OPINIÃO

Os clandestinos e a imagem da Europa

Juntamente com a guerra no Iraque, a prisão de Gantânamo funcionou, nos últimos anos, como arma de arremesso extremamente eficaz contra a imagem dos Estados Unidos no mundo. Mesmo os europeus, e sobretudo os europeus, não se cansaram de a utilizar como prova da sua superioridade moral e civilizacional sobre os norte-americanos. Não admira pois que o presidente Obama tenha prometido abandonar rapidamente o Iraque e fechar a prisão de Guantânamo, onde se encontravam detidos, por tempo indeterminado, militantes islamitas acusados de participação directa ou indirecta na guerra do Afeganistão ou em alegadas operações terroristas contra os Estados Unidos. A incompreensível situação jurídica dos prisioneiros, e ainda as acusações intermitentes da utilização de tortura de que estes seriam alvo, puseram definitivamente em causa o estatuto moral da maior potência política e militar do Ocidente.

Não obstante os seus propósitos, o novo inquilino da Casa Branca não conseguiu ainda solucionar qualquer destes dois problemas. No Iraque, o mês de Agosto foi um dos mais violentos de sempre e, no que respeita a Guantânamo, a libertação dos prisioneiros está a ser muito mais lenta e difícil do que ele esperaria.
Vem isto a propósito do comentário de um conhecido jornal francês, suscitado pela decisão da actual presidência da União Europeia, exercida pela Suécia, de repescar o velho dossier da imigração clandestina. Um dossier antigo e com episódios profundamente dramáticos, o último dos quais ocorreu, mais uma vez, nas proximidades da ilha de Medusa, Itália.

A Suécia, país conhecido pela sua história de acolhimento, pretende enfrentar, de novo e corajosamente, o desafio de fazer aprovar por todos os membros da União um plano consensual e eficaz para o drama dos chamados imigrantes clandestinos que, apesar de todos os perigos, teimam em chegar aos países mediterrânicos, para ali iniciarem uma vida nova, que eles sonham ser uma vida melhor. Na maioria dos casos, o sonho transforma-se em profunda desilusão, porque muitos deles, ou são repatriados ou são instalados em campos temporários desprovidos, em alguns casos, das mínimas condições de acolhimento. São simplesmente desumanos e indignos.
No actual clima europeu de desemprego e de crise económica, fomentador de reacções proteccionistas e racistas, não se vê muito bem como é que a iniciativa da presidência sueca possa vir ter êxito, mas, até por isso, ela merece justificado louvor. Se não for possível encontrar uma fórmula política consensual quanto aos número de imigrantes que cada país pode receber, ao menos que os campos temporários de refugiados tenham condições mínimas de acolhimento. Sob pena de as acusações europeias aos americanos, por causa de Guantânamo, perderem o seu peso moral.

Por António José da Silva

 

Data de introdução: 2009-09-13



















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