Novos caminhos da Solidariedade

1. Na certeza de que com o curso dos tempos outros desafios são endereçados, “Novos Caminhos da Solidariedade” será o lema do próximo Congresso da CNIS, que vai decorrer no final deste mês de Janeiro.
Assim se espera uma reflexão sobre os novos caminhos da Solidariedade, na Solidariedade e para a Solidariedade.
Novos caminhos com direcções e rumos poderão ser rasgados.
Sulcar-se-ão caminhos novos, assim se antevê, porque há originalidades na conjuntura e perspectivam-se novidades nas sendas.
Certamente será uma postura de leitura partilhada e ampla, assumida pelas Instituições que têm vindo a dar corpo e causas a um sector que se redimensiona.
A meta será aquela que sempre pairou no horizonte do sector: a excelência, porque na actividade solidária toda a centralidade é dada à pessoa humana, enquanto destinatário e agente. Por isso mesmo, previsivelmente, qualidade e educação serão palavras-chave, várias vezes entoadas e a dar definitivamente um tom de marca ao sector.
Já o eram, evidentemente, mas, a partir do Congresso, com renovado ênfase e com alargada dimensão.

2. Ultimamente têm-se vindo a multiplicar as referências às Instituições de Solidariedade e até parece estar na moda tecer-lhes loas ou engrossar campanhas em que elas apareçam como bandeira. E a conclusão parece clara e sustentada: hoje as Instituições de Solidariedade já são conhecidas e reconhecidas e começam a ser olhadas com respeito e apreço porque a elas muito se deve e delas muito mais ainda se espera. Respeito e apreço merecidos e tardios.
O conhecimento e o reconhecimento surgem agora, não tanto porque hoje sejam muitas mais as Instituições ou façam aquilo que ontem não faziam, mas talvez porque, de repente e por várias razões, o mundo parece ter despertado para a sua capilaridade (quase tantas quantas as aldeias deste país, por mais recônditas que sejam), para a sua dimensão (são muitas e muitos os que denodadamente lhe dão expressão, quer como colaboradores quer como dirigentes voluntários) e para a sua capacidade de congregar esforços e engendrar soluções para um sem número de situações (na solidariedade não há problema que não aguce a apetência e estimule o engenho). E parece que quanto mais se faz sentir a decantada e global crise mais olhares se voltam para as Instituições de Solidariedade e mais elas são vistas como solução. Por vezes de recurso, quase sempre de excelência. Para o presente e com futuro.
Terá sido a crise a fazer detonar o clique?
Certamente terá dado a sua ajudinha: em tempo de crise os olhares dos sensatos concentram-se nas réstias de esperança. Mas há muito pairavam por aí ventos a fazer despertar e sinais a indicar uma atenção maior e em crescendo, que pareciam em perfeita consonância com a sensação que emergia no virar do milénio: o século XXI ou será social ou não será…
Afinal, parece estar a confirmar-se que será social. E, portanto, menos economicista e mais humano. Sem recuo.
Quanto mais humano melhor.

3. Como se impunha, a CNIS também deu o seu contributo para esta tomada de consciência sobre a capilaridade, dimensão e capacidade das Instituições de Solidariedade. Não apenas ultimamente. Mas, como lhe competia, também nestes últimos tempos. A própria CNIS, enquanto organização maioritária e representativa do sector e enquanto estrutura de pensamento e liderança, começou a ser conhecida e reconhecida. Ainda bem.
E quando, num Congresso que também é eleitoral, e sem descurar o facto de ser eleitoral, a CNIS propõe uma reflexão sobre “novos caminhos da solidariedade”, adopta uma postura e transmite alguns sinais. São sinais de sentidos bem definidos numa caminhada que só merece ser empreendida quando o humano é a origem, o móbil, a alma e o destino.
Independentemente dos actores que doravante emergirem, a CNIS é chamada a ser um espaço e um modo de liderar e de estruturar com pensamento e dinâmica um sector. Simultaneamente, é chamada a ser uma espécie de consciência ética da comunidade, desafiada a dar mais importância à pessoa do que à propaganda, ao humano do que ao mercado, ao ser do que ao ter.
Neste sentido, o Congresso é luminar no seu lema: apontando a qualidade e a educação como novos caminhos da solidariedade, na solidariedade e para a solidariedade, estará a dar sinais de que o essencial não é nem o assunto nem o conteúdo, mas a perspectiva, a relação e o modo de ser, que cuida e que toma conta, que se envolve e que se deixa envolver, que é e que deixa ser, que cria e que faz crescer.
Uma hora é uma medida, uma bola é um passatempo e um conceito é um instrumento, mas cada pessoa é todo o mundo. São todos os mundos do mundo que a educação tem por mote. Assim, a qualquer momento em qualquer mundo, uma palavra, um gesto ou um olhar pode entrar e não mais sair. Se tivermos sabido ou podido preservar e deixar preservar esses momentos, podemos muito bem tocar não apenas naquilo que no momento estamos fazendo, mas toda uma vida - e isso é verdadeiramente educação. E esse é um toque eficaz de qualidade na solidariedade.

*Presidente da CNIS

 

Data de introdução: 2009-01-07



















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