CENTRO SOCIAL PADRE MANUEL JOAQUIM DE SOUSA

Crescer apesar das dificuldades

Inserido na pequena Caldas das Taipas, a cerca de 10 quilómetros da cosmopolita Guimarães, a cujo concelho pertence, o Centro Social Padre Manuel Joaquim de Sousa é uma instituição que nasceu ainda no tempo em que o Estado Novo imperava, com o propósito de criar um espaço onde os pais trabalhadores, essencialmente rurais, pudessem deixar os seus filhos.

Nesse ido ano de 1970, mais concretamente a 7 de Abril, o padre Manuel Joaquim de Sousa, juntamente com um grupo de habitantes da freguesia de Caldelas, fundava a Associação para o Jardim Infantil de Caldas das Taipas, que nove dias depois dava início à sua actividade.
A instituição funcionou durante 31 anos num edifício que o passar dos anos foi degradando e que, entretanto, deixou de responder às exigências e necessidades. Foi, então, que a 26 de Dezembro de 2001 a instituição se transferiu para um novo e moderno edifício, optando ainda por alterar a sua designação numa homenagem ao seu fundador, passando, assim, a chamar-se Centro Social Padre Manuel Joaquim de Sousa, até porque as valências prestadas já haviam deixado de ter como único fim o apoio à infância, passando igualmente a abranger os idosos.

O crescimento paulatino da instituição, que passou a ter o estatuto de IPSS no ano de 1984, foi consonante com as necessidades de uma população que, entretanto, à actividade rural dominante aquando do nascimento da mesma, passava a empregar-se nas pequenas indústrias que ali foram surgindo. Por outro lado, à semelhança do que vem acontecendo um pouco por todo o País, o envelhecimento da população exige da sociedade uma resposta cada vez mais activa para este segmento, ao que a instituição nunca virou a cara, bem pelo contrário.

Ao fim de mais de 40 anos de actividade, o actual presidente, Carlos Remísio de Castro, no cargo desde 1998, e apesar das grandes dificuldades por que a instituição passou recentemente, é um homem satisfeito e orgulhoso da obra que dirige.
“Modéstia à parte, penso que é uma instituição de excelência…”, refere, explicando: “Conseguimos reunir quadros técnicos muitíssimo bons e tem havido muito bom ambiente entre eles de maneira a que é possível realizar acções extra-curriculares que têm agradado muito à população, em geral, e aos pais, em particular”.
O moderno e funcional edifício que a instituição ocupa actualmente surgiu fruto de um esforço conjunto entre a freguesia de Caldelas e a Câmara de Guimarães, como recorda Carlos Remísio de Castro: “Desde que estou envolvido com a instituição que lutamos com grandes dificuldades de instalações. Em 1990, ocupava eu o cargo de presidente da Junta de Freguesia de Caldelas, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães, que ainda o é, incentivou-nos a avançar com uma estrutura mais moderna e adequada, facilitando-nos, de certa forma, a vida, na questão das infra-estruturas, nomeadamente na aquisição de terreno e nas acessibilidades. Isso foi a primeira pedra que lançámos para hoje termos uma instituição que, de facto, cobre as valências todas num edifício moderno e adequado às necessidades da população”.
Mesmo assim, e porque a ambição faz parte de quem não se acomoda, o presidente da instituição deixa um lamento.

“Actualmente podia ser um bocadinho maior, mas o futuro é uma incógnita e faz-nos ter algumas cautelas, pelo que pensamos ir devagar e pelo seguro nos passos que pretendemos dar. A nossa intenção era ir mais rápido, mas o momento não aconselha a fazê-lo”.
No presente, o Centro Social Padre Manuel Joaquim de Sousa tem a seu cargo 33 crianças em Creche, 90 no Pré-escolar (tendo capacidade para mais 10), 40 em ATL (17 em clássico e 23 em pontas), 20 idosos no Centro de Dia (com capacidade para receber ainda mais cinco) e presta apoio domiciliário a 30 idosos, não só de Caldelas, mas também de outras freguesias vizinhas, como seja Santa Cristina, S. Lourenço e Balasar, “onde não há respostas sociais”, refere a directora técnica da instituição Vera Fertuzinhos, e ainda às freguesias de S. Clemente de Sande, S. Martinho de Sande, Vila Nova de Sande, S. Cláudio Barco e Ponte.
Para além destas valências, é igualmente a instituição que alberga os serviços do RSI (Rendimento Social de Inserção) e um Balcão de Apresentação Semanal, em parceria com o IEFP, e ainda o GIP (Gabinete de Inserção Profissional), um organismo sob tutela da Segurança Social. Só para estes serviços, a instituição destacou cinco funcionários dos 41 que compõem o quadro de pessoal. A estes profissionais juntam-se ainda quatro trabalhadores independentes (docente de Inglês, psicólogo, nutricionista e terapeuta da fala), dois em Contrato Emprego Inserção e ainda um outro em estágio profissional.

Com especial vocação, desde a fundação, para o apoio à infância, a instituição decidiu fazer uma forte aposta no ATL, como resposta às inúmeras solicitações da comunidade. Porém, tal como em muitas outras IPSS por este Portugal fora, a decisão do Ministério da Educação em prolongar o horário escolar travou as intenções dos responsáveis da instituição das Taipas, o que quase causou o fim prematuro da mesma.
E refira-se que caso os dirigentes não tivessem encontrado uma solução atempadamente, o fecho da instituição, que pairou no horizonte, seria um enorme problema para a pequena vila.
“Seria bastante dramático, pois não há outras opções aqui na terra”, argumenta Carlos Remísio de Castro, explicando: “Quando falo em fechar as portas é porque estávamos a chegar a uma situação de ruptura, mas mexemo-nos antes que isso acontecesse. Foi há coisa de dois anos… Nós fizemos uma aposta muito grande no ATL, porque tínhamos muitos pedidos dos pais que tinham grandes dificuldades em colocar os filhos fora do horário escolar e, ao apercebemo-nos das dificuldades, quisemos ir de encontro às necessidades dos pais. Só que depois o Ministério da Educação aumentou o horário escolar, o que nos prejudicou extraordinariamente. Fizemos investimentos muito elevados nessa área e que ainda não conseguimos recuperar”.

Fronteiro ao novo edifício-sede cresceu igualmente um enorme prédio de apartamentos, cujo rés-do-chão estava destinado a armazéns. Então, os dirigentes da IPSS das Taipas, na perspectiva da aposta no ATL e para protegerem a instituição compraram toda a área térrea.
“Adquirimos todo o rés-do-chão, que estava condicionada para armazéns, o que nos iria levantar alguns problemas com cargas e descargas e ocupação do espaço em frente aqui ao edifício-sede”, justifica o presidente, acrescentando: “Inicialmente, a ideia era ampliar, porque ainda estava em fase de crescimento, a valência do ATL e adaptámos todo o rés-do-chão”.

“Face à enorme lista de espera para o ATL”, refere Vera Fertuzinhos, “a obra tinha como propósito albergar 120 crianças”, numa altura em que a instituição já prestava apoio a quatro dezenas de petizes.
Contudo, «traídos» pelo Ministério da Educação e com o investimento já feito, os responsáveis da instituição viram-se obrigados a encontrar uma solução de recurso.
“Então, nessa perspectiva adiantámo-nos e criámos as valências para o Centro de Dia e, desde então, é ali que tem funcionado”, diz Carlos Remísio de Castro. Desta forma, o Centro de Dia saiu das antigas instalações que eram alugadas. Mas se houve poupança de recursos, no que toca à renda, a verdade é que foi necessário readaptar as instalações para o acolhimento de idosos, quando as obras anteriormente realizadas se destinavam a receber crianças.

A estas barreiras, entretanto ultrapassadas, soma-se aquele que, segundo o presidente da instituição, é o grande problema da obra que gere… e de muitas outras por este País fora.
“Angariar receitas é o nosso grande problema, porque estamos inseridos numa vila em que os recursos dos casais não são grandes. Isto não é uma vila citadina, o que nos levanta alguns problemas, pois as comparticipações dos utentes são relativamente baixas”, sustenta, argumentando: “E temos o drama, que todas as instituições têm, que são as comparticipações da Segurança Social serem muito, muito, muito reduzidas. Isso obriga-nos a um esforço extraordinariamente grande, a limitar a nossa acção, nomeadamente nas actividades extra-curriculares e nas curriculares também, mas é o que temos… E vamos fazendo-o da melhor maneira, muitas vezes com a comparticipação e a participação dos pais, mas, de facto, não temos grandes possibilidades financeiras. E creio que todas as IPSS que estão afastadas dos grandes centros têm o mesmo problema”.

Relativamente a este ponto, os apoios do Estado, Carlos Remísio de Castro tem uma opinião que é transversal a todos os voluntários que dirigem IPSS: “O grande problema é que as exigências do ponto de vista qualitativo por parte da Segurança Social são muito grandes e não são coincidentes com as verbas que transfere. Há muita exigência do ponto de vista técnico, de segurança, das actividades pedagógicas e da qualificação das pessoas, mas depois tratam tudo como se não houvesse nada. As transferências não reflectem a organização que se pretende, mas uma organização muito mais reduzida. Como é que fazemos face a isto tudo?... Sinceramente, é com muito engenho e arte… e muitas vezes com pedidos, inclusive ao Governo, como na situação muito difícil que atravessámos e que poderia mesmo ter-nos levado ao fecho de portas”.

Mas nem tudo é mau. “A Câmara de Guimarães está sempre atenta e disposta a ajudar em situações perfeitamente identificadas, fazendo um acompanhamento muito próximo”, afirma com agrado.
Dificuldades à parte, ou pelo menos enfrentadas, os dirigentes do Centro Social Padre Manuel Joaquim de Sousa não se rendem e querem prestar uma cada vez melhor assistência à população, tentando responder às necessidades mais prementes. Nesse sentido, Carlos Remísio de Castro revela o próximo investimento da instituição, no valor de 1.3 milhões euros: “Concorremos ao POPH para a criação de um Lar de Idosos, cuja candidatura foi aprovada, e estamos em processo de verificação de documentação para abrir um concurso público. Penso que dentro de ano e meio, dois anos o edifício estará construído. É num local diferente, fora deste ambiente, o que não quer dizer que não haja convívio entre os utentes”.

Mas o sonho de quem comanda a instituição é ainda maior, pois “há outra valência que nos falta cobrir, que é das crianças com deficiência”, confessa o dirigente, justificando: “Neste momento, muitas dessas crianças com mobilidade reduzida, não digo que estejam ao abandono, mas estão em situações que causam alguma preocupação. Nós poderíamos avançar nessa vertente e temos hipóteses disso, até porque temos capacidade de recursos nessa área, mas se tivéssemos espaços edificados para lançar esse apoio. Porém, também sabemos que, actualmente, as comparticipações de apoio da Segurança Social não estão abertas. Mas este é o objectivo, como conseguimos o lar de idosos, se tivermos tempo e a situação financeira melhorar também concretizaremos esse desejo”.

Apesar de declarar que “seria mais fácil gerir com folga financeira, pois cada situação anormal que surge é uma dor de cabeça”, Carlos Remísio de Castro é um voluntário satisfeito e explica porquê: “Dar continuidade a uma instituição que sentia grandes dificuldades e que, neste momento, respira, não muito facilmente, mas respira, e ter uma instituição que é o orgulho de todos é a minha maior satisfação. Penso que a própria vila em que se insere tem uma boa imagem daquilo que é o trabalho de qualidade prestado. E essa foi sempre a nossa grande preocupação, ou seja, prestar um serviço de qualidade, dentro das regras impostas, com todos os recursos humanos exigidos e a custos relativamente suportáveis pelos pais. É assim que temos trabalhado e que queremos continuar”.



CANTAR OS REIS PARA O DIA DA CRIANÇA

No dia em que o SOLIDARIEDADE visitou a instituição em Caldas das Taipas, os petizes da sala dos quatro anos faziam mais uma das suas incursões pelo tecido industrial da localidade, com o fito de angariar fundos para a festa do Dia Mundial da Criança.
“Nós gostamos de assinalar o Dia da Criança de uma forma diferente, mas é complicado com as verbas do dia-a-dia”, começa por explicar a directora da instituição Vera Fertuzinhos, acrescentando: “Então, começou-se a criar o hábito de ir Cantar os Reis aos locais onde os pais trabalham e às fábricas da terra. Eles contribuem sempre com algo, o que para nós é muito importante”.
E não se pense que os euros angariados pelas crianças servem outro propósito que não seja o da festa do seu dia.
“O dinheiro angariado é gasto na totalidade naquele dia com os miúdos, pois são eles que o angariam é com eles que é todo gasto”, assegura Vera Fertuzinhos.
E que bem que eles cantam… Quiçá, não estará ali um futuro ídolo de Portugal!...


Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2011-02-09



















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