

Três perguntas a…

Lacerda Pais,
Presidente da UDIPSS-Aveiro


– Quais foram os objectivos deste primeiro Encontro das IPSS do Distrito de Aveiro?
– Este primeiro lugar pretendeu dar a conhecer às instituições os assuntos que nos preocupam enquanto União, assuntos esses que devem preocupar também as próprias direcções das IPSS. Esses assuntos são, em especial, o trabalho em rede (rede de projectos e de intenções); a formação dos dirigentes, voluntários e trabalhadores; a qualidade dos serviços que prestamos e dos projectos que apresentamos; e o exercício da solidariedade. Para além disso, sentimos que as instituições necessitam de informação atempada, principalmente ao nível da legislação e das intenções do Estado.

– Quais são, então, as dificuldades que as IPSS estão a encontrar?
– As IPSS têm encontrado dificuldades em entender o que se pretende ao nível do Governo, realidade esta que já comunicámos à CNIS. Há uma falta de diálogo com o Governo Central, porque, no âmbito do Poder Local, há uma relação muito boa, entre as Uniões, os Centros Distritais de Segurança Social e as autarquias.

– AS IPSS estão atentas aos novos desafios sociais?
– Pelo que conhecemos, as instituições estão atentas ao que se passa nas áreas das suas intervenções. Há IPSS que estão a responder a problemas ligados à toxicodependência, há outras a cuidar de projectos relacionados com acamados ou com cuidados continuados e algumas ajudam os que vivem na solidão, marginalizados ou rejeitados. Sabemos que os novos desafios estão relacionados com o utente-tipo do futuro, que será uma pessoa com mais de 80 anos, na maioria dos casos mulheres. Também há muitas instituições vocacionadas para o apoio aos imigrantes, para além dos sectores normais, Creches, Jardins-de-Infância, ATL, Lares, Centros de Dia e Apoios Domiciliários, entre outros.

* Texto e fotos
Na primeira foto: Lacerda Pais com Lino Maia.

 

Data de introdução: 2006-11-12



















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