A CASA DO CAMINHO

Todas as crianças têm direito a ter um colo!

Visto de cima, em contra-picado, o edifício assemelha-se a um trevo de quatro folhas. Cada uma das folhas corresponde a um módulo e o centro é um polivalente, um espaço comum usado por todas as crianças. A casa, toda em cor-de-rosa, está bem protegida de olhares indiscretos por um gradeamento bege e alto e só a placa identificativa revela a natureza daquele local.

Estamos na Associação Casa do Caminho, uma Instituição Particular de Solidariedade Social situada na Senhora da Hora, concelho de Matosinhos. É o primeiro centro de emergência infantil do Norte e acolhe crianças em perigo, vítimas de maus-tratos, negligência ou quaisquer outras formas de violação do desenvolvimento ou dos direitos dos mais pequenos. Dos 0 aos 6 anos, 60 crianças estão entregues 24 horas por dia aos cuidados de profissionais especializados que tentam tornar o ambiente da instituição o mais familiar possível.

A instituição foi fundada em 1988 por um grupo de amigos envolvidos em serviços de voluntariado, que se empenharam em construir “uma casa do caminho” como símbolo de um local onde se recuperam energias de corpo e alma para a grande caminhada que cada criança tem pela frente. Inicialmente apta para acolher dez crianças, a Casa foi crescendo e mudando de instalações até ao edifício actual, inaugurado em 1997. O lema da Casa está gravado logo na parede frontal do edifício cor-de-rosa: "Todas as crianças têm direito a ter um colo!", e é isso que os profissionais que lá trabalham, bem como os diversos voluntários, tentam dar a cada um dos meninos e meninas até ao encaminhamento para a adopção ou o regresso à família biológica.

O primeiro módulo da casa cor-de-rosa é o da entrada, com a secretaria, a direcção e a sala de reuniões, seguido de um corredor onde estão dispostos os vários gabinetes técnicos. A directora, Maria da Luz Silva, recebe-nos de sorriso nos lábios e encaminha-nos para a sala da direcção, onde fornece alguns dados sobre a instituição. Desde o início do seu funcionamento, em 1990, até aos dias de hoje, a Casa do Caminho acolheu 433 crianças e encaminhou 235 para adopção, 144 para famílias, biológicas ou adoptivas, e 44 para outras instituições de acolhimento. Educadora de infância de profissão, Maria da Luz explica-nos que, enquanto unidade de emergência infantil, o principal objectivo da instituição é “dar um colo a estas crianças e encontrar uma família onde possam desenvolver-se harmoniosamente”. O desejo passa sempre pelo regresso à família biológica, desde que esta reúna as condições para proporcionar esse desenvolvimento saudável, mas – explica a directora –“o fundamental é que a criança tenha uma família, seja biológica ou adoptiva”.

Caminhando na direcção dos outros módulos torna-se evidente a presença de crianças: choros, risos, palrares, guizos e caixas de música aumentam de volume a cada passo.
O módulo rosa alberga os bebés até um ano e meio. Várias funcionárias dão a papa aos pequenos mais esfomeados, enquanto outros descansam tranquilamente nos parques. Há ainda as crianças que, das suas cadeirinhas alinhadas, olham com curiosidade tudo o que se passa à sua volta. No berçário a meia-luz, a respiração profunda do sono dos recém-nascidos é o único som audível. Há bebés que vêm directamente do hospital, com poucos dias de vida, para a Casa.
Em termos estatísticos, a maior parte das crianças entra na instituição sem ainda ter completado um mês de vida e mais de 50 por cento do total de entradas dá-se com menos de três meses. Muitos já vêm como o consentimento verbal para a adopção, embora esse consentimento só possa ser expresso legalmente aquando das seis semanas de vida.

“A perda das figuras parentais é um dos principais obstáculos a ser ultrapassado”, afirma Ana Figueiredo, psicóloga-clínica a trabalhar na instituição há sete anos. Para as crianças que chegam à Casa do Caminho depois do primeiro ano de vida, a mudança é grande e traumatizante. “Já conviveram e estão habituadas com uma realidade familiar onde a figura do pai e da mãe são uma presença e, de repente, estão perante um novo lugar, um ambiente colectivo, ao lado de outras crianças, o que gera uma ruptura com a qual é difícil lidar”, explica ao Solidariedade a psicóloga. Para as crianças que chegam ainda com poucos meses de vida, os primeiros laços de vinculação são criados na própria instituição. Aplica-se a chamada "teoria das madrinhas". "Quando uma criança chega, alguém se nomeia madrinha dessa criança, o que significa que vai dedicar-se mais a ela, tentar estar mais presente nas rotinas do sono, da papa, das mudas de fralda, para que a criança consiga ter o maior número de vezes possível o mesmo rosto perto de si", explica Ana Figueiredo. A técnica adverte para a dificuldade que é adaptar os turnos e os horários de todo o pessoal para ser aplicável a teoria das madrinhas, bem como para o facto de ser a única psicóloga para uma instituição com 60 crianças. “Tem que ser feita a triagem dos casos mais complicados”, confessa a profissional.

A nossa visita continua em direcção ao módulo azul. As crianças entre um ano e meio e os três anos são as ocupantes. A educadora, sentada no chão, está rodeada de brinquedos que ganham vida nas mãos dos mais pequenos. Entre risos, exclamações, pequenas palavras e alguns choros, cada criança entretém-se e vai dando os primeiros passos numa casa, que para muitos, é a única que conheceram. No dormitório ao lado as camas alinhadas ainda estão desfeitas do sono da tarde. As rotinas diárias incluem diversas actividades fora dos muros altos da casa cor-de-rosa. “Principalmente os mais crescidos têm algumas actividades na comunidade”, diz-nos a directora Maria da Luz. “Vão ao cinema, vão passear ao parque, ao circo”, exemplifica, referindo que as saídas são feitas em grupo, “pois somos uma instituição, o que é sempre diferente de saídas individuais”. A visita dos familiares é outro dos momentos mais importantes na Casa. A preparação cuidadosa das crianças é uma medida que Ana Figueiredo entende necessária, uma vez que nem sempre o esperado reencontro acontece. "Muitos destes pais vão desiludindo sucessivamente os filhos. Quando a relação tem qualidade e há afecto e preocupação, as crianças sabem que os pais voltam sempre. Caso contrário, sentem que não são suficientemente boas, ou bonitas, ou que fizeram alguma coisa de muito grave para os pais não as visitarem", diz. A psicóloga explica que muitas das crianças idealizam os pais e inventam motivos fantasiosos para a sua ausência, como forma de barreira contra o sofrimento. “Mesmo aquelas que nunca conheceram os pais, depois de crescerem, começam a fantasiar a sua existência”, afirma a técnica.

O esforço dos 52 trabalhadores da instituição vai no sentido da aproximação ao modelo familiar e passa pela necessidade de todas as crianças acolhidas se sentirem desejadas e amadas. “Muitas das crianças não têm noção de que estão numa instituição de acolhimento, porque este local foi o único que conheceram”, diz-nos a directora e acrescenta que “o que têm noção é da falta de algo que a própria Casa têm dificuldade em lhes dar: a atenção individualizada a que cada uma tem direito, ou seja, uma família”, conclui Maria da Luz.
O módulo verde é o último e é a casa dos mais velhos. Dos três aos seis anos (e às vezes um pouco mais), os pequenos moradores, sentados à volta de uma mesa redonda, estão a desenhar. A educadora dá orientações, mas a nossa presença perturba-os. Num sonante boa tarde, os meninos e meninas olham admirados para os estranhos que entram na sala. Aproveitamos aquele módulo para sair até ao recreio e todos os pequeninos correm até à parede de vidro para ver o que estamos ali a fazer.

Para além dos módulos, a Casa é composta pela cozinha, o refeitório, o gabinete médico e a sala de visitas. A instituição vive dos apoios da Segurança Social, que representam 45% do total do orçamento. Todas as outras receitas têm origem nas quotas dos associados, em donativos, sejam eles em dinheiro ou em espécie e através da organização de festas para angariação de fundos. Para se ter uma ideia, a instituição gasta cerca de oito mil fraldas por mês, o que dá cerca de 96 mil unidades por ano. Maria da Luz explica-nos que as necessidades para o cuidado diário das crianças variam muito. “Se há alturas em precisamos de determinadas papas, há outras em que se tornam excedentes, porque há prazos de validade a cumprir”, diz a directora, acrescentando que “felizmente, é cada vez mais comum as pessoas perguntarem o que é que nós precisamos, em vez de darem qualquer coisa”, explica-nos. Também como forma de apoio financeiro, A Casa do Caminho dispõe de um Bazar Social, em Matosinhos. Nesse espaço são comercializados, a preços simbólicos, alguns excedentes da instituição, como, por exemplo, roupas, brinquedos, objectos de decoração, cassetes de vídeo, etc. Maria da Luz refere que, para além do objectivo económico, o bazar também representa uma preocupação ecológica, através da promoção da reutilização dos materiais e uma preocupação social, “porque há pessoas que não podem adquirir produtos nas lojas convencionais”, afirma a directora.

De regresso à entrada do edifício, despedimo-nos de uma instituição que para tantos meninos é sinónimo de lar. Vítimas inocentes de meios disfuncionais, aprendem a dar os primeiros passos e a ver o mundo por detrás de um portão alto e de um gradeamento bege, que os protege da sociedade da qual foram excluídos. Para muitos o sonho está muito além do alto muro e cruzá-lo significa abraçar uma vida nova onde aprendem, finalmente, as palavras: pai e mãe.

 

Data de introdução: 2007-03-17



















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