ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DAS LAMEIRAS

Uma aldeia dentro da cidade de Famalicão

Quem chega a Vila Nova de Famalicão pela entrada sul, depara-se com uma construção enorme, rectangular, denominada Edifício das Lameiras. Com vários lanços de escada de acesso, o enorme bloco fecha-se sobre si mesmo, num grande rectângulo de cimento, que domina todo o quarteirão. Os vários corredores percorrem o edifício de ponta a ponta e a roupa estendida ao sol é comum em quase todas as varandas. Aqui e ali, algumas crianças brincam pelos corredores entretidas com uma bola, sob o olhar atento das mães na soleira da porta de casa, a dar dois dedos de conversa com a vizinha do lado.

As varandas são pintadas de encarnado escuro e o edifício veste-se de um tom bege amarelecido, numa roupagem bem conservada, mas que demonstra alguma idade. Numa das laterais, há andaimes e homens a retocar o estuque das paredes, entre outras coisas. O parque infantil e o campo polivalente dominam a zona central do espaço, mas agora está deserto. Ali moram perto de 1600 pessoas, num total de 320 famílias, distribuídas por 290 habitações.

O Edifício das Lameiras ou Complexo Habitacional das Lameiras pertence à Freguesia de Antas (S.Tiago), uma das cinco que constituem o núcleo urbano da cidade de Vila Nova de Famalicão. Também fazem parte do empreendimento 30 lojas comerciais. O nome “Lameiras” nasce do lugar onde foi construído, a antiga “Quinta das Lameiras”, um espaço situado na zona nascente da cidade, meio abandonado, muito húmido, onde desaguava o ribeiro de Talvai, hoje canalizado até ao Rio Pelhe. O início da construção remonta a 1978, altura em que as políticas governamentais se voltaram para a construção de habitação social.

As Lameiras são um bairro social, mas com uma particularidade: têm uma Associação de Moradores constituída desde que começou a ser habitado, em 1983. Sem direito a inauguração oficial, uma vez que as entidades envolvidas na construção não o quiseram fazer devido a problemas estruturais de construção, os próprios moradores, em colaboração com a paróquia de S. Tiago de Antas, tomaram a iniciativa de assinalar o Dia de Páscoa, como o Dia do Edifício, com a celebração de uma missa campal. Para além de um bairro, nascia assim uma instituição particular de solidariedade social que veio mudar a imagem daquele espaço na cidade. “No início, ninguém se conhecia. Vieram pessoas de muitos lados, Braga, Guimarães, Esposende, Póvoa de Varzim e fomos tomos “metidos” aqui”, relembra Jorge Faria, actual presidente da instituição e morador das Lameiras.

“Por qualquer coisa, fazia-se logo um problema e as zaragatas eram comuns, por isso tínhamos que agir para que isto não se transformasse num gueto social”, afirma. E não perderam tempo. Foi eleita uma comissão, com um representante de cada um dos 24 patamares do edifício, que pôs mãos à obra. Em 1984, a associação legalizava-se. “Os moradores sabiam que existia uma entidade que os defendia, onde podiam queixar-se dos problemas do quotidiano, sendo que nós encaminhávamos e tentávamos resolver todas as situações”, diz o presidente.

Apesar desta organização social, o estigma de bairro social ainda perdurou durante alguns anos. “Nos primeiros seis, sete anos, ser morador das Lameiras prejudicava ao arranjar emprego, era motivo de exclusão na escola, etc.”, afirma Jorge Faria.

As cerca de 700 crianças que habitavam na década de 80 o edifício foram alvo de discriminação, como atesta outro morador do bairro e presidente da assembleia-geral da instituição. “Os nossos filhos foram marginalizados nas escolas onde foram colocados”, diz José Maria Costa, “eram postos em turmas separadas, isolados dos outros”. Essa situação e o facto das escolas terem ficado sobrelotadas com tantas crianças, levou a que a associação reivindicasse uma escola para a zona nascente da cidade. Dos pré-fabricados, onde funcionaram os estaleiros das empresas que construíram o edifício, fundou-se, a título provisório, a Escola Primária das Lameiras, que mais tarde foi transferida para um edifício construído de raiz, onde funciona actualmente. A sede da associação esteve também durante muitos anos a funcionar no rés-do-chão de uma lateral do edifício, mas em 2003, dezoito anos depois da sua fundação, inauguraram uma estrutura de raiz, onde foram concentradas todas as valências: creche, jardim-de-infância, ATL, centro de dia, apoio domiciliário e lar de idosos. Para além de manter a função inicial para que foi criada, a Associação de Moradores presta apoio directo a cerca de 400 utentes, distribuídos pelas diversas valências e emprega 70 funcionários. A instituição abriu-se à cidade e os utentes provêm de qualquer parte, sendo que, por exemplo, o número de crianças das Lameiras não ultrapassa os vinte por cento.

Em ano de comemoração das bodas de prata, a associação está emprenhada em novos projectos sociais. Jorge Faria adianta que foi aprovada a candidatura apresentada à segunda fase do programa de alargamento da rede de equipamentos sociais (PARES) que prevê a “construção de uma nova creche no piso O do edifício do Centro Social e Comunitário e completar o 2.º piso, alargando o lar de idosos das actuais 26 camas, para 35”.

A AML prevê ainda executar o projecto de construção, elaborado pela Câmara de Vila Nova de Famalicão, para a construção de 15 apartamentos T0 nas antigas instalações da creche e jardim-de-infância no Edifício, destinados a pessoas idosas ou que vivam sozinhas. O balanço dos 25 anos é, segundo o presidente, “muito positivo”. “Em 1983 morar nas Lameiras era motivo de exclusão, quer nos estudos, quer no emprego, hoje viver neste bairro é viver numa comunidade com um percurso de vida e objectivos comuns”, afirma.

Jorge Faria faz questão de lembrar que já vieram vários moradores de bairros sociais de todo o país para conhecerem o trabalho da AML, de forma a que pudessem implementar uma estrutura idêntica no seu bairro. “Há algum tempo recebemos um pedido de visita de diversos moradores de bairros sociais do Barreiro. Eu pensava que viria um carro, quando aparece cá um autocarro de sessenta lugares completo com pessoas que nos queriam conhecer”, exemplifica o presidente de sorriso nos lábios. Apesar disso, existem problemas sociais, mas “aqueles que se encontram em qualquer freguesia e não potenciados por sermos um bairro social”, afirma o presidente. “As situações de droga ou delinquência estão identificadas e tentamos agir no sentido de evitá-las”, garante. Parte dos moradores iniciais (cerca de 20 por cento) já saíram do edifício e foram substituídos por outras pessoas, “que não conhecem este espírito de união e que têm mais dificuldade em se integrar”, refere o presidente, relembrando que o trabalho continua.

À medida que o Sol vai descendo no horizonte, o rebuliço começa a agitar o grande Edifício. As pessoas regressam do trabalho e os miúdos correm para o parque infantil, na esperança de poderem andar de baloiço ainda antes do jantar. Ao dirigir-nos para um dos lanços de escadas que dá acesso ao exterior, alguém pede ajuda. “Importa-se de me dizer onde fica o quatro e o sete?”, pergunta uma jovem rapariga de etnia cigana que aparentava não ter mais de vinte anos, com um bebé pequeno ao colo. Nas mãos tinha uma chave de caixa de correio, enquanto olhava para as imensas ranhuras na parede, com números pequeninos. Num olhar rápido, descobrimos a caixa número 47 e dissemos-lhe: “É esta minha senhora”. Ela agradeceu e lá meteu a chave na ranhura…

 

Data de introdução: 2008-03-06



















editorial

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